sexta-feira, 11 de setembro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] A Corrida dos credores

Aparecido Raimundo de Souza

O MACIEL BARBOSA resolveu, de última hora, que tinha de participar da corrida que acontecia todos os anos no segundo domingo de novembro. Assim, foi até o local da inscrição e mandou brasa. Não esperava ganhar o primeiro lugar, claro, nem reunia condições físicas para isso. A coisa só ficaria na brincadeira. Ao menos aliviaria um pouco o estresse do dia-a-dia, e, de roldão, esfriaria e acalmaria os muitos problemas com a rotina inervante da vida, sem contar com a falta de serviço, contas para pagar, telefone  celular mudo, prestações do carro vencidas, “etc., etc”.

Pegou o número que a moça lhe estendeu num pedaço de papel-cartão e voltou ligeiro para casa. No caminho, antes de chegar para o almoço, resolveu tomar uma cervejinha. Lugar comum, de costume, o barzinho do Fred Frederico – amigo das peladas de todos os sábados no campinho da estação ferroviária e no tempo das vacas gordas, das malhações na academia “Mens sana incorpore sano”, de um outro da turma, o Leandro “Olho Saltado”. Mal sentou, chegou atrás, no vácuo, o Tadeu Fantini, dono da loja de móveis e aparelhos eletroeletrônicos, além de roupas para homens, mulheres e crianças, seguida por um item infindável de materiais de construção e uma farta lanchonete perto da Praça da Prefeitura.

O Fantini, rico e poderoso na cidade, agiotava sem escrúpulos e por conta disso, (não perdoava nem a mãe). Atrelado ao azar, o Maciel devia à ele os juros de umas promissórias, (assinadas desde os tempos em que esses documentos se faziam moedas de trocas), barganhados a vinte e cinco por cento com prazos a se perderem de vista. Por conta desse “papel” o capital havia sido pago, só em “costurar buracos na colcha”, ou seja, nas prorrogações, a título de juros, afora o cara ter abocanhado uma televisão último tipo, geladeira, cama de casal e o anel de formatura da esposa, a dra. Rubia, única médica ginecologista da região, além de relógio, vídeo, filmadora e um veículo Citroën Aircross branco praticamente novo e até móveis do consultório da dra Rubia com cadeiras, sofás, escrivaninhas, mesas, arquivos e computadores. Maciel Barbosa tremeu na base. Fugiu tanto do infeliz e eis que, de repente, saído dos quintos do inferno, do nada, a sua frente aparece o cidadão como urubu magro secando a carniça gorda.

— Estava passando, vi você, resolvi parar...
— Fez bem. Ia te ligar daqui a pouco...
— E a “baba”?
— Segunda-feira, sem falta.
— Tudo?
— Só uma refrescada, com o restante para mais trinta dias...
— Ok. Passa lá no meu comércio...
— Com certeza.

O diálogo se encerrou aí. Mas os problemas de Maciel só começavam. Pintou na sequência o Guerinto, da barbearia e senhorio da casa onde ele morava de aluguel com a mãe a esposa médica e mais cinco menores. O velhote trazia consigo, uma dessas “garotas de programa”, sustentadas por seus bolsos, graças aos polpudos alugueis das espeluncas que ele mantinha em constante atividade de comodato, onde, por debaixo dos panos, formigava, nos fundos da disfarçada barbearia, um sobrado ou melhor dito, uma casa de tolerância conhecida como “Reduto da luz vermelha”.

— Seu mês venceu dia cinco. Hoje são sete...

O Maciel, apesar dos tributos volumosos, não se fazia de rogado.
— Segura as pontas, Gue. Segunda-feira a gente acerta. Vou correr nesse próximo domingo, na Trigésima oitava aqui do bairro contra bairro. O prêmio é bastante convidativo.
— Sei que é. Que mal pergunte: o que eu tenho a ver com isso?
— Pretendo ganhar a soma. Aliás, vou...
— Se der zebra?
— Pense positivo. Torça por mim...
— Com certeza. Boa sorte. Até mais ver. Segunda, em... tô de olho... já lhe tirei tudo, só falta levar a sua mulherzinha, além de nova e bonita, uma excelente doutora dos melindres do belo sexo ...

