A imagem de Moraes e Gilmar às gargalhadas saiu um dia depois das mensagens de Vorcaro, e revelou por que o escândalo do Master encostou no centro do poder brasileiro
Leandro Ruschel
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| Foto: Brenno Carvalho |
Esta fotografia correu o Brasil nesta
semana: a saída do plenário do Supremo, Moraes e Gilmar Mendes às gargalhadas,
Zanin sorrindo ao lado. Um dia depois de o país inteiro ler mensagens de um
banqueiro preso pedindo socorro a um ministro da mais alta Corte.
A justificativa de bastidor foi uma
piada de Flávio Dino sobre matéria tributária. Pode até ser verdade. Mas a
pergunta que ficou no ar, e que muitos brasileiros fizeram ao ver aquela cena,
merece resposta séria: por que eles conseguem rir à vontade no meio do maior
escândalo da história do Supremo?
A resposta é simples, e é dura: eles
riem à vontade porque nós estamos vivendo a pizza desde 2019.
A pizza não é um risco futuro. Não é
algo que talvez aconteça se o caso Master for abafado. A pizza é o regime em
que o Brasil vive há sete anos. O que estamos vendo agora não é o começo da
impunidade. É a impunidade ficando visível, fotografada, com risada no rosto e
plenário ao fundo.
Para entender essa foto, é preciso
voltar ao começo.
Em 2013, uma revolta popular contra o
sistema político começou nas ruas. Aquela energia atravessou a Lava Jato, o
maior desbaratamento de corrupção da nossa história, e chegou ao auge em 2018,
quando levou ao poder um presidente de fora do arranjo tradicional. Havia ali
uma expectativa de refundação do Brasil.
Essa revolta foi debelada e o principal ator dessa operação tem nome e endereço: o Supremo.
O instrumento foi o Ato Institucional
de 2019, o chamado inquérito das fake news. Aberto de ofício pelo
então presidente da Corte, sem sorteio de relator, sem Ministério Público,
reunindo na mesma mão as funções de vítima, investigador, acusador e juiz. A
então procuradora-geral Raquel Dodge pediu a anulação ainda em 2019 e chamou aquilo
pelo nome certo: um verdadeiro tribunal de exceção.
Mas a repressão que saiu dali foi
vendida pela militância de redação como o seu exato inverso: proteção da
democracia e das instituições.
Sob esse rótulo, veio tudo o que
conhecemos. A descondenação de Lula. Uma eleição disputada sob censura. A volta
dele à presidência. A anulação da Lava Jato. Os condenados soltos, muitos deles
de volta ao poder. E, do outro lado, centenas de perseguidos, censurados e
presos.
O resultado prático desse pacote tem
um nome: sensação completa de impunidade para quem rouba o Estado.
É essa sensação que explica o
personagem central do escândalo de agora.
Daniel Vorcaro surgiu para ocupar o
papel que antes era das construtoras. Mas com uma diferença importante: sem o
mesmo cuidado, sem o mesmo medo, sem a mesma percepção de risco. Porque, no
ambiente criado pela descondenação em massa, o custo esperado de delinquir
despencou.
Compare.
A Odebrecht mantinha uma divisão
inteira dedicada à propina, com codinomes para cada autoridade e sistemas
criptografados hospedados no exterior. Eles escondiam porque sabiam que havia
risco.
Vorcaro operava direto do WhatsApp.
Pedia intervenção junto ao
procurador-geral da República e ao diretor-geral da Polícia Federal. Perguntava
a um ministro se precisava fugir do país. Dois dias antes da prisão, queria
saber se já deveria estar fora na segunda-feira.
A diferença é gritante. Um sistema
criminoso sofisticado escondia as pegadas porque ainda temia alguma
consequência. O novo personagem se movimentava como quem achava que a
consequência não chegaria nunca.
E atenção: o sistema não o interrompeu
quando ainda havia tempo.
Os sinais se acumularam diante dos
próprios órgãos de fiscalização. O ex-diretor de fiscalização do Banco Central,
o homem que deveria fiscalizá-lo, é acusado de estar na sua folha de pagamento.
A defesa nega. Mas a reação definitiva só veio quando o banco quebrou e ameaçou
levar junto o sistema financeiro: o maior acionamento do FGC da história, R$ 52
bilhões, valor superior ao lucro anual do Itaú.
O desastre ficou grande demais para
ser varrido para baixo do tapete e, quando o tapete levantou, apareceu o
tamanho do aparelhamento.
