sábado, 31 de outubro de 2026

“uma sociedade que retira sistematicamente autoridade às suas forças de segurança não elimina a necessidade de ordem”

João Pereira dos Santos 

Todos os dias, milhares de cidadãos apresentam queixas pelos mais variados motivos. Umas têm fundamento, outras são completamente estapafúrdias. Umas são motivadas por problemas genuínos, outras têm objetivos ocultos e destinam-se a atingir pessoas ou instituições que os denunciantes, por um motivo ou por outro, querem prejudicar.

Assim sendo, de onde vem esta obsessão da esquerda e dos seus órgãos de comunicação social em atacar ferozmente a polícia?

Pois bem, quem tem alguns conhecimentos de política internacional sabe que o marxismo não é igual em todo o lado. Tivemos o marxismo soviético, o chinês e o latino-americano. Embora todos tenham produzido regimes autoritários, a América Latina desenvolveu uma tradição revolucionária particularmente marcada pela proximidade entre movimentos políticos, guerrilhas e organizações criminosas.

Veja-se o caso das FARC, na Colômbia, uma organização marxista que financiou parte das suas atividades através do narcotráfico, dos sequestros e da extorsão. Ou o Sendero Luminoso, no Peru, que transformou a promessa de libertação dos trabalhadores numa campanha de terrorismo contra a própria população que dizia defender.

Depois temos Hugo Chávez, que começou por tentar conquistar o poder através de um golpe militar, antes de chegar à presidência da Venezuela pela via eleitoral. E Nicolás Maduro, seu sucessor, cujo regime ficou associado à repressão política, à destruição das instituições democráticas e ao narcotráfico.

No Brasil, temos Lula da Silva, com o Mensalão e Lava Jato.

Ora, por motivos que ainda não consegui compreender na sua plenitude, os novos movimentos de esquerda europeus parecem ter ido buscar inspiração precisamente às experiências mais problemáticas da esquerda latino-americana, o que é bem visível nas ruas e nas elites, desde Sócrates com Chavez a José Luís Carneiro a se reunir com o governo venezuelano assim que Maduro foi capturado. Delcy Rodriguez lhe sucedeu.

E há uma consequência lógica nesta estratégia da esquerda que considero especialmente preocupante: querem retirar os dentes à polícia para que o crime organizado, que, na tradição latino-americana, com a esquerda se mistura e a financia, encontre cada vez menos obstáculos à sua expansão e, em última análise, à captura do próprio Estado.

Repare-se na extraordinária contradição. Os mesmos setores políticos que exigem que o Estado intervenha em todos os aspetos da vida económica e social parecem descobrir um ódio visceral ao Estado quando este exerce uma das suas funções mais elementares: garantir a ordem pública e proteger os cidadãos.

Querem um Estado suficientemente forte para controlar os proprietários, os empresários e os contribuintes, mas suficientemente fraco para não conseguir impedir a ocupação ilegal de espaços públicos, combater o tráfico de drogas (Cova da Moura e Martim Moniz) ou combater redes de carteiristas e de assaltantes.

É uma concepção muito peculiar da autoridade.

E, naturalmente, quando a PSP intervém, começa imediatamente o espetáculo. Aparecem os comunicados, os movimentos, as associações, os especialistas e os órgãos de comunicação social disponíveis para amplificar cada denúncia, como se apresentar uma queixa fosse equivalente a provar a prática de um crime.

A notícia da CNN Portugal, originalmente divulgada pela Lusa, é mais um exemplo deste fenómeno. Um cidadão apresentou uma queixa contra a polícia e somos imediatamente confrontados com uma lista impressionante de crimes: abuso de poder, ofensas à integridade física qualificadas, coação agravada e sequestro.

Não sei se os jornalistas se esqueceram daquele princípio basilar: notícia é quando um homem morde um cão, e não quando um cão mordeu um homem. Um cidadão fazer uma denúncia é tão corriqueiro como lavar os dentes (pelo menos para quem os lava).

A questão fundamental é esta: uma sociedade que retira sistematicamente autoridade às suas forças de segurança não elimina a necessidade de ordem. Limita-se a abrir espaço para que essa ordem seja imposta por outros.

A experiência latino-americana oferece exemplos suficientemente elucidativos do que acontece quando organizações criminosas conseguem infiltrar-se nas instituições, controlar territórios e disputar ao Estado o monopólio legítimo da força.

É por isso que considero tão preocupante esta permanente tentativa de deslegitimar a atuação policial.

Uma coisa é fiscalizar a polícia para garantir que cumpre a lei. Outra, completamente diferente, é procurar enfraquecê-la até deixar de conseguir fazer cumprir a lei. Parece-me, claramente, por tudo o que tenho visto, que esta união entre alguns magistrados, alguns advogados e alguma comunicação social, não tem como objetivo fiscalizar a polícia, mas sim inspirar o medo em agentes e chefias, até no encalço do célebre "Não nos encostem à parede", o que é particularmente sério num país que aspire a manter-se democrático.

É que no primeiro caso, estamos a defender o Estado de direito. No segundo, estamos a preparar as condições para que outros poderes ocupem o espaço deixado pelo Estado. O vazio de poder não existe.

E esses outros poderes, como a história latino-americana demonstra, não costumam ser particularmente conhecidos pelo respeito pelos direitos humanos.

Deixo, todavia, um apelo final para que os demais cidadãos estejam particularmente atentos, e vejam o ambiente social e mediático não como uma cadeia de episódios isolados, mas como a tentativa de construção de uma agenda política que ou pretende ou vai culminar no derrube violento do regime democrático.

Estejam atentos não só ao teor das notícias, mas também aos próprios factos que a imprensa decide que são dignos de serem noticiados, e à forma como as notícias e os protagonistas encaixam uns nos outros, e de que forma podem condicionar, neste caso, a atuação policial. Se o fizerem, perceberão a gravidade do momento e a necessidade de, mais do que nunca, permanecerem vigilantes. Não podemos permitir que Portugal se transforme, cada vez mais, num paraíso do crime e da desordem, e este irresponsável circo a que temos assistido não pode ter como reação a apatia.

Acordem, porque as cenas dos próximos capítulos são absolutamente previsíveis se nada se fizer. E vocês sabem tão bem como eu que não serão nada bonitas.

Imagem e Texto: João Pereira dos Santos, Facebook, 30-10-2026, 8h30

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-