sábado, 17 de outubro de 2026

[Versos de través] Os Portugueses

J. Simões Fernandes

A vida dos portugueses é uma guitarra e a 
guitarra é Portugal. As cordas da guitarra, que
a vida dos portugueses é, quando em repouso,
abandonadas a si mesmas, são os fios do
destino à espera de serem ativadas. É da índole
dos portugueses esperar que algum encoberto
messiânico desígnio, os venha ativar e indicar o
caminho – o fado.

Mas o encoberto não vem!... Os portugueses,
mais hábeis uns, menos hábeis outros, são
levados a pegar na guitarra, na vida e a
dedilhar o seu próprio fado.

Quando dedilhadas as cordas, as vibrações,
em sua sonoridade, tornam-se sonhos, uns
frustrados, em desolação e sentido trágico,
outros, no trinado da guitarra, alegres e
confiantes – acontece então, o fado. Mais vezes
triste do que alegre.

Os portugueses, com o seu fado, oscilam entre
dois extremos. Assim, há séculos, vai pendulando
a guitarra que é Portugal, passando, no seu
pendular, pelo alinhamento com o eixo do
mundo, qual pêndulo de Foucault.

No momento do alinhamento, é farol – clarão
que relampeja no nevoeiro da ilusão.

Fica por cumprir o sonho, por alguns mais alto
sonhado – o luminoso sonho messiânico.

Fica Portugal a ser, cumprindo o seu fado. E a
guitarra, dedilhada em toda a amplitude do seu
pendular, faz oscilar a sonoridade do claro-
escuro da alegria e da tristeza, dos sonhos e das
ilusões, dos projetos e das frustrações.

Fica o povo, de vários povos feitos, que com mais
garra pega na guitarra se é premente o momento
e mais alto o chamamento.

Novas do encoberto?!... Pressente-se o
enigmático frêmito no bojo da guitarra,
ressoando com a vida, quando a vida é
dedilhada com a grandeza da alma portuguesa


J. Simões Fernandes, in Nova Águia, nº 38 – 2º semestre de 2026

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