sexta-feira, 30 de outubro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] O gato amedrontado da tia Ana Clara

Aparecido Raimundo de Souza

NAQUELA RUA repletada de ambos os lados por árvores frondosas e centenárias, se via uma infinidade de belas e aconchegantes mansões de tirar o fôlego. Eram residências de três andares as janelas sempre fechadas, cercada por muros baixos, que nem se fazia preciso ultrapassar os portões para ingressar em seus limites. Quase no final dessa rua, havia uma casa diferente, (a única de um só pavimento) e todos os moradores tinham em conta a sua fascinante e meiga proprietária, a bela e simpaticíssima jovem Ana Clara que todos daquela vila calma e pacífica conheciam como a Tia Clara. Essa figura bondosa e carismática, de sorriso doce, os cabelos sempre soltos que lhe caíam cobrindo parte das costas, vivia pelas redondezas distribuindo sorrisos, balas e conselhos às crianças da comunidade. Havia, apesar disso, uma coisa que intrigava a todos: aquela moradia espaçosa e acolhedora, tinha um amontoado de janelas que davam, sem tirar nem pôr, para um jardim cheio flores bem cultivadas, entre elas, de uma porção de rosas as mais variadas cores. A boa senhorita, que de segunda a sexta lecionava na escola para as crianças e adolescentes radicados da redondeza, morava sozinha, ou melhor, residia apenas ela e um simples gato. Um gato, diga-se de passagem, estranho e antissocial.

Desde que chegara, fora batizado como Natal, tendo em vista que se fez presente dois ou três anos atrás exatamente nesse dia. Mas ele não parecia nada feliz. Era um gato bonito, de pelagem cinza e olhos grandes e brilhantes. Entretanto, bastava, alguém se aproximar, ouvir um som mais alto, uma porta batendo, um carro passando mais depressa na rua de terra batida, e lá ia ele: se escondia amedrontado debaixo da cama, atrás das cortinas, por vezes dentro de um armário aberto, ou em qualquer canto escuro e apertado onde sentisse que ninguém o encontraria. Apesar da tia Ana Clara se dar maravilhosamente bem com os arraigados, alguns sem noção cochichavam entre si:

—  Que gato mais esquisito.  O bicho não sai, não brinca, não chega perto de ninguém…

E a tia Ana Clara, sempre que alguém lhe vinha visitar com o intuito de tomar um café e comer um pedaço de bolo de chocolate que tão bem fazia, ou apenas trocar algumas palavras, ela, com aquele sorriso calmo, para com todos que questionavam, respondia:

— Deixa ele. O coitadinho é como um bicho do mato. Ele só levou uns sustos grandes antes de chegar até aqui. A gente não vê, mas o coração dele ainda tá tremendo igualzinho o de uma criança que ouve uma história de noite e não consegue conciliar o sono...

Ninguém sabia, mas Natal tinha sido encontrado na chuva, ainda bem pequenininho. Fora abandonado numa caixa de sapatos perto da estação da estrada de ferro que cortava o vilarejo. Deve ter ouvido gritos, visto ou se deparado com eventos que nenhum bichinho deveria ver. E desde então, o mundo lhe parecia um lugar enorme demais, barulhento em demasia e perigosamente assustador para a sua fragilidade de animal largado aos reveses da vida ingrata.

A Tia Ana Clara nunca o forçou. Jamais o puxou à força, em tempo algum gritou quando ele se escondia, tampouco disse aos berros, “vem cá!” ou com a voz em entonação ríspida. A boa criatura deixava um pratinho de comida perto do esconderijo. Falava baixinho, como se estivesse contando segredos ao passar do vento ameno. Sentava no chão, a uma distância respeitosa e prudente e ficava ali em silêncio, apenas dizendo:

— Tô aqui, Natal. Tô aqui e não vou fazer mal não. Pode ficar onde quiser. O seu cantinho tá sempre seguro. Com o tempo, quem sabe…

E o tempo, de fato, foi passando. Dia após dia. Correndo sem pressa. Um dia, do nada, o cidadão de pelos macios saiu de trás da cortina quando ela lia um romance de Fernando Sabino, o seu autor preferido. No outro, dia, o bichano estendeu uma patinha para tocar o chinelo dela rapidinho e correu de volta. Depois desses eventos, ele passou a aparecer na escola ou mais precisamente na sala onde ela lecionava. Em seguida, se projetou a dormir no pé da porta do quarto dela, que ficava aberta, e do nada, passou a não se esconder mais. E numa manhã de sol quente, quando Tia Ana Clara estava regando as rosas, para em seguida seguir para a escola dar as suas aulas, ele deu um salto e pousou levemente no colo dela. E ali, por incrível que possa parecer, ficou ronronando baixinho, como se finalmente tivesse entendido: “nem todo mundo quer me fazer mal. Às vezes, existe também almas bondosas como a dessa moça, que só quer, de fato, apenas me acolher”.

