João Pereira dos Santos
Todos os dias, milhares de cidadãos
apresentam queixas pelos mais variados motivos. Umas têm fundamento, outras são
completamente estapafúrdias. Umas são motivadas por problemas genuínos, outras
têm objetivos ocultos e destinam-se a atingir pessoas ou instituições que os
denunciantes, por um motivo ou por outro, querem prejudicar.
Assim sendo, de onde vem esta obsessão
da esquerda e dos seus órgãos de comunicação social em atacar ferozmente a
polícia?
Pois bem, quem tem alguns
conhecimentos de política internacional sabe que o marxismo não é igual em todo
o lado. Tivemos o marxismo soviético, o chinês e o latino-americano. Embora
todos tenham produzido regimes autoritários, a América Latina desenvolveu uma
tradição revolucionária particularmente marcada pela proximidade entre
movimentos políticos, guerrilhas e organizações criminosas.
Veja-se o caso das FARC, na Colômbia,
uma organização marxista que financiou parte das suas atividades através do
narcotráfico, dos sequestros e da extorsão. Ou o Sendero Luminoso, no Peru, que
transformou a promessa de libertação dos trabalhadores numa campanha de
terrorismo contra a própria população que dizia defender.
Depois temos Hugo Chávez, que começou
por tentar conquistar o poder através de um golpe militar, antes de chegar à
presidência da Venezuela pela via eleitoral. E Nicolás Maduro, seu sucessor,
cujo regime ficou associado à repressão política, à destruição das instituições
democráticas e ao narcotráfico.
No Brasil, temos Lula da Silva, com o
Mensalão e Lava Jato.
Ora, por motivos que ainda não consegui compreender na sua plenitude, os novos movimentos de esquerda europeus parecem ter ido buscar inspiração precisamente às experiências mais problemáticas da esquerda latino-americana, o que é bem visível nas ruas e nas elites, desde Sócrates com Chavez a José Luís Carneiro a se reunir com o governo venezuelano assim que Maduro foi capturado. Delcy Rodriguez lhe sucedeu.
E há uma consequência lógica nesta estratégia da esquerda que considero especialmente preocupante: querem retirar os dentes à polícia para que o crime organizado, que, na tradição latino-americana, com a esquerda se mistura e a financia, encontre cada vez menos obstáculos à sua expansão e, em última análise, à captura do próprio Estado.
Repare-se na extraordinária
contradição. Os mesmos setores políticos que exigem que o Estado intervenha em
todos os aspetos da vida económica e social parecem descobrir um ódio visceral
ao Estado quando este exerce uma das suas funções mais elementares: garantir a
ordem pública e proteger os cidadãos.
Querem um Estado suficientemente forte
para controlar os proprietários, os empresários e os contribuintes, mas
suficientemente fraco para não conseguir impedir a ocupação ilegal de espaços
públicos, combater o tráfico de drogas (Cova da Moura e Martim Moniz) ou
combater redes de carteiristas e de assaltantes.
É uma concepção muito peculiar da
autoridade.
E, naturalmente, quando a PSP
intervém, começa imediatamente o espetáculo. Aparecem os comunicados, os
movimentos, as associações, os especialistas e os órgãos de comunicação social
disponíveis para amplificar cada denúncia, como se apresentar uma queixa fosse
equivalente a provar a prática de um crime.
A notícia da CNN Portugal,
originalmente divulgada pela Lusa, é mais um exemplo deste fenómeno. Um cidadão
apresentou uma queixa contra a polícia e somos imediatamente confrontados com
uma lista impressionante de crimes: abuso de poder, ofensas à integridade
física qualificadas, coação agravada e sequestro.
Não sei se os jornalistas se
esqueceram daquele princípio basilar: notícia é quando um homem morde um cão, e
não quando um cão mordeu um homem. Um cidadão fazer uma denúncia é tão
corriqueiro como lavar os dentes (pelo menos para quem os lava).
A questão fundamental é esta: uma
sociedade que retira sistematicamente autoridade às suas forças de segurança
não elimina a necessidade de ordem. Limita-se a abrir espaço para que essa
ordem seja imposta por outros.
A experiência latino-americana oferece
exemplos suficientemente elucidativos do que acontece quando organizações
criminosas conseguem infiltrar-se nas instituições, controlar territórios e
disputar ao Estado o monopólio legítimo da força.
É por isso que considero tão
preocupante esta permanente tentativa de deslegitimar a atuação policial.
Uma coisa é fiscalizar a polícia para
garantir que cumpre a lei. Outra, completamente diferente, é procurar
enfraquecê-la até deixar de conseguir fazer cumprir a lei. Parece-me,
claramente, por tudo o que tenho visto, que esta união entre alguns magistrados,
alguns advogados e alguma comunicação social, não tem como objetivo fiscalizar
a polícia, mas sim inspirar o medo em agentes e chefias, até no encalço do
célebre "Não nos encostem à parede", o que é particularmente sério
num país que aspire a manter-se democrático.
É que no primeiro caso, estamos a
defender o Estado de direito. No segundo, estamos a preparar as condições para
que outros poderes ocupem o espaço deixado pelo Estado. O vazio de poder não
existe.
E esses outros poderes, como a
história latino-americana demonstra, não costumam ser particularmente
conhecidos pelo respeito pelos direitos humanos.
Deixo, todavia, um apelo final para
que os demais cidadãos estejam particularmente atentos, e vejam o ambiente
social e mediático não como uma cadeia de episódios isolados, mas como a
tentativa de construção de uma agenda política que ou pretende ou vai culminar
no derrube violento do regime democrático.
Estejam atentos não só ao teor das
notícias, mas também aos próprios factos que a imprensa decide que são dignos
de serem noticiados, e à forma como as notícias e os protagonistas encaixam uns
nos outros, e de que forma podem condicionar, neste caso, a atuação policial.
Se o fizerem, perceberão a gravidade do momento e a necessidade de, mais do que
nunca, permanecerem vigilantes. Não podemos permitir que Portugal se
transforme, cada vez mais, num paraíso do crime e da desordem, e este
irresponsável circo a que temos assistido não pode ter como reação a apatia.
Acordem, porque as cenas dos próximos
capítulos são absolutamente previsíveis se nada se fizer. E vocês sabem tão bem
como eu que não serão nada bonitas.
Imagem e Texto: João Pereira dos
Santos, Facebook,
30-10-2026, 8h30

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