Paulo Hasse Paixão
O Alternativa para a Alemanha (AfD) acaba de conquistar a maior vitória eleitoral na história do partido, vencendo as eleições estaduais na Saxónia-Anhalt. Mas apesar do resultado histórico, que provocou ondas de choque no panorama político alemão, o candidato Ulrich Siegmund não alcançou a maioria absoluta necessária para governar.
O déficit de três lugares num
parlamento estadual da Saxónia-Anhalt, com 83 membros, é agora o ponto central
do drama que se desenrola em Magdeburgo, onde o futuro do estado, e talvez até
do país, será decidido.
🇩🇪 AfD wins Saxony-Anhalt election with 44.2% of vote, up from 20.8% in 2021
— Anadolu English (@anadoluagency) September 6, 2026
→ CDU falls to 18%, down from 37.1% five years ago
🗳️ AfD secures 39 seats in 83-seat state parliament, while CDU takes 16 seats https://t.co/pEQ3ZBUR7h pic.twitter.com/Nn0Lz9I8zw
O AfD tem um mandato político e diversas opções que poderão produzir resultados dramáticos. Eis três cenários possíveis.
Populistas divididos pela
ideologia: uma difícil coligação com o BSW.
Na contagem oficial preliminar, o AfD obteve 43,8% dos votos e 39 lugares. O limite para a maioria absoluta é de 42. O BSW, um partido de esquerda com tendências populistas e nacionalistas, conseguiu 5,3% e cinco lugares. Juntos, teriam maioria absoluta.
O BSW já deixou claro que está
disposto a procurar uma coligação com o AfD, mas esta não é uma aliança
confortável para os populistas de direita, dado o seu eleitorado em parte
conservador, tanto como as circunstâncias da campanha eleitoral.
Siegmund passou a campanha a
insistir que não assumiria o cargo sem maioria absoluta. Após a noite
eleitoral, manteve a linha dura num aspecto e flexibilizou-a noutro, rejeitando
um modelo sugerido pelo BSW, com um governador não partidário gerindo maiorias
variáveis, mas afirmando que estaria aberto a soluções de coligação que
promovam uma “mudança política fundamental”, incluindo, se necessário, alianças
com deputados individuais em vez protocolos institucionais com outros partidos.
E se esta geringonça não se
concretizar? O líder do AfD na Saxónia-Anhalt não coloca de lado a hipótese de
repetir o acto eleitoral, se um impasse persistir, afirmando:
“Em último caso, haverá
simplesmente novas eleições.”
Neste cenário, Siegmund prevê
que o AfD obteria “50 a 55% dos votos”.
A questão é saber se a
cooperação com o BSW é possível, seja qual for o seu enquadramento. A líder
nacional do BSW, Sahra Wagenknecht, apresentou o resultado como uma
oportunidade para uma mudança de rumo em relação à energia, às sanções contra a
Rússia, à educação e à radiodifusão pública. Os representantes do partido a
nível estadual afirmam que não se juntarão a uma coligação de “blindagem”
contra o AfD. Mas também já disseram que não elegerão Siegmund. A sua proposta
é uma terceira via, envolvendo um novo líder com o qual ambos os partidos
concordem, além de maiorias em questões específicas que poderiam incluir o AfD.
No entanto, o BSW está a
insinuar que pode estar disposto a ceder ainda mais em troca de acesso ao poder
executivo estadual.
O líder local do BSW, Thomas
Schulze, sugeriu que, na terceira volta do voto parlamentar para governador, o
BSW pode abster-se, o que, em teoria, permitiria a ascensão de Siegmund ao
cargo. O que o BSW obteria em troca ainda está por apurar.
Apesar das diferenças entre o
AfD e o BSW, os dois partidos têm muito em comum. A sobreposição inclui
restrições rigorosas à imigração, combate aos custos energéticos, a mudança de
política em relação à guerra da Ucrânia e a hostilidade dirigida à imprensa
corporativa e, em particular, às emissoras públicas.
Ao mesmo tempo, os
responsáveis do BSW já sinalizaram a política educativa e partes da agenda
económica e social do AfD como inaceitáveis. Uma coligação formal antes da
votação para governador parece estar assim fora de causa. O que resta é apenas
uma espécie de zona cinzenta onde ambos os partidos podem coexistir, voto a
voto.
