sábado, 17 de outubro de 2026

Vale tudo

Faltam poucos dias para a grande escolha

Quando estão em jogo poder, dinheiro e vaidade, a temperatura sobe enquanto a compostura desce.

É a reta final de uma eleição.

Os discursos inflamam, as promessas se multiplicam e certas consciências adquirem uma elasticidade admirável.

Começa o vale-tudo.

Nos comitês, estrategistas se debruçam sobre pesquisas e mapas eleitorais que transformam cidadãos em percentuais.

Já não se procuram pessoas. Procuram-se votos.

Cada indeciso vira uma oportunidade. Cada eleitor vulnerável, um território a conquistar. Cada notícia, verdadeira ou falsa, uma possível arma.

A inteligência artificial também entrou em campanha.

Agora é possível fabricar imagens, vozes e declarações capazes de enganar até os mais desconfiados.

O flagrante já não precisa acontecer. Basta parecer que aconteceu.

E, quando a mentira é desmentida, talvez já tenha cumprido sua missão.

Há também as promessas.

Ah, as promessas!

Na reta final, o dinheiro público adquire propriedades milagrosas. Multiplica-se nos discursos e financia soluções que ninguém encontrou durante anos.

A saúde será perfeita. A educação, exemplar. A segurança, absoluta. A economia, próspera.

Tudo ao alcance de um voto.

Curiosamente, algumas dessas maravilhas são anunciadas por quem já teve tempo, recursos e poder para realizá-las, mas só agora descobriu como.

Há os que disputam o poder para chegar.

E os que lutam desesperadamente para não sair.

Estes costumam gritar mais alto.

A alternância de governo ameaça uma confortável intimidade com o dinheiro público. Acostumaram-se às tetas do Estado e confundem o orçamento nacional com patrimônio de família.

Já mamaram bastante.

A saciedade nunca foi uma virtude cultivada nos corredores do poder.

Enquanto isso, nas redes sociais, a verdade disputa uma corrida contra a mentira.

E quase sempre chega atrasada.

Uma frase fora de contexto vira escândalo. Uma imagem manipulada, prova. Uma acusação sem fundamento encontra defensores antes que alguém pergunte se aconteceu.

A indignação rende votos.

E o medo, quando bem administrado, pode valer mais que um programa de governo.

Nos bastidores, estrategistas testam palavras, escolhem inimigos e fabricam urgências.

O importante é vencer.

Depois se discute o resto.

Existe algo especialmente perverso nesse espetáculo: a exploração da vulnerabilidade.

Quem enfrenta dificuldades ou teme perder o pouco que possui torna-se alvo de promessas grandiosas e ameaças cuidadosamente construídas.

A necessidade vira instrumento de convencimento.

E a esperança, moeda eleitoral.

Disputar votos é da essência da democracia.

O problema começa quando conquistá-los se torna mais importante do que respeitar quem os deposita na urna.

Quando a mentira vira estratégia, a manipulação vira inteligência e a falta de escrúpulos ganha o nome de habilidade política.

A urna, entretanto, não distingue ricos de pobres, poderosos de desconhecidos.

Recebe o voto de todos com a mesma indiferença eletrônica.

Durante a campanha, alguns fazem de tudo para conquistar o eleitor.

Depois da eleição, parecem fazer de tudo para esquecê-lo.

Faltam poucos dias.

As promessas crescerão. As acusações se multiplicarão. Os oportunistas procurarão suas últimas oportunidades.

Porque, quando o poder está em jogo, há quem acredite que vale tudo.

Até perder a vergonha.

Mas a urna ainda oferece ao eleitor a oportunidade de decidir segundo a própria consciência.

Mais importante do que acreditar em promessas é conhecer o caráter de quem as faz.

Examinar sua trajetória, seus valores, suas atitudes. Procurar coerência entre o que diz e o que pratica.

Afinal, não basta escolher alguém que pense como nós.

É preciso saber se essa pessoa vive de acordo com os valores que diz defender.

Porque, na política, há quem acredite que vale tudo.

Vale mentir.

Vale prometer o que jamais pretende cumprir.

Vale trocar a cor da camisa conforme a conveniência.

Vale até transformar a dissonância cognitiva em virtude eleitoral.

Só que não.

Na consciência de quem vota, nem tudo vale.

Título, Imagem e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 17-10-2026, 15h49

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Um comentário:

  1. Agora virou moda? 🟢🟡🔴
    ​Depois de anos pisando na nossa bandeira, dizendo que usar verde e amarelo era "coisa de fascista" e defendendo que a cor deles sempre foi e sempre será o vermelho, agora resolveram colocar a camisa do Brasil para fazer o "L" e colocar o número 13?
    ​É a maior prova de hipocrisia que você vai ver hoje.
    ​Querem usar o nosso maior símbolo nacional apenas como adereço de foto de campanha, enquanto no dia a dia desrespeitam tudo o que o patriotismo de verdade representa. A bandeira do Brasil pertence ao povo que se orgulha da sua pátria, não a quem só lembra dela quando precisa de voto.
    ​A pergunta que fica é: a tinta vermelha acabou ou é só desespero mesmo? 🤡🇧🇷

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