Aparecido Raimundo de Souza
Desde que chegara, fora batizado
como Natal, tendo em vista que se fez presente dois ou três anos atrás
exatamente nesse dia. Mas ele não parecia nada feliz. Era um gato bonito, de
pelagem cinza e olhos grandes e brilhantes. Entretanto, bastava, alguém se
aproximar, ouvir um som mais alto, uma porta batendo, um carro passando mais
depressa na rua de terra batida, e lá ia ele: se escondia amedrontado debaixo
da cama, atrás das cortinas, por vezes dentro de um armário aberto, ou em qualquer
canto escuro e apertado onde sentisse que ninguém o encontraria. Apesar da tia
Ana Clara se dar maravilhosamente bem com os arraigados, alguns sem noção
cochichavam entre si:
—
Que gato mais esquisito. O bicho
não sai, não brinca, não chega perto de ninguém…
E a tia Ana Clara, sempre que alguém
lhe vinha visitar com o intuito de tomar um café e comer um pedaço de bolo de
chocolate que tão bem fazia, ou apenas trocar algumas palavras, ela, com aquele
sorriso calmo, para com todos que questionavam, respondia:
— Deixa ele. O coitadinho é como um
bicho do mato. Ele só levou uns sustos grandes antes de chegar até aqui. A
gente não vê, mas o coração dele ainda tá tremendo igualzinho o de uma criança
que ouve uma história de noite e não consegue conciliar o sono...
Ninguém sabia, mas Natal tinha sido encontrado na chuva, ainda bem pequenininho. Fora abandonado numa caixa de sapatos perto da estação da estrada de ferro que cortava o vilarejo. Deve ter ouvido gritos, visto ou se deparado com eventos que nenhum bichinho deveria ver. E desde então, o mundo lhe parecia um lugar enorme demais, barulhento em demasia e perigosamente assustador para a sua fragilidade de animal largado aos reveses da vida ingrata.
A Tia Ana Clara nunca o forçou.
Jamais o puxou à força, em tempo algum gritou quando ele se escondia, tampouco
disse aos berros, “vem cá!” ou com a voz em entonação ríspida. A boa criatura
deixava um pratinho de comida perto do esconderijo. Falava baixinho, como se
estivesse contando segredos ao passar do vento ameno. Sentava no chão, a uma
distância respeitosa e prudente e ficava ali em silêncio, apenas dizendo:
— Tô aqui, Natal. Tô aqui e não vou
fazer mal não. Pode ficar onde quiser. O seu cantinho tá sempre seguro. Com o
tempo, quem sabe…
E o tempo, de fato, foi passando.
Dia após dia. Correndo sem pressa. Um dia, do nada, o cidadão de pelos macios
saiu de trás da cortina quando ela lia um romance de Fernando Sabino, o seu
autor preferido. No outro, dia, o bichano estendeu uma patinha para tocar o
chinelo dela rapidinho e correu de volta. Depois desses eventos, ele passou a
aparecer na escola ou mais precisamente na sala onde ela lecionava. Em seguida,
se projetou a dormir no pé da porta do quarto dela, que ficava aberta, e do
nada, passou a não se esconder mais. E numa manhã de sol quente, quando Tia Ana
Clara estava regando as rosas, para em seguida seguir para a escola dar as suas
aulas, ele deu um salto e pousou levemente no colo dela. E ali, por incrível
que possa parecer, ficou ronronando baixinho, como se finalmente tivesse
entendido: “nem todo mundo quer me fazer mal. Às vezes, existe também almas
bondosas como a dessa moça, que só quer, de fato, apenas me acolher”.
Hoje, tempos e tempos passados,
Natal ainda se assusta com barulhos fortes. Corre para se esconder de vez em
quando. Mas agora, ele sabe que existe um lugar seguro para voltar sempre que
tiver vontade. E quando está no colo da Tia Ana Clara, com a cabeça apoiada nas
suas mãos macias, ele não é mais um bichano amedrontado e arredio. Ele é apenas
Feliz. E isso, para os dois, segundo palavras dela, já basta. Com o passar dos
anos, Natal foi descobrindo que o mundo não se fazia só feito de barulho e
perigo. Aprendeu que o som da vassoura varrendo o quintal imenso não se
constituía numa ameaça, apenas se fazia em Tia Ana Clara cuidando do seu
espaço. Descobriu também que o vento batendo nas janelas não ia além do vento
ameno, não um desconhecido querendo entrar. Até o latido dos cachorros da rua,
que antes fazia ele correr desembestado para debaixo da cama, passou a ser
apenas um ruído distante, como uma conversa que não fora endereçada a ele.
