Vinicius Macia
O ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF) Gilmar Mendes suspendeu o julgamento na Segunda Turma a liminar
que afastou o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues [foto], e o
diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada. Com o pedido de vista, o
decano pode segurar o julgamento por até 90 dias. Mesmo assim, os
ministros Nunes Marques e Luiz Fux acompanharam o relator, formando maioria. 
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
A sessão virtual
extraordinária iniciou às 10h desta terça-feira (8), duas horas e meia
após a decisão. Os advogados tiveram até 9h59 para apresentarem suas
sustentações orais. Logo na abertura, o decano pediu vista. Quatro minutos
depois, Fux acompanhou o relator. Logo em seguida, às 10h06, Nunes Marques deu
seu voto, formando a maioria. Ainda falta o voto de Dias Toffoli e o voto-vista
de Gilmar. A sessão termina às 23h59.
A Advocacia-Geral da União
(AGU) afirmou que irá recorrer da decisão. Em entrevista à CNN Brasil, o
advogado Marco Aurélio Carvalho, um dos conselheiros do presidente Lula (PT) e
integrante do grupo Prerrogativas, defendeu que seja protocolado o recurso antes
mesmo do cumprimento da determinação.
A liminar também determinou a
instauração de investigações criminais e procedimentos
administrativo-disciplinares contra Andrei e Almada. O ministro da Justiça e
Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, será intimado para cumprir o
afastamento.
Gilmar
se envolveu na crise com proposta sobre gabinetes
O decano se envolveu na crise
antes do pedido de vista. Gilmar formalizou uma proposta de emenda ao Regimento
Interno para impedir que policiais e militares atuem nos gabinetes, exceto na
segurança dos ministros. A remoção seria conduzida pela Presidência
imediatamente após a aprovação.
Hoje, delegados da PF são cedidos aos gabinetes para atuarem em conjunto à condução das operações. Mendonça e Moraes possuem dois delegados cada um. A permanência dos agentes é um dos assuntos críticos no desconforto que já havia sido instaurado entre Mendonça e Andrei.
Uma das críticas de Moraes a
Mendonça em seu despacho se vincula nas afirmações de invasão de competências.
Os documentos falam em obtenção bruta de provas, sem análise por um delegado,
além de interferência na estrutura administrativa e seleção de alvos por
preferência política. Mendonça considera o relatório ilegítimo e avalia que os
critérios adotados na análise são genéricos.
O
que diz a decisão de Mendonça
Na liminar, Mendonça manda uma
série de recados ao ministro Alexandre de Moraes. Para ele, Moraes prejudicou
as investigações ao divulgar conclusões que, em sua visão, são
"estapafúrdias" sobre sua atuação. Apesar de o pedido do Novo centrar
em supostas ameaças de Andrei ao banqueiro Daniel Vorcaro, o relator da
operação Compliance Zero decidiu focar no relatório de inteligência citado por
Moraes quando decidiu voltar contra seu colega de Corte o inquérito das fake
news. Agora, esta frente está em uma apuração apartada, conduzida pelo presidente,
Edson Fachin.
Durante toda a sua
fundamentação, Mendonça utiliza aspas para falar dos relatórios de
inteligência. Para ele, o documento é "apócrifo, "sem timbre ou
qualquer outro símbolo gráfico capaz de lhe empregar o mínimo grau de
legitimidade e confiabilidade, inviabilizando qualquer conferência quanto à sua
autoria e data de elaboração".
Além das medidas contra Andrei
e Almada, o ministro determinou que as investigações apurem como foram
elaborados os relatórios, quem determinou sua elaboração, quem realmente
elaborou, datas e se existem outros relatórios semelhantes. As conclusões, com os
documentos encontrados, devem ser enviadas ao seu gabinete.
Moraes
obteve o relatório após Mendonça levantar sigilo
O relatório foi obtido por
Moraes em uma determinação da última terça-feira (1º), mesmo dia em que
Mendonça levantou o sigilo do relatório que demonstra mensagens do banqueiro
Daniel Vorcaro direcionadas ao contato "Alexandre de Moraes".
O despacho revela que o
ministro recebeu inclusive as apurações contra si próprio, além de Mendonça e
os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques. Mesmo
assim, o ministro focou apenas no relator da Operação Compliance Zero (caso Master)
e da Operação Sem Desconto (fraudes no INSS).
No relatório de inteligência
citado, a PF aponta "indícios crescentes de enviesamento da condução da
supervisão judicial", incluindo suposta invasão de competências do órgão
investigativo, condução de delações premiadas, intervenção em decisões
administrativas e acesso ao material bruto da investigação, dispensando a
análise por um delegado, com o objetivo de selecionar os alvos por razões
pessoais e políticas.
"A revisão do delegado é
a etapa em que se verifica a cadeia demonstrativa, se afastam conclusões não
amparadas nos elementos e se ajusta o grau de assertividade ao lastro
disponível. Suprimi-la faz com que a inferência bruta do analista ingresse nos
autos sem filtro e sem validação da autoridade que, por lei, preside a
investigação", diz a PF.
Para Moraes, o acesso
antecipado ao conteúdo dos celulares e computadores violaria a cadeia de
custódia das provas, prejudicando a apuração criminal e abrindo margem para
vazamentos. O ministro acusa Mendonça de exercer a relatoria dos dois casos com
"total ausência de imparcialidade".
Fachin
retirou caso de Moraes e defendeu fim do inquérito das fake news
A sucessão de decisões
deflagrou uma crise sem precedentes na história do Supremo. Entre o movimento
de Mendonça e a resposta de Moraes, o presidente da Corte, Edson Fachin,
prometeu anunciar as medidas cabíveis, sob a justificativa de que
"os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional".
Sua manifestação fala tanto em "atuação processual" quanto em
"sérios elementos de fato".
"A elevada autoridade do
cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades
que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao
Supremo Tribunal Federal", pontuou.
Depois da escalada, Fachin
avançou. Ao lado do presidente Lula (PT), o magistrado tratou do instrumento
que, nas mãos de Moraes, tramita há sete anos e é alvo de críticas e acusações
de abuso de poder.
"Os acontecimentos
recentes demonstram o acerto e a urgência de três metas da nossa gestão, a
adoção de um código de ética, o fim do inquérito das fake news e a modernização
do sistema de Justiça", afirmou.
Sem citar Fachin, outro
ministro entrou na controvérsia. Flávio Dino utilizou suas redes sociais para
lançar uma provocação:
"É possível a um julgador, qualquer que seja ele, 'prometer' o final de um inquérito, como se fosse um candidato ou para receber aplausos?", questionou.
Título e Texto: Vinicius Macia, Gazeta do Povo, 8-9-2026, 11h33
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