terça-feira, 8 de setembro de 2026

A foto da risada no Supremo mostra que a pizza começou em 2019

A imagem de Moraes e Gilmar às gargalhadas saiu um dia depois das mensagens de Vorcaro, e revelou por que o escândalo do Master encostou no centro do poder brasileiro

Leandro Ruschel 

Foto: Brenno Carvalho

Esta fotografia correu o Brasil nesta semana: a saída do plenário do Supremo, Moraes e Gilmar Mendes às gargalhadas, Zanin sorrindo ao lado. Um dia depois de o país inteiro ler mensagens de um banqueiro preso pedindo socorro a um ministro da mais alta Corte.

A justificativa de bastidor foi uma piada de Flávio Dino sobre matéria tributária. Pode até ser verdade. Mas a pergunta que ficou no ar, e que muitos brasileiros fizeram ao ver aquela cena, merece resposta séria: por que eles conseguem rir à vontade no meio do maior escândalo da história do Supremo?

A resposta é simples, e é dura: eles riem à vontade porque nós estamos vivendo a pizza desde 2019.

A pizza não é um risco futuro. Não é algo que talvez aconteça se o caso Master for abafado. A pizza é o regime em que o Brasil vive há sete anos. O que estamos vendo agora não é o começo da impunidade. É a impunidade ficando visível, fotografada, com risada no rosto e plenário ao fundo.

Para entender essa foto, é preciso voltar ao começo.

Em 2013, uma revolta popular contra o sistema político começou nas ruas. Aquela energia atravessou a Lava Jato, o maior desbaratamento de corrupção da nossa história, e chegou ao auge em 2018, quando levou ao poder um presidente de fora do arranjo tradicional. Havia ali uma expectativa de refundação do Brasil.

Essa revolta foi debelada e o principal ator dessa operação tem nome e endereço: o Supremo.

O instrumento foi o Ato Institucional de 2019, o chamado inquérito das fake news. Aberto de ofício pelo então presidente da Corte, sem sorteio de relator, sem Ministério Público, reunindo na mesma mão as funções de vítima, investigador, acusador e juiz. A então procuradora-geral Raquel Dodge pediu a anulação ainda em 2019 e chamou aquilo pelo nome certo: um verdadeiro tribunal de exceção.

Mas a repressão que saiu dali foi vendida pela militância de redação como o seu exato inverso: proteção da democracia e das instituições.

Sob esse rótulo, veio tudo o que conhecemos. A descondenação de Lula. Uma eleição disputada sob censura. A volta dele à presidência. A anulação da Lava Jato. Os condenados soltos, muitos deles de volta ao poder. E, do outro lado, centenas de perseguidos, censurados e presos.

O resultado prático desse pacote tem um nome: sensação completa de impunidade para quem rouba o Estado.

É essa sensação que explica o personagem central do escândalo de agora.

Daniel Vorcaro surgiu para ocupar o papel que antes era das construtoras. Mas com uma diferença importante: sem o mesmo cuidado, sem o mesmo medo, sem a mesma percepção de risco. Porque, no ambiente criado pela descondenação em massa, o custo esperado de delinquir despencou.

Compare.

A Odebrecht mantinha uma divisão inteira dedicada à propina, com codinomes para cada autoridade e sistemas criptografados hospedados no exterior. Eles escondiam porque sabiam que havia risco.

Vorcaro operava direto do WhatsApp.

Pedia intervenção junto ao procurador-geral da República e ao diretor-geral da Polícia Federal. Perguntava a um ministro se precisava fugir do país. Dois dias antes da prisão, queria saber se já deveria estar fora na segunda-feira.

A diferença é gritante. Um sistema criminoso sofisticado escondia as pegadas porque ainda temia alguma consequência. O novo personagem se movimentava como quem achava que a consequência não chegaria nunca.

E atenção: o sistema não o interrompeu quando ainda havia tempo.

Os sinais se acumularam diante dos próprios órgãos de fiscalização. O ex-diretor de fiscalização do Banco Central, o homem que deveria fiscalizá-lo, é acusado de estar na sua folha de pagamento. A defesa nega. Mas a reação definitiva só veio quando o banco quebrou e ameaçou levar junto o sistema financeiro: o maior acionamento do FGC da história, R$ 52 bilhões, valor superior ao lucro anual do Itaú.

O desastre ficou grande demais para ser varrido para baixo do tapete e, quando o tapete levantou, apareceu o tamanho do aparelhamento.

