sábado, 31 de outubro de 2026

As pesquisas e a virada de Janones

Gastão Reis

A eleição presidencial de 2026, em seu segundo turno, apresentou algumas características estranhas. Analistas políticos tentam entender o fato de as últimas pesquisas, às vésperas da eleição, apontarem Flávio Bolsonaro como favorito, com uma vantagem sobre Lula de dois ou mais pontos percentuais. E, de repente, não mais que de repente, o quadro mudou, até percentualmente, em questão de poucas horas, a favor de Lula.

O autor do milagre teria sido o deputado federal André Janones. Sua estratégia teria mudado a cabeça dos eleitores nas redes sociais a ponto de conseguir milhões de votos para Lula, vencedor no segundo turno após ter ficado em segundo lugar no primeiro, vencido por Flávio Bolsonaro. Situação inédita, sem dúvida. A questão central é se as pesquisas simplesmente erraram em massa ou se haveria outros fatores explicativos para o surpreendente e inesperado resultado das urnas.

Vamos por partes. Qualquer sistema eleitoral fidedigno deve permitir a recontagem de votos quando e onde for necessária para dirimir quaisquer dúvidas quanto aos resultados. As atuais urnas permitem a retirada de um boletim de urna em forma de lingueta com os votos de cada um dos candidatos. Não obstante, parece haver resistência quando se fala em recontagem. O fato de o ministro Cristiano Zanin prorrogar por duas horas o funcionamento das seções eleitorais, em decisão monocrática, causou estranheza, aqui e no exterior, pois algo semelhante jamais havia ocorrido antes.

O mercado financeiro, por não acreditar no corte de gastos (ajuste fiscal) sob Lula, viveu na segunda-feira, 26.10.26, um dia muito tumultuado. A bolsa caiu quase 14% e o dólar disparou 8,22%, fechando em R$ 5,40. Tal situação revela a acentuada falta de confiança no futuro. Afinal, um presidente que afirma que é babaquice fazer superávit primário — ou seja, gastar menos do que se arrecada para reequilibrar as contas públicas — não merece crédito, vale dizer, confiança do mercado.

(Na mesma segunda-feira, o economista Samuel Pessôa, em entrevista à CNN, no programa WW com William Waack, deu uma explicação elaborada, com certa dose de economês, para explicar a resistência de Lula ao ajuste fiscal. O jornalista William Waack, ato contínuo, pede a palavra e solicita ao participante para ser corrigido, se estiver errado, na tradução que iria fazer de suas palavras em português curto e grosso, que foi a seguinte: “A verdade é que Lula não entende nada de economia!”. Acertou na mosca, pois é exatamente disso que se trata, ou seja, arrogância de analfabeto em economia.)

Ouvir o povo não é uma tradição republicana no Brasil desde 1889. Os tempos em que D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II ouviam o povo (inclusive escravizados) toda semana passaram a ser tempos idos e vividos, como dizia Machado de Assis. A raridade de plebiscitos no Brasil é a prova dessa surdez seletiva quando se trata de ouvir o povo. Absurdos como penduricalhos no Judiciário e juízes pegos em flagrante em atos de corrupção têm como punição a aposentadoria integral, sem devolver aos cofres públicos o dinheiro surrupiado.

No mesmo programa já mencionado, William Waack chama a atenção para o nosso lado esquizofrênico, vale dizer, presidentes que vencem a eleição sem ter ganho simultaneamente as eleições para o Congresso (Câmara Federal e Senado). Na tradição parlamentarista mundial, e na nossa até 1889, um governo só se estabelece após obter maioria no Parlamento. Além da compra descarada de votos para se reeleger, mais de 300 bilhões de reais, Lula terá que inaugurar uma segunda fase de acertos nada republicanos para conseguir governar.

A mudança de humor do eleitorado a favor de Lula em apenas três semanas antes do segundo turno e a unanimidade das pesquisas dando vitória a Flávio na véspera do pleito nos colocam diante de um contexto muito estranho. A interrupção da apuração de votos durante duas horas, insisto, foi uma situação jamais vista em apurações anteriores. Tais circunstâncias dão margem a dúvidas, dado o súbito avanço de quase 4% a mais para Lula em relação a Flávio no segundo turno.

Título, Imagem e Texto: Gastão Reis, O Dia, 31-10-2026

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Um comentário:

  1. O PT consentiu e apoiou a discriminação ideológica praticada durante anos pelo Sleeping Giants. Aplaudiu depredações praticadas por seus apoiadores de comércios e monumentos públicos históricos aos quais discordava ideologicamente.
    O 5TF se dedica há anos na perseguição ideológica e ficou evidente em 2022 e também agora em 2026 no T5E pelo represamento de ações propostas.
    Mas o problema é o consumidor isoladamente ou em pequenos grupos decidir não realizar trocas com quem apoia arduamente o exposto acima.
    Antes de andar novamente, e preciso desvirar o Brasil.

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