domingo, 1 de novembro de 2026

A doença que mata sem aviso

A vitória nas urnas não dá ao governo o direito de continuar ignorando os sintomas da moléstia fiscal e tratando o dinheiro público como se não houvesse amanhã


Nuno Vasconcellos

Pela maneira e pelo tom com que o assunto vem sendo tratado pelo presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva e pelos políticos que gravitam em torno dele, a defesa de um ajuste fiscal capaz de trazer um pouco de ordem às contas públicas do Brasil nada mais é do que a prova da insensibilidade do mercado financeiro malvadão diante da situação da população mais vulnerável do país. Organizar as contas públicas, na visão da esquerda, seria praticamente sinônimo de corte de recursos para os programas sociais — como se não houvesse outra maneira de conter a gulodice do Estado.

Na semana passada, o chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, provocou um tremendo bafafá ao comparar o tratamento que as finanças públicas terão no quarto mandato de Lula com o rigor que havia sido prometido pelo derrotado Flávio Bolsonaro. O plano econômico da oposição, só para recordar, previa a redução de até R$ 200 bilhões por ano nas despesas federais. Bem recebida pelo mercado, a promessa derrubou a cotação do dólar e elevou os preços das ações negociadas em Bolsa depois do resultado no primeiro turno das eleições.

O efeito da vitória de Lula foi justamente o contrário. Jogou no chão a cotação das empresas brasileiras e puxou o câmbio para a estratosfera. Na semana seguinte à vitória de Lula, o índice da B3, a bolsa de valores do país, sofreu uma queda de 18%. E a elevação da cotação do dólar, que alcançou R$ 5,44 na sexta-feira, foi superior a 9% ao longo da semana.

Para o governo, no entanto, isso não passou de uma reação “do andar de cima” à vitória do PT. Boulos deixou claro que não haverá cortes nos programas sociais (algo que, convenhamos, não constava das intenções de Flávio) e que o governo cumprirá as promessas feitas durante a campanha. Promessas que o mercado recebeu como populistas e nocivas ao equilíbrio das contas.

“O candidato da Faria Lima perdeu e fugiu para os EUA. A agenda econômica do Brasil será a que venceu as eleições, não a que perdeu!”, escreveu Boulos na Rede X.

A pergunta é: até quando o governo insistirá em acusar os defensores do equilíbrio das contas públicas de lacaios da “elite” — quando quem mais sofre com os problemas gerados pelo déficit público fora de controle é justamente a base da pirâmide?

PRESSÃO ELEVADA

A dívida pública é como uma doença insidiosa, que surge sem que seus sintomas sejam percebidos — e, quando o paciente se dá conta da necessidade de combatê-la, às vezes é tarde demais para tratar efeitos que poderiam ser controlados com facilidade se o problema tivesse sido enfrentado no início. É mais ou menos como a pressão arterial elevada, que poderia ter sido evitada com medidas simples, mas que, quando evolui sem tratamento, pode levar ao infarto do miocárdio ou ao AVC.

O processo é de fácil compreensão. Por mais elevada que esteja a arrecadação, o dinheiro dos impostos é insuficiente para cobrir as despesas federais. Para conseguir dinheiro para pagar salários, quitar a conta de luz, bancar o cafezinho servido nas repartições e cobrir outros gastos de custeio, o Tesouro Nacional oferece títulos ao mercado — que os compra em troca de juros estratosféricos.

Na quinta-feira passada, o Tesouro divulgou que a dívida pública federal alcançou R$ 9,3 trilhões — um aumento de 1% em relação a agosto. Boa parte desse aumento se deve à incorporação ao estoque da dívida do refinanciamento dos juros de dívidas já vencidas. De acordo com o Banco Central, o governo gasta R$ 3 bilhões por dia com o pagamento dos juros da dívida.

Quanto menor for a confiança na responsabilidade fiscal do governo, maiores serão os juros que os donos do dinheiro exigirão para financiar o Estado. Na sexta-feira retrasada, quando uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro era vista como provável, o mercado aceitava comprar títulos com vencimento previsto para janeiro de 2031 com juros de 12,64% ao ano. Na segunda-feira, confirmada a eleição de Lula, os juros pela mesma operação e pelo mesmo prazo saltaram para 14,46% ao ano. A pressão foi tão forte que o governo interrompeu a oferta de títulos.

MOLÉSTIA INSIDIOSA

Os sinais de piora na situação macroeconômica do país, é evidente, não começaram com a reeleição de Lula. Como uma doença insidiosa, eles vêm evoluindo lentamente. É o que vem acontecendo, por exemplo, com o indicador que, nos últimos anos, foi considerado um dos sinais mais saudáveis da economia brasileira: as reservas internacionais.

Entre junho e julho deste ano, o Brasil voltou a ser um devedor externo líquido depois de 19 anos na condição de credor. Isso significa que o valor das reservas cambiais brasileiras (de US$ 369,7 bilhões em julho) passou a ser menor do que a soma das obrigações internacionais (que alcançaram US$ 411,1 bilhões no mesmo mês).

Essa reversão não traz qualquer risco imediato de insolvência internacional. O valor atual das reservas cambiais (que continuam caindo e hoje estão em US$ 362,8 bilhões) ainda é mais do que suficiente para cobrir os compromissos de curto prazo.

De qualquer forma, é bom tomar cuidado. Assim como as doenças que evoluem em silêncio, os sinais de que o país precisa de tratamento não podem ser ignorados. A vitória nas urnas não significa um salvo-conduto para a gastança ou uma autorização para medidas que, no final das contas, significam mais inflação, juros mais elevados e um câmbio nas alturas. Ou seja, ações que atrasam a vida não da elite da Faria Lima (que, de acordo com os mapas de votação do domingo passado, deu mais votos a Lula do que a Flávio). Atrasam, isso sim, a vida dos que precisam se desdobrar para fazer o dinheiro do salário chegar até o fim do mês e que estão pressionados por um endividamento que ultrapassou todos os limites aceitáveis.

Título, Imagem e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 1-11-2026

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