Duas decisões judiciais em poucas horas, uma ministra escolhida por Lula e uma regra que todos tinham assinado. Os detalhes explicam o silêncio de quinta-feira
Rogerio Pires
Às 21h30 de quinta-feira,
horário em que os candidatos à Presidência deveriam estar frente a frente, a TV
Globo exibiu um filme. Aves de Rapina. Pela primeira vez desde 2002, a
emissora cancelou o último debate presidencial do primeiro turno, a três dias
da eleição.
Não fui eu quem escolheu o
título do filme. Mas confesso que ele não saiu da minha cabeça a noite inteira.
Para entender como chegamos
até aqui, é preciso voltar algumas horas.
A cadeira que ninguém podia
ver
Na quarta-feira, Lula avisou
que não iria ao debate. Direito dele. Só que havia uma regra no regulamento, o
item 7 da ata do debate, assinado previamente por todas as campanhas, inclusive
a dele: quem faltasse teria o púlpito vazio identificado, e os adversários
poderiam dizer o que perguntariam ao ausente.
Isso não é novidade nenhuma.
Em 2006, Lula, então presidente e candidato à reeleição, faltou ao debate da
Globo três dias antes do primeiro turno. A cadeira dele ficou vazia diante do
país. Ninguém correu à Justiça. O eleitor viu e tirou as próprias conclusões.
Vinte anos depois, a coligação
de Lula foi ao TSE para que o eleitor não visse. E conseguiu. A ministra Estela
Aranha concedeu liminar suspendendo o item 7: nada de púlpito identificado,
nada de perguntas dirigidas ao candidato do PT. Na avaliação dela, a exposição
poderia criar uma situação de desequilíbrio.
Desequilíbrio. Guarde essa palavra.
Quem é a ministra
Aqui a história ganha outra
camada.
Em 2004, Estela Aranha doou R$
800 para Nabil Bonduki, candidato a vereador pelo PT em São Paulo. Em 2018, R$
1 mil para Jean Wyllys, do PSOL. Em 2022, R$ 750 para Erika Hilton, também do
PSOL. Os registros estão no sistema de prestação de contas da própria Justiça
Eleitoral, como mostrou o Portal Claudio Dantas.
Ela também atuou como advogada
de Lindbergh Farias, do PT, em processo no Tribunal de Justiça do Rio. Foi
secretária de Direitos Digitais do Ministério da Justiça na gestão de Flávio
Dino. Depois, assessora especial da Presidência da República no governo Lula.
E, em julho de 2025, foi o próprio Lula quem a escolheu, a partir de uma lista
tríplice do STF, para uma das vagas de jurista no TSE.
Nada disso é ilegal. A lei não
impede um advogado de doar a campanhas antes de virar juiz. Mas a confiança num
árbitro não se mede apenas pelo que a lei permite. Mede-se também pelo que o
torcedor enxerga quando o apito soa sempre na mesma direção.
Faço um exercício simples.
Imagine um ministro que doou ao PL, advogou para um deputado bolsonarista,
trabalhou no Planalto de Bolsonaro e foi escolhido por ele para o TSE. Agora
imagine esse ministro atendendo a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro
horas antes do debate. Qual seria a manchete de sexta-feira?
Duas portas fechadas. E uma
terceira
A história não para aí.
Renan Santos, do Missão,
também queria estar no debate. Primeiro, foi ao TSE. O presidente da Corte,
Kassio Nunes Marques, negou na quarta-feira: o partido não tem os cinco
representantes no Congresso exigidos por lei, e a Globo não era obrigada a
convidá-lo.
Renan recorreu ao STF. O caso
caiu com Cármen Lúcia, que também negou. Para ela, o instrumento escolhido não
era o adequado, e a matéria era de competência da Justiça Eleitoral.
Duas portas fechadas. Parecia
o fim.
Só que apareceu um terceiro
caminho. O Solidariedade levou um pedido ao STF, mas não numa ação nova,
distribuída para decidir o debate. O pedido entrou numa reclamação que já
estava nas mãos de Gilmar Mendes e que tratava originalmente da candidatura de Deltan
Dallagnol ao Senado, no Paraná. Um processo que não tinha nada a ver com debate
na televisão.
Gilmar decidiu. Considerou que
Renan, com 3% na Quaest contra 1% de Romeu Zema, cumpria o critério do próprio
regulamento e mandou incluí-lo. Na prática, contrariou o que Nunes Marques e
Cármen Lúcia tinham acabado de decidir.
O dia em que a regra mudou
duas vezes
Faça as contas comigo. Em
questão de horas, duas decisões judiciais alteraram regras que a Globo e as
campanhas tinham combinado antes. Uma atendeu ao pedido da coligação de Lula. A
outra obrigou a inclusão de um candidato que o presidente do TSE tinha acabado
de recusar.
A Globo falou em insegurança
jurídica e em interferência indevida na liberdade de organizar debates.
Associações de imprensa criticaram a intervenção judicial. Flávio Bolsonaro,
que diz estar a caminho da emissora, acusou censura. E o debate morreu.
Quem perdeu? Não foi a Globo.
Não foi nenhum candidato. Foi você, que tinha o direito de ver quem se
apresenta para governar o país responder, ou deixar de responder, às perguntas
mais duras da reta final.
Em 2006, o eleitor viu uma
cadeira vazia. Em 2026, viu um estúdio vazio. E eu não sei dizer qual das duas
imagens fala mais sobre o momento que vivemos.
Então deixo as perguntas.
Diante desse histórico, a decisão da ministra foi realmente imparcial? É normal
que um ministro do STF, por meio de um processo do Paraná, derrube na prática o
que o presidente do TSE e uma colega do próprio Supremo tinham acabado de
decidir?
Os fatos estão documentados. A
conclusão é sua. Confira as fontes, compartilhe e faça essas perguntas chegarem
a mais gente antes de domingo.
Título, Imagem e Texto: Rogerio
Pires, Timeline,
2-10-2026, 10h23
TV Globo cancela debate
1-10-2026: Oeste sem filtro – Embaixador confessa que ajudou Lulinha na mudança para a Espanha + Gilmar esculhamba o debate
Interferência estrangeira: Eleição anulada na Romênia em 2024 gera alerta ao Brasil de 2026
30-9-2026: Oeste sem filtro – Embaixador brasileiro orienta Lulinha na mudança para Madrid + Vorcaro organiza almoço “mui simples” para m.
Nova Padroeira
“Lula fala muito. E, cada vez mais, quando fala, é uma metralhadora de bobagens”
🚨Urgente: quem pediu ao Instagram para censurar minha reportagem no Brasil?
29-9-2026: Oeste sem filtro – Fux derruba decisão de Dino e proíbe notícias falsas sobre a Padroeira + Nunes Marques critica interferência do STF no TSE

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