quinta-feira, 10 de setembro de 2026

[Daqui e Dali] A inveja entre os intelectuais

Humberto Pinho da Silva

Quem vive muitos anos, facilmente verifica que o parecer dos homens de Letras, e não só, variam consoante a posição que ocupam no xadrez da vida.

Basta escrever critica desfavorável ou pouca lisonjeira, para o poema ou texto, escrito por Fulano, passe de bom a mau.

Moura e Sá, no interessante ensaio "Vida e Literatura" escreveu "Quando dizemos: Este poema é mau, queremos muitas vezes, afirmar que o autor pensa em matéria política, de maneira diferente da nossa".

Em 1604, Lopes de Vega, despeitado, escreveu missiva a amigo referindo-se a Cervantes, por este haver depreciado seu teatro: "De poetas não digo, que esteja bom ano (...), mas nenhum há tão mau como Cervantes, nem tão néscio, que seja capaz de Gabar o D. Quixote."

É conhecidíssima a carta que Voltaire escreveu a Quinault, lamentando-se "Só se ganha (com os escritos,) inimigos, desprezo, quando não se vence, e ódios quando se triunfa.".

Também Ramalho “Em Paris" se lamenta:

"Os homens predestinados pelo talento de escrever, criam às vezes prosélitos, mas não criam amigos; conquistam inteligências, mas não corações; tornam-se célebres, mas não se tornam amados."

Já que pretendo reunir apanhado de opiniões de homens de Letras, sobre a inveja, cito o que declarou ao "Diário de Notícias" Helena Sacadura Cabral: "Os valores, raramente são conhecidos, e os mais inteligentes constituem o repasto ideal para a calúnia."

É sabido que a crítica é, em geral, fruto de "capelinhas". Se são de esquerda, elevam ao Olimpo, os correligionários; se são de direita comportam-se como diz Cruz Malpique: "Agora é que vais saber de quem sou filho!", e desandam sem dó e piedade.

Álvaro Lins, em "Literatura e Vida Literária" afirma:" Alguns me advertem que não estou agradando inteiramente com a minha crítica, porque não me coloquei ao serviço de um partido ou de grupo, que por sua vez, me apoiaria"

O defunto suplemento literário, do "Jornal de Notícias", foi encerrado por não ter louvado o romance de Paços d'Arcos, segundo, Manuel António Pina, ("JN”, de 26/1/2012, pág. 48.).

Disse, por graça, Júlio Dantas, sobre a inveja entre intelectuais, que era a "Formiga branca das literaturas".

Por sua vez, algumas editoras preferem publicar só os da sua ideologia política. Certo jovem, no início da carreira, lembrou-se de enviar o original a escritor consagrado. Este deu-lhe parecer favorável – O que é raro! Acrescentando que seu editor talvez pudesse publicá-lo. Mas, teria de se inscrever no partido de Sicrano, se o queria vê-lo em letra de forma!....

Infelizmente quem não tem posses ou mecenas, se quer singrar, tem de se tornar Bonifácio de "importante", e pensar e agir como ele quer.

Assim foi e assim será, em todas as profissões…

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, setembro de 2026 

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