Para Siegmund, os custos
políticos desta zona cinzenta são óbvios. Candidatou-se como o homem que
remodelaria sozinho o Estado de Saxónia-Anhalt. Aceitar um governador que não
seja da AfD, ou mesmo um governo minoritário sustentado apenas pelo apoio de um
partido de esquerda seria o oposto disto. No entanto, recuar no acordo deixaria
o seu partido afastado do poder mais uma vez.
Os co-líderes nacionais da AfD, Tino Chrupalla e Alice Weidel parecem ansiosos para que Siegmund tente um acordo, mesmo que instável por natureza. Chrupalla já mencionou a possibilidade de um governo minoritário que procuraria maiorias caso a caso.
Globalistas em trânsito
para o populismo: o resgate de deputados da CDU.
A segunda opção de Siegmund
pode revelar-se ainda mais explosiva para a política alemã. O vencedor das
eleições falou em trabalhar não com os partidos, mas caso a caso com os seus
representantes no parlamento estadual, sugerindo que alguns deputados, se engajados
individualmente, poderiam apoiar um governo do AfD. No círculo federal do
partido populista chegou-se mesmo a falar de membros da CDU que podem mudar de
partido para se alistarem no AfD.
Se algum político da CDU
desertasse para a AfD haveria por certo uma tempestade nacional. Embora, se
fosse necessário apenas um voto, tal pudesse ser possível, encontrar três
deputados com este perfil pode ser uma tarefa árdua. Se três membros da CDU ajudassem
a levar a AfD ao poder num estado, isso poderia ser suficiente para derrubar o
governo federal e acabar com a chancelaria de Friedrich Merz.
Independentemente do AfD
conseguir ou não conquistar três votos da CDU, a pressão sobre o partido
globalista é enorme depois de ter caído a pique para uns meros 17,2%, reduzindo
efetivamente o seu apoio para metade. É quase certo que a CDU continuará a
enfrentar um ajuste de contas político no futuro, o que significa que a
barragem poderá romper em algum momento, e os políticos da CDU poderão estar
cada vez mais dispostos a abandonar o barco e a juntar-se à AfD.
Um fenómeno semelhante está a
acontecer no Reino Unido, com quadros do Partido Conservador a transitarem para
o Reform Uk de Nigel Farage.
O preço desta estratégia, porém, é alto: da mesma forma que é difícil uma coligação com um partido de esquerda, a convivência intestina com políticos de carreira ligados ao globalismo será também complicada e pode até contribuir para uma normalização do AfD, no sentido da cumplicidade com o estabelecimento alemão.
Recusar o poder agora, para
o conquistar depois.
Um governo anti-AfD é
matematicamente possível, mas será politicamente concretizável? O cenário é
caótico.
Seria necessária uma
geringonça complexa com a CDU, o SPD, os Verdes, o Partido da Esquerda e o BSW
— cinco partidos que passaram a campanha a digladiarem-se mutuamente. A CDU já
afastou coligações quer com a AfD, quer com o Partido da Esquerda. O BSW fez
campanha a combater a CDU, com Wagenknecht a considerar uma coligação com os
globalistas como uma afronta aos eleitores.
Isto não significa que a
abominação não possa ser tentada, e muito provavelmente será, mesmo apesar das
potencialmente desastrosas consequências para todos os partidos envolvidos. Se
este projeto se concretizar e depois falhar, a ameaça de novas eleições feita
por Siegmund deixa de ser um cenário improvável. Uma segunda votação, neste
cenário, poderia de facto catapultar o AfD para acima da marca dos 50%.
Procedimentalmente, o tempo já
está a contar, dado que o novo parlamento estadual deverá reunir-se até 6 de outubro.
E neste contexto, é difícil argumentar contra a possibilidade de dissidentes da
CDU entregarem ao AfD as chaves da vitória. Isto permitiria aos populistas
assumir o controlo, pelo menos em teoria, ao mesmo tempo que provocaria uma
grande crise para a CDU, partido no poder federal, em Berlim.
No entanto, permanecer fora do
poder executivo no estado de Saxónia-Anhalt também pode trazer vantagens,
evitando sérias e expectáveis armadilhas que o governo federal e até a UE podem
impor a um executivo local da AfD.
Seja como for e apesar de não
ter alcançado a maioria absoluta, a AfD parece estar no controlo da situação. E
este resultado já está a deixar Friedrich Merz à beira da depressão, o que é sempre bom sinal.
Título, Imagem e Texto: Paulo
Hasse Paixão, ContraCultura,
8-9-2026
A imprensa que promove a extrema-direita

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