Aparecido Raimundo de Souza
Pegou o número que a moça lhe
estendeu num pedaço de papel-cartão e voltou ligeiro para casa. No caminho,
antes de chegar para o almoço, resolveu tomar uma cervejinha. Lugar comum, de
costume, o barzinho do Fred Frederico – amigo das peladas de todos os sábados
no campinho da estação ferroviária e no tempo das vacas gordas, das malhações
na academia “Mens sana incorpore sano”, de um outro da turma, o Leandro “Olho
Saltado”. Mal sentou, chegou atrás, no vácuo, o Tadeu Fantini, dono da loja de
móveis e aparelhos eletroeletrônicos, além de roupas para homens, mulheres e
crianças, seguida por um item infindável de materiais de construção e uma farta
lanchonete perto da Praça da Prefeitura.
O Fantini, rico e poderoso na
cidade, agiotava sem escrúpulos e por conta disso, (não perdoava nem a mãe).
Atrelado ao azar, o Maciel devia à ele os juros de umas promissórias,
(assinadas desde os tempos em que esses documentos se faziam moedas de trocas),
barganhados a vinte e cinco por cento com prazos a se perderem de vista. Por
conta desse “papel” o capital havia sido pago, só em “costurar buracos na
colcha”, ou seja, nas prorrogações, a título de juros, afora o cara ter
abocanhado uma televisão último tipo, geladeira, cama de casal e o anel de
formatura da esposa, a dra. Rubia, única médica ginecologista da região, além
de relógio, vídeo, filmadora e um veículo Citroën Aircross branco praticamente
novo e até móveis do consultório da dra Rubia com cadeiras, sofás,
escrivaninhas, mesas, arquivos e computadores. Maciel Barbosa tremeu na base.
Fugiu tanto do infeliz e eis que, de repente, saído dos quintos do inferno, do
nada, a sua frente aparece o cidadão como urubu magro secando a carniça gorda.
O dia da corrida, um domingo
ensolarado chegou ligeiro. Um inferno. Gente de todos os lados vinda de muitos
lugares abarrotava a pequena cidade suburbana. A galera se acotovelava por
todas as partes, mal dava para se atravessar de uma esquina para outra, sem
esbarrar em algum desconhecido (conhecido) especificamente para ele, o Maciel,
difícil um morador que ele não devesse uma grana. Em vista disso, o desgraçado se escondia
disfarçado de fujão inveterado. Pois bem! Por sorte, ou azar, sabe-se lá como,
chegou na bendita corrida em primeiro lugar ganhando o certame. Ao subir ao
podium para receber a medalha e o mais importante, a polpuda grana preta do
prêmio milionário, um dos muitos a quem ele devia, por azar, o doutor Bisteca
Malpassado, o reconheceu em meio a tumultuada multidão.
O doutor Bisteca Malpassado,
era o delegado de polícia da localidade e, ao vê-lo dando sopa e, tendo em
vista, um ocorrido inesquecível e imperdoável, além da grana que o sujeito
havia tomado, o Maciel “papara” a única filha do temido homem da lei” e não só
isso, o desditoso além da trepada, embuchara a dita menor, que caminhava aos
peidos, em face da enorme barriga quase as portas de ganhar a criança. Ao
vê-lo, o delegado se encheu de razão, puxou do bolso um apito, e claro, quase o
engoliu, afoito. Ao sibila-lo forte, raivoso, enfurecido e encapetado, a sua
voz estridou. Como num passe de mágica, uma galera de policias a paisana que
estavam a serviço, ao ouvirem o som da autoridade maior, se juntaram e saíram
correndo nos calcanhares do pobre e infeliz Maciel.
— Ali, ali, ali, lembrem-se…
quero o meliante vivo, vivo...
Maciel, por seu turno, deu
linha à pipa. Botou sebo nas canelas e desembestou rua abaixo, se esquivando de
uns desmiolados que ao também ouvirem o apito do chefe da unidade policial, se
uniram para botar-lhe as mãos em suas carcaças fragilizadas. Ninguém conseguiu
tal proeza. Maciel, entretanto, careceu de correr novamente. Correr não, voar,
voar, desembestar, só que desta feita, para se livrar de uma turba de homens, e
mulheres (e até crianças) em polvorosa que levada pelo som de um ensandecido
“pega esse safado, pega esse infeliz” se viu obrigado a sair da cidade suando
em bicas e nunca mais foi visto. Até hoje, ninguém sabe em que buraco o pobre
abestado se meteu.
O delegado encheu a cidade de
canto a canto com cartazes num acirrado “Procura-se vivo ou morto”. Enquanto o
Maciel não é capturado, e lá se vão mais de três anos, o doutor Bisteca
Malpassado desfila pela cidade com a netinha puxada pela mãozinha, a linda e
fofa Iasmim. Vez em quando, dá uma parada diante de uma foto do pai da menina
pendurada aqui e acolá e sussurra no ouvido da mocinha:
— Esse malandro aí é seu pai.
Um dia o vovô pega ele...
Título e Texto: Aparecido
Raimundo de Souza, de Nova Venécia, ES, 11-9-2026
E se do nada, de repente eu sumisse. Quem me procuraria?
O que leva as pessoas a sentirem tanto ódio?
[Aparecido rasga o verbo – Extra] O que significa ser “Presidente” de um país?
Os gestos simples dos que não falam
Esses outros “medos” que me perseguem

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