Hoje, tempos e tempos passados, Natal ainda se assusta com barulhos fortes. Corre para se esconder de vez em quando. Mas agora, ele sabe que existe um lugar seguro para voltar sempre que tiver vontade. E quando está no colo da Tia Ana Clara, com a cabeça apoiada nas suas mãos macias, ele não é mais um bichano amedrontado e arredio. Ele é apenas Feliz. E isso, para os dois, segundo palavras dela, já basta. Com o passar dos anos, Natal foi descobrindo que o mundo não se fazia só feito de barulho e perigo. Aprendeu que o som da vassoura varrendo o quintal imenso não se constituía numa ameaça, apenas se fazia em Tia Ana Clara cuidando do seu espaço. Descobriu também que o vento batendo nas janelas não ia além do vento ameno, não um desconhecido querendo entrar. Até o latido dos cachorros da rua, que antes fazia ele correr desembestado para debaixo da cama, passou a ser apenas um ruído distante, como uma conversa que não fora endereçada a ele.

Houve um dia, porém, que testou toda aquela confiança de uma só vez. Um caminhão de entregas do supermercado parou em frente à casa e o motorista bateu à porta com força, quase gritando para alguém atender. O som foi realmente estrondoso. Natal arrepiou todo o pelo, os olhos se quedaram arregalados, e por um instante pareceu que ia voltar a ser aquele bichinho arredio e assustado de antigamente. Deu um passo para trás, depois outro… e parou...

Olhou para a porta, e espiou compridamente para a Tia Ana Clara, que continuava envolta em Fernando Sabino sentada, serena, fazendo um sinal com a mão para que ele não se estremecesse e fugisse afoito. E em vez de correr, Natal se encolheu um pouquinho, mas ficou. Permaneceu. Quando o sujeito foi embora, ela se ajoelhou perto dele e sussurrou:

— Viu, meu bem? A coisa ruim veio, fez barulho, “estardalhaçou” e depois foi embora. Nada de mal aconteceu com a gente...

Naquela noite, Natal dormiu não mais na pontinha da cama, mas encostadinho no lado dela, ouvindo o coração daquela mulher bonita bater devagarinho, como uma canção maviosa de ninar criança recém nascida. E ele compreendeu também, com aquela sabedoria que só os bichos têm, que a segurança não é a ausência de medo. É saber que mesmo quando o coração bate mais forte e acelera além do normal, existe um lugar onde todos somos aceitos com todos os nossos sustos, com todos os nossos receios e com toda a nossa história, seja ela boa ou má.

E foi assim, exatamente assim, que o gato que um dia tremeu só de ouvir passos no portão, se transformou no guardião mais carinhoso daquela casa. Por conseguinte, quem passava na rua e o via deitado na janela, olhando atentamente o movimento com tranquilidade, nem imaginava tudo que seus olhos ávidos já tinham visto. Mas a Tia Ana Clara sabia. E ele também tinha essa concepção: ele não havia se esquecido de onde viera, mas agora havia aprendido para onde precisava seguir e se alojar, sempre que o mundo parecesse grande demais.

A LIÇÃO QUE FICA DESSA PEQUENA CRÔNICA É A SEGUINTE: A CURA DO MEDO NÃO É DEIXAR DE LADO OS RESQUÍCIOS DE SER LEVADO PELOS INFORTÚNIOS DO PAVOR. É TER A CONSCIÊNCIA DE ONDE SE ABANCAR E DESCANSAR QUANDO ALGO RUIM CHEGAR VINDO DE ALGUM LUGAR INÓSPITO. O MELHOR, NESSAS HORAS, SE ABRIGAR NUM COLO AMIGO E NELE FICAR DE FORMA DEFINITIVA JUNTO A ESSE ALGUÉM QUE SÓ TEM A INTENÇÃO MAVIOSA DE PROTEGER E GUARDAR. SOBRETUDO, AMAR.

ESCLARECIMENTO FINAL:

Há muitos de nós que somos um pouquinho esse gato.  Levamos sustos pela vida, recolhemos nossos dissabores, e por vezes achamos erroneamente que o mundo inteiro é perigoso e hostil. Mas sempre existe perto de nós, a bondade encantadora de uma Tia Ana Clara, acredite, você que me lê agora, caro leitor e amigo.  Sempre existirá onde menos se espera, uma criatura pacienciosa dona de um coração bondoso e de um amor que não nos pretende fazer mal algum. Esta alma caridosa, bondosa, repletada de gestos simples, sinalizará com toda paciência deste mundo e dirá: “vem devagarinho. Se achegue. Estava aqui te esperando”.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 30-10-2026 

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