Leah Levy Cohen Ligia
Ontem, Lula subiu novamente à
tribuna da ONU e fez o que já virou tradição em seus discursos internacionais:
vestiu a beca de juiz do Oriente Médio, proferiu a sentença contra Israel e
voltou para casa convencido de que acabara de resolver aquilo que judeus e
árabes não conseguiram resolver nos últimos cem anos. Chamou de genocídio a
guerra travada pelo governo Netanyahu, reservou uma frase protocolar aos atos
terroristas do Hamas e ainda concedeu a Francesca Albanese o selo presidencial
de proprietária da verdade. Tudo muito equilibrado, naturalmente. De um lado,
uma organização terrorista que invadiu casas, assassinou famílias, violentou
mulheres e sequestrou civis. Do outro, o país que ousou sobreviver ao ataque.
Para o atual governo brasileiro, porém, parece que legítima defesa tem prazo de
validade, especialmente quando quem se defende é judeu.
É perfeitamente possível
criticar Netanyahu, questionar decisões militares, sofrer com a morte de civis
palestinos e exigir que toda guerra respeite limites. Eu mesma não terceirizo
meu pensamento a governo algum. Mas existe uma distância enorme entre criticar
políticas israelenses e transformar Israel na origem de todos os males do
planeta. Quando a indignação de alguém só funciona diante de Israel, enquanto
permanece em repouso absoluto diante do Irã, da Síria, do Iêmen, do Sudão, do
Afeganistão e de tantas outras tragédias, talvez não estejamos diante de
consciência humanitária. Talvez seja apenas o velho antissemitismo que trocou a
suástica pelo lenço palestino, aprendeu algumas palavras novas e passou a se
apresentar como militância progressista.
No Brasil, isso já deixou de ser um acidente isolado. O antissemitismo não apenas cresceu: acomodou-se, tirou os sapatos e colocou os pés sobre a mesa. Judeus são cobrados publicamente pelas decisões de um governo situado a milhares de quilômetros, escolas judaicas reforçam a segurança, símbolos religiosos precisam ser escondidos e qualquer manifestação de medo recebe como resposta uma palestra sobre Netanyahu. O preconceito agora vem com bibliografia, palavras em inglês e aparência de virtude. E quando o próprio presidente da República repete acusações máximas contra Israel, concede credibilidade automática aos seus acusadores e trata como verdade revelada uma narrativa profundamente contestada, ele talvez não esteja redigindo uma autorização oficial para odiar judeus, mas certamente está oferecendo aos antissemitas um salvo-conduto moral carimbado no Palácio do Planalto.
O mais curioso é observar quem desfila nessa procissão. Uma parte barulhenta do movimento LGBT grita “Free Palestine” sem jamais se perguntar exatamente livre de quê, para quem e sob qual governo. Em Gaza, relações entre homens podem levar a anos de prisão. No Irã, relações entre pessoas do mesmo sexo podem chegar à pena de morte. Em Israel, apesar de todas as imperfeições e contradições que qualquer democracia possui, gays vivem abertamente, ocupam cargos públicos, servem no Exército, formam famílias e celebram uma das maiores paradas do orgulho do Oriente Médio. Ainda assim, é Israel que recebe o crachá de Estado opressor entregue por pessoas que não poderiam levantar a própria bandeira durante meia hora sob os regimes que romanticamente defendem.
Com uma parte das feministas
acontece fenômeno semelhante. A franja é milimetricamente revolucionária, o
sovaco é orgulhosamente livre, mas a liberdade das mulheres iranianas parece
não caber no cartaz. Algumas defendem, do conforto de uma democracia ocidental,
movimentos que lhes retirariam a voz, a autonomia, a roupa escolhida e
provavelmente até o direito de protestar. Gostaria de vê-las explicando sua
teoria de libertação a uma polícia da moralidade. Talvez descobrissem, entre
uma aula compulsória e outra, que patriarcado não é apenas um homem
inconveniente numa reunião de condomínio.
E antes que alguém venha
explicar que o hijab também pode representar uma escolha religiosa, eu
concordo. O ponto está justamente na palavra escolha. Em Jerusalém, uma mulher
pode vestir-se segundo as regras de tzniut; outra pode usar hijab; uma terceira
pode caminhar de calça, cabelo descoberto e braços de fora. Em Tel Aviv,
mulheres circulam de biquíni pela praia como em Ipanema. Democracia não é
obrigar todas a se vestirem da mesma forma. É permitir que cada uma escolha sua
roupa sem que um governo, um aiatolá ou uma patrulha ideológica decida por ela.
O problema nunca foi o tecido. O problema sempre foi quem manda no corpo que
está debaixo dele.
Israel está longe de ser
perfeito, e ainda bem. Países perfeitos só existem na propaganda, geralmente
pouco antes de alguém ser preso por discordar dela. Israel discute, protesta,
derruba governos, leva autoridades aos tribunais, expõe escândalos, abriga judeus,
muçulmanos, cristãos, drusos, religiosos, seculares, gays, héteros, mulheres de
peruca e mulheres de biquíni. É um país onde cada decisão produz quatro
manifestações, seis processos e aproximadamente doze grupos de WhatsApp.
Pode-se criticar muita coisa, mas é preciso uma ginástica intelectual olímpica
para chamar essa sociedade de fascista enquanto se poupam regimes nos quais
oposição política, homossexualidade e liberdade feminina podem ser tratadas
como crimes.
Talvez o que incomode tanto
não seja aquilo que Israel faz, mas o fato de Israel continuar existindo. É um
país minúsculo, cercado por inimigos, atacado repetidamente, condenado
preventivamente e julgado por critérios que raramente são aplicados a qualquer
outra nação. Sobreviveu a guerras, atentados, boicotes, resoluções, campanhas
internacionais e agora enfrenta também a indústria mundial da desinformação, na
qual uma versão divulgada pelo Hamas percorre o planeta antes que a verdade
tenha conseguido calçar os sapatos.
Às vezes penso que Israel deve
ser mesmo um gato. No Brasil, dizem que gato tem sete vidas. Israel já gastou
as sete, pediu mais duas emprestadas à versão americana e aparentemente ainda
conseguiu um plano de milhagem. Talvez seja exatamente isso que irrite tanta
gente: depois de tudo, o gato continua de pé, continua miando, continua se
defendendo e se recusa terminantemente a desaparecer para facilitar o discurso
de alguém na ONU. E talvez não seja por acaso que, entre os grandes símbolos do
povo de Israel, esteja justamente o Leão de Judá. Porque, quando esse gato
precisa mostrar quem realmente é, ele deixa de miar e ruge. Afinal, estamos
falando do rei dos felinos.
A pergunta não é se Israel
pode ser criticado. Claro que pode e deve. A pergunta é por que, entre todas as
monstruosidades deste mundo, há tanta gente cuja consciência só desperta quando
pode culpar o Estado judeu. Isso ainda é defesa dos direitos humanos ou é
apenas o preconceito mais antigo da humanidade usando uma fantasia nova?
E você, também percebe que a
indignação mundial parece ter um único endereço?
Se este texto fez sentido para
você, compartilhe. Porque o antissemitismo cresce justamente quando todos
percebem o que está acontecendo, mas preferem não criar confusão.
Título, Imagem e Texto: Leah
Levy Cohen Ligia, Faceboook,
23-9-2026, 11h12

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