Carina Bratt
ELA NÃO APARECE nos olhos de quem só olha por fora. Não tem sangue escorrendo, não tem curativo, não tem cor que denuncie onde dói. A gente pode passar por uma pessoa na rua, cumprimentá-la, vê-la sorrir, contar uma piada, e até soltar uma gargalhada, porém, jamais imaginar que ali, por dentro daquela criatura, algo dói calado, persistente, dia após dia. É a ‘ferida invisível’. Aquela que não se mostra, mas de igual modo, não se apaga. Pior, se APEGA.
Dói quando o sol nasce logo cedinho e
traz a lembrança de quem partiu. Dói no silêncio da casa, no vazio de um lugar
que ficou sem dono. Dói, igualmente, quando a vida parece seguir adiante para
todos, menos para nós, que ainda estamos parados no mesmo instante, revivendo o
mesmo momento, respirando o mesmo pesar. O pior não é a dor em si: é ter que
escondê-la. Coloca-la num cantinho dentro de nós. É sorrir quando o peito pesa
como se fosse uma tonelada.
É dizer ‘estou bem’ quando o que mais a
gente quer é sentar num canto e chorar, se fazer em lágrimas até a alma
descansar. As pessoas que conheço falam: ‘já passou’, ‘tem que seguir em
frente’, ‘o tempo cura tudo’. E nessa hora a gente acena, concorda, mas sabe
que aqui no fundo da alma, que o danado do tempo não apaga. Ele apenas ensina a
carregar a dor, a transporta-la com mais soberba e discrição. A ferida aberta,
embora invisível, não cicatriza de vez.
Ela aprende a doer mais baixinho, a se esconder atrás da geladeira, da máquina de lavar roupas, se acasala debaixo do chuveiro e da mesma forma nas tarefas dos dias corridos, como também das noites em claro.
Há quem diga também (é o que mais
escuto), que isso que a gente sente é fraqueza. Minhas queridas leitoras, não
é. Na verdade, euzinha acho, aliás, não acho, tenho certeza, é a mais
silenciosa e sutil das coragens.
Vou tentar explicar pelo pouco que
entendo. No meu pensar, é continuar vivendo quando a alma ainda está machucada.
É levantar todos os dias, tomar um banho gelado, depois partir para o dejejum e
em seguida vestir a máscara de normalidade e sair para o mundo como se nada
tivesse acontecido. A ferida invisível
nos ensina (e a mim deixou isso bastante claro), que não é preciso ver para
crer. Seria o crer para ver? Não
importa, o que faz a diferença é que há dores que não têm nome, não têm
explicação, não têm cura, pelo menos rápida e mesmo assim, elas estão
presentes, vivem, comem juntas na nossa mesa.
Dormem com a gente. Dito de outra
maneira. Existem. E quem as carrega, (como eu), merecemos, acima de tudo,
respeito. Às vezes, só precisamos de alguém que não pergunte ‘como vai,
Carina’, mas que simplesmente se ponha ao nosso lado e fique. Se instale. Que
não exija que a gente esteja bem, mas que entenda que ainda tudo está girando
dentro de um processo. Um dia, talvez, a dor perca a virilidade, a robustez, a
força. Talvez reste apenas uma marca suave, uma lembrança indelével do que foi
e não retorna.
Mas enquanto isso, que aprendamos a
enxergar além do sorriso nos rostos daqueles que estão ao nosso derredor, que
saibamos que nem tudo o que parece estar bem, de fato está nos trilhos. E que a
maior gentileza que podemos oferecer a alguém é perceber, sem que seja preciso
dizer, que aqui, ali, acolá ou ainda além, bate um coração que de todas as
formas conhecidas está tentando, modificar as aparências e possibilidades
possíveis e imagináveis, não com outra finalidade senão a de S A R A R.
Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, ES, 4-10-2026
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