Humberto Pinho da Silva
Quem vive muitos anos,
facilmente verifica que o parecer dos homens de Letras, e não só, variam
consoante a posição que ocupam no xadrez da vida.
Basta escrever critica
desfavorável ou pouca lisonjeira, para o poema ou texto, escrito por Fulano,
passe de bom a mau.
Moura e Sá, no
interessante ensaio "Vida e Literatura" escreveu "Quando
dizemos: Este poema é mau, queremos muitas vezes, afirmar que o autor pensa em matéria
política, de maneira diferente da nossa".
Em 1604, Lopes de Vega,
despeitado, escreveu missiva a amigo referindo-se a Cervantes, por este haver
depreciado seu teatro: "De poetas não digo, que esteja bom ano
(...), mas nenhum há tão mau como Cervantes, nem tão néscio, que seja capaz de
Gabar o D. Quixote."
É conhecidíssima a carta
que Voltaire escreveu a Quinault, lamentando-se "Só se ganha (com
os escritos,) inimigos, desprezo, quando não se vence, e ódios quando se
triunfa.".
Também Ramalho “Em Paris"
se lamenta:
"Os homens
predestinados pelo talento de escrever, criam às vezes prosélitos, mas não
criam amigos; conquistam inteligências, mas não corações; tornam-se célebres,
mas não se tornam amados."
Já que pretendo reunir apanhado de opiniões de homens de Letras, sobre a inveja, cito o que declarou ao "Diário de Notícias" Helena Sacadura Cabral: "Os valores, raramente são conhecidos, e os mais inteligentes constituem o repasto ideal para a calúnia."
É sabido que a crítica é,
em geral, fruto de "capelinhas". Se são de esquerda, elevam ao
Olimpo, os correligionários; se são de direita comportam-se como diz Cruz
Malpique: "Agora é que vais saber de quem sou filho!", e desandam sem
dó e piedade.
Álvaro Lins, em
"Literatura e Vida Literária" afirma:" Alguns me advertem que
não estou agradando inteiramente com a minha crítica, porque não me coloquei ao
serviço de um partido ou de grupo, que por sua vez, me apoiaria"
O defunto suplemento
literário, do "Jornal de Notícias", foi encerrado por não ter louvado
o romance de Paços d'Arcos, segundo, Manuel António Pina, ("JN”, de
26/1/2012, pág. 48.).
Disse, por graça, Júlio
Dantas, sobre a inveja entre intelectuais, que era a "Formiga branca das
literaturas".
Por sua vez, algumas
editoras preferem publicar só os da sua ideologia política. Certo jovem, no
início da carreira, lembrou-se de enviar o original a escritor consagrado. Este
deu-lhe parecer favorável – O que é raro! Acrescentando que seu editor talvez pudesse
publicá-lo. Mas, teria de se inscrever no partido de Sicrano, se o queria vê-lo
em letra de forma!....
Infelizmente quem não tem
posses ou mecenas, se quer singrar, tem de se tornar Bonifácio de
"importante", e pensar e agir como ele quer.
Assim foi e assim será, em
todas as profissões…
Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, setembro de 2026
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