Ministros do Supremo envolvidos. De um
lado, o contrato de R$ 131 milhões do escritório da esposa de Moraes com o
banco de Vorcaro, com a minuta atribuída ao próprio ministro em metadados
publicados pela imprensa. Antes disso, o caso do resort ligado a Toffoli. O
presidente do Senado envolvido em suspeitas relatadas pela Veja: a proposta de
delação de Vorcaro, rejeitada pela Polícia Federal em junho, teria incluído um
suposto repasse de US$ 30 milhões a Alcolumbre por conta no exterior, o que ele
nega com veemência, e a negativa precisa ser registrada.
O procurador-geral envolvido: Gonet,
citado nas mensagens, pediu a nulidade da investigação que chega até ele. A
cúpula da Polícia Federal citada. E o único ministro que resolveu investigar e
expor tudo isso, André Mendonça, virou alvo do inquérito das fake news.
É por isso que eles riem à vontade.
Porque, do lado de dentro daquela
foto, a leitura parece ser uma só: está tudo dominado.
O acusador é nosso. O Senado é nosso.
A polícia é nossa. O inquérito é bloqueado por gente nossa. Quem investigar
vira investigado. Durante sete anos, a pizza sempre saiu do forno.
Só que desta vez há três novidades
importantes.
A primeira: a farsa caiu.
Morreu o monopólio moral da “defesa da
democracia”. A Folha pediu a renúncia de Moraes em editorial. O Estadão
escreveu que Moraes tem de sair do Supremo. Podem repetir o mantra à vontade,
mas ele já não funciona como blindagem automática. Ninguém mais acredita, como
antes, que tudo aquilo foi feito pela democracia.
A segunda novidade: eles não
conseguiram bloquear a informação.
As 218 páginas chegaram ao público.
Pela primeira vez, o método foi exposto até pela imprensa profissional com o
país assistindo em tempo real. Não foi um print perdido, uma acusação lateral
ou uma conversa restrita aos perseguidos de sempre. O escândalo entrou no
centro da sala.
A terceira novidade, para mim a
decisiva: o racha.
Não acredito que a mera pressão
popular, sozinha, seja definidora, embora seja muito importante. O que muda o
jogo de verdade é a divisão interna do establishment. Pizza é o
acordo que vem depois do conflito, quando todos preferem o pacto à destruição
mútua. Mas quando a militância de redação está divulgando, e quando o racha se
abre dentro do próprio cerne do poder, que é o Supremo, o pacto fica muito mais
difícil de fechar.
Aí, sim, há possibilidade real de
mudança.
E o método precisa ficar claro.
A última decisão de Moraes, usando o
inquérito das fake news para atacar o ministro que investigava
sua ligação com Vorcaro, apoiado em relatório apócrifo, sem assinatura e sem
valor probatório segundo a própria Polícia Federal, não é um episódio isolado.
É a exposição do método.
O que ele fez com Mendonça nesta
semana é o que foi feito com milhares de brasileiros desde 2019: mesma
ferramenta, mesmo rito, mesma lógica. Acusação sem prova, processo sem defesa,
juiz em causa própria.
A diferença é que, desta vez, a vítima
tem toga.
E o país viu o mecanismo funcionando à
luz do dia.
Por isso, o foco da oposição deve ser
um só: anular todos esses inquéritos e acabar com o regime de censura e
perseguição política.
Não é pauta acessória. Não é bandeira
de nicho. Não é assunto para rodapé de programa. Essa deve ser a grande pauta
das eleições, na presidência, na Câmara e, sobretudo, no Senado, que é onde se
processa ministro e se aprova indicação.
Candidatos a qualquer cargo que
abraçaram essa luta nos últimos anos, que atuaram e que apanharam por ter
atuado, merecem apoio. O critério é simples: quem enfrentou o regime quando o
custo era alto, e quem preferiu conviver bem com ele enquanto a pizza era
servida, porque essa, no fim das contas, é a mão que serviu todas as pizzas
azedas que a sociedade brasileira engoliu nos últimos sete anos.
A mesma mão que abriu o inquérito, que
descondenou, que censurou, que prendeu e que agora ri para a fotografia.
Olhe a foto mais uma vez:
Eles não riem porque são inocentes.
Riem porque, até hoje, a conta nunca chegou para quem cozinhou. Chegou para
quem está na cela por um post, para quem está no exílio, para quem perdeu as
economias na fila do FGC, para quem viu a lei mudar de peso conforme o lado
político do réu.
A pizza foi servida, mas talvez, pela
primeira vez em sete anos, a cozinha tenha sido exposta.
E o dia em que esses inquéritos forem
anulados será o dia em que essa risada acaba.
Veja mais comentários sobre o assunto:
Título e Texto: Leandro Ruschel,
Substack,
7-9-2026
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