Mal e porcamente o Guerinto virou as costas, apareceu o abutre do Milton Creto, acompanhado do sobrinho Oduvaldo Mata Sete. A esse cavalheiro Maciel devia uma soma considerável. Milton não entrara no Bar do Fred Frederico para cobrar, mas para comprar cigarros e fósforos. Bateu sem querer os olhos, por acaso e deu em cheio com o Maciel, e, por conta, não custava marcar presença.

— O companheiro anda meio divorciado lá do prédio ou é impressão minha?
— Impressão...
— E a conta?
— Segunda-feira.
— Não dá mais para ficar só nos acessórios. Necessito, com certa urgência, do principal.
— Segunda-feira.
— Palavra?
— De escoteiro...
— Passe bem.
— Espero que sim.

O dia da corrida, um domingo ensolarado chegou ligeiro. Um inferno. Gente de todos os lados vinda de muitos lugares abarrotava a pequena cidade suburbana. A galera se acotovelava por todas as partes, mal dava para se atravessar de uma esquina para outra, sem esbarrar em algum desconhecido (conhecido) especificamente para ele, o Maciel, difícil um morador que ele não devesse uma grana.  Em vista disso, o desgraçado se escondia disfarçado de fujão inveterado. Pois bem! Por sorte, ou azar, sabe-se lá como, chegou na bendita corrida em primeiro lugar ganhando o certame. Ao subir ao podium para receber a medalha e o mais importante, a polpuda grana preta do prêmio milionário, um dos muitos a quem ele devia, por azar, o doutor Bisteca Malpassado, o reconheceu em meio a tumultuada multidão.

O doutor Bisteca Malpassado, era o delegado de polícia da localidade e, ao vê-lo dando sopa e, tendo em vista, um ocorrido inesquecível e imperdoável, além da grana que o sujeito havia tomado, o Maciel “papara” a única filha do temido homem da lei” e não só isso, o desditoso além da trepada, embuchara a dita menor, que caminhava aos peidos, em face da enorme barriga quase as portas de ganhar a criança. Ao vê-lo, o delegado se encheu de razão, puxou do bolso um apito, e claro, quase o engoliu, afoito. Ao sibila-lo forte, raivoso, enfurecido e encapetado, a sua voz estridou. Como num passe de mágica, uma galera de policias a paisana que estavam a serviço, ao ouvirem o som da autoridade maior, se juntaram e saíram correndo nos calcanhares do pobre e infeliz Maciel.

— Ali, ali, ali, lembrem-se… quero o meliante vivo, vivo...

Maciel, por seu turno, deu linha à pipa. Botou sebo nas canelas e desembestou rua abaixo, se esquivando de uns desmiolados que ao também ouvirem o apito do chefe da unidade policial, se uniram para botar-lhe as mãos em suas carcaças fragilizadas. Ninguém conseguiu tal proeza. Maciel, entretanto, careceu de correr novamente. Correr não, voar, voar, desembestar, só que desta feita, para se livrar de uma turba de homens, e mulheres (e até crianças) em polvorosa que levada pelo som de um ensandecido “pega esse safado, pega esse infeliz” se viu obrigado a sair da cidade suando em bicas e nunca mais foi visto. Até hoje, ninguém sabe em que buraco o pobre abestado se meteu.

O delegado encheu a cidade de canto a canto com cartazes num acirrado “Procura-se vivo ou morto”. Enquanto o Maciel não é capturado, e lá se vão mais de três anos, o doutor Bisteca Malpassado desfila pela cidade com a netinha puxada pela mãozinha, a linda e fofa Iasmim. Vez em quando, dá uma parada diante de uma foto do pai da menina pendurada aqui e acolá e sussurra no ouvido da mocinha:

— Esse malandro aí é seu pai. Um dia o vovô pega ele... 

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Nova Venécia, ES, 11-9-2026             

Anteriores:
E se do nada, de repente eu sumisse. Quem me procuraria? 
O que leva as pessoas a sentirem tanto ódio? 
[Aparecido rasga o verbo – Extra] O que significa ser “Presidente” de um país? 
Os gestos simples dos que não falam 
Esses outros “medos” que me perseguem

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-