sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O vazio que grita nas ruas: o que acontece quando uma geração nasce sem Deus


Maria Helena Costa

Há algo de revelador nos protestos da Geração Z que percorrem cidades da Europa e de outros continentes. Não se trata apenas de custo de vida, corrupção ou falta de perspectivas — embora esses fatores sejam reais. O que se vê é uma geração que nasceu, cresceu e vive numa sociedade que, deliberadamente, voltou as costas a Deus.

O resultado não é o paraíso secular prometido, mas inquietação, fragmentação e a substituição de um Deus por muitos outros.

O homem é, por natureza, um ser religioso. Calvino falava do sensus divinitatis — o sentido de divindade inscrito em cada pessoa. O apóstolo Paulo descreve-o com clareza em Romanos 1:18-25: o que se pode conhecer de Deus é manifesto, pois Deus lho revelou; contudo, os homens «suprimem a verdade pela injustiça», «não o glorificaram como Deus» e «mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível». Trocaram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram a criatura em lugar do Criador. O vazio deixado por Deus não permanece vazio. É imediatamente preenchido.

Uma geração anterior foi convencida — muitas vezes em nome da liberdade, da autonomia e do progresso — de que não devia transmitir aos filhos a fé dos avós. A religião passou a ser vista como opressão, superstição ou, no melhor dos casos, assunto privado e opcional. Os pais que já se afastavam de Deus (ou da «religião», como preferiam dizer) educaram os filhos sem o ensino sistemático das Escrituras, sem a catequese, sem a disciplina da igreja e sem a visão de um Deus soberano, santo e gracioso.

O resultado está à vista: uma geração que exige justiça absoluta enquanto rejeita qualquer autoridade transcendente que a fundamente; que clama por sentido enquanto recusa o único que o pode dar; que protesta contra o mal enquanto relativiza a moralidade que o define.

Quando Deus é expulso do centro, outros deuses ocupam o trono. Pode ser o Estado, apresentado como salvador e redentor de todas as injustiças. Pode ser o eu, com os seus desejos elevados a norma final. Podem ser causas — por mais legítimas que algumas sejam em aspectos pontuais — transformadas em identidades totais e em sistemas de purificação moral. Podem ser ideologias que oferecem uma escatologia (um futuro redentor), liturgias (manifestações, cancelamentos, sinais de pureza) e um cânone de textos sagrados.

O coração inquieto de que falava Agostinho não descansa. Continua a buscar, mas agora fá-lo em ídolos que não perdoam, não redimem e não sustentam.

A perspectiva cristã não se contenta com diagnósticos culturais genéricos. Reconhece que o problema é, em última análise, teológico e espiritual. O homem não é neutro. Nasce em Adão, sob o domínio do pecado, com a mente obscurecida e a vontade cativa (Efésios 2:1-3; Romanos 3:10-12). Sem a regeneração operada pelo Espírito Santo e sem o ensino fiel da Palavra, a tendência natural não é a descoberta espontânea do Deus verdadeiro, mas a fabricação de deuses à imagem dos desejos humanos. A secularização não produziu pessoas menos religiosas; produziu pessoas religiosas de forma desordenada e, frequentemente, mais intolerantes, porque os ídolos contemporâneos não conhecem a graça.

Isto não significa que todo o protesto seja ilegítimo ou que as dificuldades materiais sejam irrelevantes. Significa que nenhuma reforma política, por mais necessária que seja, resolve o problema do coração. A geração que herdou o abandono de Deus está a viver as consequências descritas em Romanos 1: a troca da verdade pela mentira produz confusão moral, fragmentação social e uma busca incessante de sentido que as instituições seculares não conseguem satisfazer.

A resposta, do ponto de vista bíblico, não é a nostalgia de um passado idealizado nem a mera condenação moral. É o anúncio do Evangelho: que Deus, em Cristo, reconcilia consigo os que se rebelaram; que a cruz revela tanto a gravidade do pecado como a profundidade da graça; e que a igreja tem o mandato de ensinar «todas as coisas» que Cristo ordenou (Mateus 28:20), incluindo às gerações seguintes. Os pais e as igrejas que negligenciaram este dever contribuíram para o vazio actual. Os que o reassumirem — com fidelidade à Escritura, dependência do Espírito e paciência pastoral — oferecem não apenas a crítica, mas o único descanso verdadeiro para o coração inquieto.

O que as ruas mostram é, em grande medida, o grito de uma geração que nunca foi ensinada a conhecer o Deus para quem foi feita. O vazio não se preenche com mais autonomia ou com novos ídolos. Preenche-se com o conhecimento do Deus verdadeiro — o único que não decepciona e o único que pode dar sentido, justiça e esperança duradouras.

Título, Imagem e Texto: Maria Helena Costa, ContraCultura, 30-10-2026 

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