sexta-feira, 9 de outubro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Vexame

Aparecido Raimundo de Souza

SÁBADO, eu e minha neta Ellen fomos para o casamento do meu sobrinho Chiquinho e Lisbela. Aparecemos no pedaço arrumadinhos. Dava gosto nos ver. Minha figura de barba feita, terno novo, os pisantes brilhando na graxa. Até um perfume roubado de mamãe passei. Minha neta num longo branco os cabelos soltos ao vento, os sapatinhos impecáveis a fizeram se assemelhar a uma princesa saída dos contos de fadas. Adentramos no imenso salão nos fundos da igreja onde acontecia a festa após a troca de alianças. Uma multidão incalculável se desordenava maciça. Logo na entrada, uma garçonete de tirar o fôlego me brindou com um cálice enorme.

Ingeri o líquido sem pestanejar.  Num piscar de olhos, mal havia esvaziado a taça, uma outra deusa encostou na minha beira. Afoito, passei os cinco dedes em dois cálices de vez. Sem melindres, mandei o conteúdo pra dentro, acossando a sede. Ellen, nesse interregno, se juntou à algumas amiguinhas do prédio onde morávamos. A primeira coisa que me veio à cabeça, assim que ela largou meu braço, sem dúvida alguma correr (ou pelo menos tentar chegar) perto dos recém casados e cumprimentá-los.

Como num passe de mágica, uma terceira garçonete de sainha muito curta, esbarrou em mim. Troquei os cálices vazios por outros dois abarrotados até a boca. Juro por tudo quanto é sagrado, não atentei para o chão. Por conta disso, não dei na telha que ele estava impecavelmente enceradinho, brilhando mais que minha fuça deslavadamente suada em face do sol quente que ardia por todo o firmamento. Fui andando como pude, tirando um e outro da frente, os passos bonitos e elegantes, o queixo erguido… todo posudo, e de repente o meu sapato direito resolveu ir pra frente num ímpeto e o meu corpo em sentido oposto.

Fiz um movimento leve que mais se assemelhava a uma dança desengonçadamente bamba e extravagante. Meus braços erguidos para cima, as pernas mal-ajambradas, para um lado, o outro pé girando feito um pião que se desapartara de uma cordinha invisível, de um moleque inexistente, dava a impressão cênica de ter tomado um pileque daqueles. Não caí deitado. Em compensação, os dois cálices foram beijar o chão e se espatifaram estrondosamente. Fiquei ali tremelicando, oscilando, dançando, ziguezagueando sozinho fremindo o esqueleto no meio dos demais convivas em franca polvorosa.

Uns batendo palmas, outros rindo feitos hienas fora do bando, o salão inteiro, de canto a canto igualmente a mim, bailando sem simetria. Do nada, num esquipático ajambrado pra aquém de desengonçado rodopiei a bel prazer de uma situação vexatória que até então nunca havia experimentado. Por azar, assediado num som barulhento, meu corpo magro desacostumado com os líquidos ingeridos em excesso, me flagrei inapto e desajeitado, e o mais inverossímil, sem ninguém se aproximando para me convidar a sentar num canto e sossegar os ossos.

O pior é que quanto mais tentava me equilibrar, um balouçar emborrascado me agitava descontroladamente. Em questão de segundos, parecia um boneco de papel sendo levado por uma rajada de través. Sem noção, acometido por uma tonteira própria dos alcoolizados grudado numa garrafa de cachaça da braba, completamente mamado, gritei:

— ESTÁ TÃO BOM O SOM QUE O MEU CORPO JÁ COMEÇOU ANTES A VER O PARAÍSO!

O salão inteiro, sem tirar nem pôr, sem pôr nem tirar, caiu no escárnio de uma risada fácil!

O Chiquinho jogou as flores para mim, Lisbela bateu palmas, Ellen gritou: “Vôôôô... vem sentar”. Dona Candoca mais seu Genaro, (os pais de Lisbela), berravam ao tempo em que faziam gestos com as mãos, tipo “vem, vem, sai fora, seu imbecil, se acomode...”. Outros partícipes na mesma sintonia meridiana sinalizavam gestos de Greenwich desengonçados, até que a banda tocou uma música de verdade, uma coisa mais digestível para eu poder obviamente terminar a dança sem dar um vexame mais corpulento.

Indiferente aos clamores, segui elétrico como um boneco sem noção. Fui dançando sozinho, saracoteando a carcaça de um lado para outro, até que finalmente me apoiei numa mesa e parei, estanquei a folia todo borrado de vinho ou licor, sei lá, o suor gotejando, pela minha epiderme feito uma múmia paralítica que dava a impressão de ter tomado todas. E cá entre nós, tinha, de fato. Dona Candoca, me vendo bamboleante, abriu espaço e veio me dizer:

— Rapaz, ninguém nunca divertiu uma festa inteira tão rápido assim! O senhor é um artista nato! Parabéns. Vou lhe convidar mais vezes...

Chegando em casa, carregado por dois brutamontes, (coisa de quinze ou vinte minutos depois), tirei os sapatos e me preparei para o banho. Encarei minha neta:

— Ellen, olha, para seu avô e não diga que não fui elegante, falei ou tentei, a voz assarapantada.  Vamos, responda. Você percebeu que fui literalmente aplaudido de pé!

E ela, se escangalhando numa gostosa gargalhada pra lá de estrepitosa, sentenciou a verdade:

— Eu vi, vô. Em dado momento, todo mundo que estava sentado entre as mesas, se levantou e se aproximou da sua pessoa pra rir melhor!

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Pavão, Nova Venécia, ES, 9-10-2026

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Talvez, lá no distante da curva... 
[Aparecido rasga o verbo] Aconteceu na lua de mel 
Batendo frontalmente nas bases dos “ladrões do povo” haveriam diferenças gritantes desses “enganadores” para os demais “maquiavélicos” e “safardanas” que enlameiam os eternos carentes de proteção? 

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