sexta-feira, 25 de setembro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Teoria da gaveta

Aparecido Raimundo de Souza

EXISTE UMA SABEDORIA simples, corriqueira, que a gente vai descobrindo devagar, aos poucos, com o passar dos anos, e que eu particularmente cognominei de “teoria da Gaveta”. Tal teoria diz assim: “cada pessoa que chega à nossa vida, cada momento, cada amor, cada alegria ou dor, tudo cabe numa gaveta própria”. 

Uma gaveta feita sob medida, com nome e endereço, e nenhuma se mistura com a outra. Essa teoria nos leva a acreditar piamente que o tempo é o grande armário. E nós, sem perceber, vamos arrumando tudo lá dentro, acertando com cuidado ou às vezes às pressas, empurrando, guardando, fechando a porta do armário, esperando que fique tudo quieto, que não incomode, que não volte mais.

Tem gaveta que abrimos com facilidade, assim meio de leve, como quem dá um sopro, ou toca uma flor. Ali ficam as coisas leves: o riso de quem amamos, um dia de sol vindo diretamente das profundezas da infância, uma palavra de amor, de carinho, de felicidade, de lembranças que alguém nos disse quando mais precisávamos.

A porta desse armário abre sempre quando menos se espera. E quando isso ocorre, às vezes escancara o que queremos, e o ar que sai de dentro dela é bom é benfazejo, traz calor, traz lembrança e o melhor de tudo, renova aquela esperança imorredoura que acolhe. Tem outras ocasiões, porém, que ficam pesadas, se deterioram com a madeira já inchada de tanta umidade e choro guardado.

Choro sentido, lacrimoso, e plangentemente duradouro. Ali nessas lágrimas dolentes, estão os trocentos erros que cometemos, as despedidas que doeram, os amores que se foram sem nenhuma explicação plausível, bem ainda as promessas que quebramos ou que despedaçaram conosco. Essas gavetas, todas elas a gente empurra com força, para a barriga, impulsiona, estimula, bate a tampa, às vezes até sem percebemos, trancamos e como se nada tivesse acontecido.

O fato é que a gente segue adiante, caminha fingindo que não existe, que está vazia, ou que o armário é pequeno e não cabe mais nada. Mas a regra maior dessa teoria é esta: nenhuma gaveta some, desaparece, cria asas e voa porque a gente esquece ou fecha e esquece dela e no pior dos mundos, abandona. Ela continua ali, no mesmo lugar, gruda no sangue, se faz intacta, com tudo o que tem dentro, ou seja, nem envelhece, nem perde o sentido, nem deixa de ser uma parte de nós.

O que muda é só a gente. Com isso, crescemos, aprendemos, ganhamos calos e paciência. Resumindo, um dia, sem querer, sem percebermos, passamos por ali e a mão toca novamente o puxador. Às vezes abrimos o armário inopinadamente sem querer e vemos que aquilo que parecia o fim do mundo, hoje é só uma história contada com calma, com um quê de esperança e felicidade. 

O que parecia anormal, aperreador e insuportável, ou ainda infernal e tresloucado, agora cabe na palma da nossa mão. O que parecia não ter saída, escape, perdão, num piscar de olhos ganhou compreensão. Descobrimos, estarrecidos e atônitos, que não precisamos jogar nada fora, absolutamente nada, porque até o que doeu se construiu com energia renovada.

Palavras sábias da escritora Telma Guimarães Castro Andrade, autora do livro “Viver um grande amor”, publicado pela Editora Scipicione. Percebam: Ela arremata: “Com isso nos refazemos em tudo o que somos hoje”. Há quem diga também que “viver é justamente isso: encher o armário e aprender a organizar”.

Créditos destas linhas da escritora Marcia Leite, autora do livro “Enfim sós”. Entre tapas e beijos, beliscões e bordoadas, “devemos separar dentro de nossas gavetas, tudo o que serve de lição, o que serve de lembrança, o que serve de exemplo para não repetir os erros de um ontem ainda presente.

Devo observar que devemos ter em mente e sobretudo entender que nenhuma gaveta é inútil, mesmo aquela que guarda perdas, perdões tardios, arrependimentos e caminhos que não deram certo. Nessa confusão toda, qual o melhor da teoria?  Bem, o melhor da teoria é um só: Ninguém leva o armário inteiro quando parte.

Mas em contrapartida, deixa gavetas abertas para os outros encontrarem um conselho, um gesto, um jeito de amar, uma história que ensina algo de bom e aproveitável. E quando alguém, anos depois, abrir aquela porta do armário ou escancarar uma simples gaveta, vai encontrar um pouco de nós, ainda vivo, respirando, como se tivéssemos ficado ali esperando, só para dizer:  “estive aqui, vivi isso, e tudo o que vivi e passei, valeu a pena”.

No fim das contas, somos indubitavelmente o conjunto de todas as gavetas que carregamos. E o que realmente importa, o que realmente faz toda a diferença não é o que guardamos fechado, mas o que aprendemos a levar dentro da alma, no interior do coração, algo leve, solto, sem dores e aborrecimentos, bem ainda sem precisar trancar tudo a sete chaves. Trancar tudo a sete chaves, nunca mais.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Venécia, ES, 25-9-2026

Anteriores:
[Aparecido rasga o verbo] Pequena e quase imperceptível definição de “ladrões do povo” 
O sofazinho azul, o dedinho polegar na boquinha e o olhar perdido num lugar que eu nunca descobri onde ficava... 
O fabuloso casamento de Cuteu e Cotia 
A Corrida dos credores

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-