Respeitável público!
Hoje tem espetáculo?
Tem, sim, senhor!
Leah Levy Cohen Ligia
E quem abre o picadeiro é
António Guterres, mestre de cerimônias desta grande temporada da ONU. Com voz
grave, ele anuncia que o mundo está em crise, que os conflitos se multiplicam e
que a paz anda desaparecida. Em seguida, chama os líderes para o palco.
Senhoras e senhores, acomodem-se: teremos discursos inflamados, piruetas
diplomáticas, leões rugindo e pelo menos um homem bala disparado contra a
própria organização.
A Assembleia Geral ainda não
terminou, mas o elenco principal já passou pelo palco. A última rodada está
prevista para segunda-feira e ainda pode aparecer algum número extra. Até
agora, porém, já vimos de tudo: protestos, cadeiras vazias e muita gente explicando
por que a culpa é sempre do número anterior. No circo tradicional, o
apresentador promete diversão. Guterres anunciou uma semana de guerras,
impunidade e reforma institucional. Diversão mesmo, só para quem gosta de ver
políticos explicando como o mundo desandou sem jamais admitir que talvez tenham
ajudado a empurrar o carrinho.
Lula entrou como encantador de elefantes. Trouxe para o meio da arena o bicho enorme chamado Gaza e disse que não dava para fingir que ele não estava ali. Chamou de genocídio as ações do governo Netanyahu, mas também reconheceu que civis israelenses pagaram o preço dos atos terroristas do Hamas. Foi um número de condução delicada: tentar levar um animal gigantesco pelo centro do picadeiro sem que metade da plateia gritasse que ele estava olhando para o lado errado. E, já que estamos falando de Lula, fica também a menção honrosa a Francesca Albanese, citada por ele com a declaração de que ela não pode ser silenciada. A homenagem entrou no programa sem que ela precisasse subir ao palco. Na ONU, até a menção honrosa pode provocar vaia, aplauso e discussão no intervalo.
Macron foi a bailarina. Fez
piruetas entre os direitos palestinos, a situação em Gaza e a segurança de
Israel, sempre com os braços estendidos na direção das duas plateias. A Grã
Bretanha escolheu outro número de equilíbrio: o equilibrista na corda bamba.
Condenou o Hamas, reconheceu as ameaças iranianas contra Israel e, logo depois,
afirmou que isso não justifica as ações do governo israelense em Gaza e na
Cisjordânia. Uma mão acena para Israel, a outra anuncia sanções, e o rosto
permanece sereno. É diplomacia de alto nível, aquela arte de atravessar a corda
olhando para a frente enquanto se escuta alguém gritar de cada arquibancada.
Netanyahu foi o domador de
leões. Subiu ao palco para garantir que Israel sabe enfrentar as feras que o
ameaçam e que está defendendo a própria existência. O problema é que, quando o
domador anuncia que está tudo sob controle, os leões continuam rugindo e uma
parte da plateia levanta e vai embora. Ele chamou os críticos de covardes
morais; os delegados responderam com a mais eloquente coreografia diplomática
da semana: uma saída coletiva, sem precisar de tradução simultânea. Foi um
daqueles momentos em que o público também participa do espetáculo, mesmo sem
ter comprado ingresso.
O presidente iraniano, Masoud
Pezeshkian, ficou com o número do palhaço trágico. Não porque tenha feito rir,
mas porque apresentou o próprio país como vítima e acusou Israel e os Estados
Unidos de serem os grandes responsáveis pelo caos da região. É a comédia em que
o personagem entra dizendo que não sabe quem provocou o incêndio, embora esteja
cercado de fumaça e segurando um balde de acusações. Erdoğan foi o lançador de
facas: chamou Gaza de campo de concentração e pediu que o mundo aumentasse a
pressão sobre Israel. As palavras atravessaram a arena com a sutileza de uma
faca cruzando o picadeiro. E o presidente sírio Ahmed al Sharaa também entrou
no programa para avisar que o Golã continuará sendo sírio. Na ONU, parece que
cada região tem seu próprio número, sua própria reivindicação e uma equipe de
apoio pronta para dizer que o espetáculo só começa quando o outro sair de cena.
Trump foi o trapezista. Saltou
de ameaças contra o Irã para a promessa de que um acordo está logo ali, depois
apresentou um plano para Gaza e ainda deixou no ar a impressão de que talvez
resolva outros conflitos antes do jantar. O salto foi grande, a confiança foi
maior ainda e a rede de segurança, por enquanto, parece ser a palavra “plano”.
Milei, por sua vez, foi o
homem bala: disparado do canhão contra a própria ONU, saiu chamando a
organização de inútil e seus funcionários de parasitas arrogantes. Também
declarou, sem fazer suspense, seu alinhamento com Israel e com os Estados
Unidos. Nada de piruetas para agradar à plateia. Milei escolheu a entrada
explosiva, a fala em alto volume e a aterrissagem no meio da discussão. O
apresentador ainda estava anunciando o próximo número quando ele já tinha
criticado o circo inteiro.
Zelensky fez o papel do
acrobata que tenta manter os olhos do público na guerra da Ucrânia, enquanto a
programação inteira parece puxar a atenção para o Oriente Médio. Putin não
veio; mandou Lavrov, que falou em nome de Moscou e criticou Israel, além de defender
um Estado palestino. A cadeira vazia do presidente russo também acabou fazendo
parte do cenário: na ONU, até a ausência ganha lugar no programa se vier
acompanhada de um chanceler experiente. Mahmoud Abbas, por sua vez, apareceu
por meio de uma declaração gravada, depois de ser impedido de viajar a Nova
York. Uma participação pela tela, como artista convidado transmitido de outro
teatro.
A rodada ainda não acabou, mas
os protagonistas já passaram pelo palco. Tivemos mestre de cerimônias,
bailarina, encantador de elefantes, domador de leões, equilibrista, lançador de
facas, palhaço trágico, trapezista, homem bala e acrobata. Houve discursos
sobre paz, protestos, cadeiras vazias e muita gente garantindo que está ali
para salvar o mundo. A parte mais difícil continua sendo descobrir quem vai
desmontar a lona quando a apresentação terminar.
E, para encerrar, entra o
palhaço com o número tradicional:
Hoje tem marmelada? Tem, sim,
senhor!
Hoje tem goiabada? Tem, sim,
senhor!
Na ONU, respeitável público,
tem espetáculo. E ainda pode ter mais!!!
E você, qual foi o número mais
impressionante desse espetáculo diplomático?
Se essa crônica traduziu o que
você também viu nesse picadeiro, compartilhe com alguém que ainda espera que a
ONU anuncie um mágico capaz de fazer os problemas desaparecerem.
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Título, Imagem e Texto: Leah
Levy Cohen Ligia, Facebook,
27-9-2026, 13h17

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