domingo, 4 de outubro de 2026

[As danações de Carina] A ferida invisível

Carina Bratt

A ‘Ferida invisível’, não vai embora, ela sempre se disfarça alegremente numa dor de barriga infernal que não deixa a gente ficar com os fundilhos das calças cheirando a bumbum de criança que a mãe acabou de trocar a fralda’.
Thompson de Panasco, pensador de rua.

ELA NÃO APARECE nos olhos de quem só olha por fora. Não tem sangue escorrendo, não tem curativo, não tem cor que denuncie onde dói. A gente pode passar por uma pessoa na rua, cumprimentá-la, vê-la sorrir, contar uma piada, e até soltar uma gargalhada, porém, jamais imaginar que ali, por dentro daquela criatura, algo dói calado, persistente, dia após dia. É a ‘ferida invisível’. Aquela que não se mostra, mas de igual modo, não se apaga. Pior, se APEGA.

Dói quando o sol nasce logo cedinho e traz a lembrança de quem partiu. Dói no silêncio da casa, no vazio de um lugar que ficou sem dono. Dói, igualmente, quando a vida parece seguir adiante para todos, menos para nós, que ainda estamos parados no mesmo instante, revivendo o mesmo momento, respirando o mesmo pesar. O pior não é a dor em si: é ter que escondê-la. Coloca-la num cantinho dentro de nós. É sorrir quando o peito pesa como se fosse uma tonelada.

É dizer ‘estou bem’ quando o que mais a gente quer é sentar num canto e chorar, se fazer em lágrimas até a alma descansar. As pessoas que conheço falam: ‘já passou’, ‘tem que seguir em frente’, ‘o tempo cura tudo’. E nessa hora a gente acena, concorda, mas sabe que aqui no fundo da alma, que o danado do tempo não apaga. Ele apenas ensina a carregar a dor, a transporta-la com mais soberba e discrição. A ferida aberta, embora invisível, não cicatriza de vez. 

Ela aprende a doer mais baixinho, a se esconder atrás da geladeira, da máquina de lavar roupas, se acasala debaixo do chuveiro e da mesma forma nas tarefas dos dias corridos, como também das noites em claro.

Há quem diga também (é o que mais escuto), que isso que a gente sente é fraqueza. Minhas queridas leitoras, não é. Na verdade, euzinha acho, aliás, não acho, tenho certeza, é a mais silenciosa e sutil das coragens.

Vou tentar explicar pelo pouco que entendo. No meu pensar, é continuar vivendo quando a alma ainda está machucada. É levantar todos os dias, tomar um banho gelado, depois partir para o dejejum e em seguida vestir a máscara de normalidade e sair para o mundo como se nada tivesse acontecido.  A ferida invisível nos ensina (e a mim deixou isso bastante claro), que não é preciso ver para crer. Seria o crer para ver?  Não importa, o que faz a diferença é que há dores que não têm nome, não têm explicação, não têm cura, pelo menos rápida e mesmo assim, elas estão presentes, vivem, comem juntas na nossa mesa.

Dormem com a gente. Dito de outra maneira. Existem. E quem as carrega, (como eu), merecemos, acima de tudo, respeito. Às vezes, só precisamos de alguém que não pergunte ‘como vai, Carina’, mas que simplesmente se ponha ao nosso lado e fique. Se instale. Que não exija que a gente esteja bem, mas que entenda que ainda tudo está girando dentro de um processo. Um dia, talvez, a dor perca a virilidade, a robustez, a força. Talvez reste apenas uma marca suave, uma lembrança indelével do que foi e não retorna.

Mas enquanto isso, que aprendamos a enxergar além do sorriso nos rostos daqueles que estão ao nosso derredor, que saibamos que nem tudo o que parece estar bem, de fato está nos trilhos. E que a maior gentileza que podemos oferecer a alguém é perceber, sem que seja preciso dizer, que aqui, ali, acolá ou ainda além, bate um coração que de todas as formas conhecidas está tentando, modificar as aparências e possibilidades possíveis e imagináveis, não com outra finalidade senão a de S A R A R.

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, ES, 4-10-2026  

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