Houve um dia, porém, que testou toda
aquela confiança de uma só vez. Um caminhão de entregas do supermercado parou
em frente à casa e o motorista bateu à porta com força, quase gritando para
alguém atender. O som foi realmente estrondoso. Natal arrepiou todo o pelo, os
olhos se quedaram arregalados, e por um instante pareceu que ia voltar a ser
aquele bichinho arredio e assustado de antigamente. Deu um passo para trás,
depois outro… e parou...
Olhou para a porta, e espiou
compridamente para a Tia Ana Clara, que continuava envolta em Fernando Sabino
sentada, serena, fazendo um sinal com a mão para que ele não se estremecesse e
fugisse afoito. E em vez de correr, Natal se encolheu um pouquinho, mas ficou.
Permaneceu. Quando o sujeito foi embora, ela se ajoelhou perto dele e
sussurrou:
— Viu, meu bem? A coisa ruim veio,
fez barulho, “estardalhaçou” e depois foi embora. Nada de mal aconteceu com a
gente...
Naquela noite, Natal dormiu não mais
na pontinha da cama, mas encostadinho no lado dela, ouvindo o coração daquela
mulher bonita bater devagarinho, como uma canção maviosa de ninar criança recém
nascida. E ele compreendeu também, com aquela sabedoria que só os bichos têm,
que a segurança não é a ausência de medo. É saber que mesmo quando o coração
bate mais forte e acelera além do normal, existe um lugar onde todos somos
aceitos com todos os nossos sustos, com todos os nossos receios e com toda a
nossa história, seja ela boa ou má.
E foi assim, exatamente assim, que o
gato que um dia tremeu só de ouvir passos no portão, se transformou no guardião
mais carinhoso daquela casa. Por conseguinte, quem passava na rua e o via
deitado na janela, olhando atentamente o movimento com tranquilidade, nem
imaginava tudo que seus olhos ávidos já tinham visto. Mas a Tia Ana Clara
sabia. E ele também tinha essa concepção: ele não havia se esquecido de onde
viera, mas agora havia aprendido para onde precisava seguir e se alojar, sempre
que o mundo parecesse grande demais.
A LIÇÃO QUE FICA DESSA PEQUENA
CRÔNICA É A SEGUINTE: A CURA DO MEDO NÃO É DEIXAR DE LADO OS RESQUÍCIOS DE SER
LEVADO PELOS INFORTÚNIOS DO PAVOR. É TER A CONSCIÊNCIA DE ONDE SE ABANCAR E
DESCANSAR QUANDO ALGO RUIM CHEGAR VINDO DE ALGUM LUGAR INÓSPITO. O MELHOR,
NESSAS HORAS, SE ABRIGAR NUM COLO AMIGO E NELE FICAR DE FORMA DEFINITIVA JUNTO
A ESSE ALGUÉM QUE SÓ TEM A INTENÇÃO MAVIOSA DE PROTEGER E GUARDAR. SOBRETUDO,
AMAR.
ESCLARECIMENTO FINAL:
Há muitos de nós que somos um
pouquinho esse gato. Levamos sustos pela
vida, recolhemos nossos dissabores, e por vezes achamos erroneamente que o
mundo inteiro é perigoso e hostil. Mas sempre existe perto de nós, a bondade
encantadora de uma Tia Ana Clara, acredite, você que me lê agora, caro leitor e
amigo. Sempre existirá onde menos se
espera, uma criatura pacienciosa dona de um coração bondoso e de um amor que
não nos pretende fazer mal algum. Esta alma caridosa, bondosa, repletada de
gestos simples, sinalizará com toda paciência deste mundo e dirá: “vem
devagarinho. Se achegue. Estava aqui te esperando”.
Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 30-10-2026
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