Ministros do Supremo envolvidos. De um lado, o contrato de R$ 131 milhões do escritório da esposa de Moraes com o banco de Vorcaro, com a minuta atribuída ao próprio ministro em metadados publicados pela imprensa. Antes disso, o caso do resort ligado a Toffoli. O presidente do Senado envolvido em suspeitas relatadas pela Veja: a proposta de delação de Vorcaro, rejeitada pela Polícia Federal em junho, teria incluído um suposto repasse de US$ 30 milhões a Alcolumbre por conta no exterior, o que ele nega com veemência, e a negativa precisa ser registrada.

O procurador-geral envolvido: Gonet, citado nas mensagens, pediu a nulidade da investigação que chega até ele. A cúpula da Polícia Federal citada. E o único ministro que resolveu investigar e expor tudo isso, André Mendonça, virou alvo do inquérito das fake news.

É por isso que eles riem à vontade.

Porque, do lado de dentro daquela foto, a leitura parece ser uma só: está tudo dominado.

O acusador é nosso. O Senado é nosso. A polícia é nossa. O inquérito é bloqueado por gente nossa. Quem investigar vira investigado. Durante sete anos, a pizza sempre saiu do forno.

Só que desta vez há três novidades importantes.

A primeira: a farsa caiu.

Morreu o monopólio moral da “defesa da democracia”. A Folha pediu a renúncia de Moraes em editorial. O Estadão escreveu que Moraes tem de sair do Supremo. Podem repetir o mantra à vontade, mas ele já não funciona como blindagem automática. Ninguém mais acredita, como antes, que tudo aquilo foi feito pela democracia.

A segunda novidade: eles não conseguiram bloquear a informação.

As 218 páginas chegaram ao público. Pela primeira vez, o método foi exposto até pela imprensa profissional com o país assistindo em tempo real. Não foi um print perdido, uma acusação lateral ou uma conversa restrita aos perseguidos de sempre. O escândalo entrou no centro da sala.

A terceira novidade, para mim a decisiva: o racha.

Não acredito que a mera pressão popular, sozinha, seja definidora, embora seja muito importante. O que muda o jogo de verdade é a divisão interna do establishment. Pizza é o acordo que vem depois do conflito, quando todos preferem o pacto à destruição mútua. Mas quando a militância de redação está divulgando, e quando o racha se abre dentro do próprio cerne do poder, que é o Supremo, o pacto fica muito mais difícil de fechar.

Aí, sim, há possibilidade real de mudança.

E o método precisa ficar claro.

A última decisão de Moraes, usando o inquérito das fake news para atacar o ministro que investigava sua ligação com Vorcaro, apoiado em relatório apócrifo, sem assinatura e sem valor probatório segundo a própria Polícia Federal, não é um episódio isolado. É a exposição do método.

O que ele fez com Mendonça nesta semana é o que foi feito com milhares de brasileiros desde 2019: mesma ferramenta, mesmo rito, mesma lógica. Acusação sem prova, processo sem defesa, juiz em causa própria.

A diferença é que, desta vez, a vítima tem toga.

E o país viu o mecanismo funcionando à luz do dia.

Por isso, o foco da oposição deve ser um só: anular todos esses inquéritos e acabar com o regime de censura e perseguição política.

Não é pauta acessória. Não é bandeira de nicho. Não é assunto para rodapé de programa. Essa deve ser a grande pauta das eleições, na presidência, na Câmara e, sobretudo, no Senado, que é onde se processa ministro e se aprova indicação.

Candidatos a qualquer cargo que abraçaram essa luta nos últimos anos, que atuaram e que apanharam por ter atuado, merecem apoio. O critério é simples: quem enfrentou o regime quando o custo era alto, e quem preferiu conviver bem com ele enquanto a pizza era servida, porque essa, no fim das contas, é a mão que serviu todas as pizzas azedas que a sociedade brasileira engoliu nos últimos sete anos.

A mesma mão que abriu o inquérito, que descondenou, que censurou, que prendeu e que agora ri para a fotografia.

Olhe a foto mais uma vez: 

Eles não riem porque são inocentes. Riem porque, até hoje, a conta nunca chegou para quem cozinhou. Chegou para quem está na cela por um post, para quem está no exílio, para quem perdeu as economias na fila do FGC, para quem viu a lei mudar de peso conforme o lado político do réu.

A pizza foi servida, mas talvez, pela primeira vez em sete anos, a cozinha tenha sido exposta.

E o dia em que esses inquéritos forem anulados será o dia em que essa risada acaba.

Veja mais comentários sobre o assunto: 

Título e Texto: Leandro Ruschel, Substack, 7-9-2026

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