Maria Helena Costa
Há algo de revelador nos
protestos da Geração Z que percorrem cidades da Europa e de outros continentes.
Não se trata apenas de custo de vida, corrupção ou falta de perspectivas —
embora esses fatores sejam reais. O que se vê é uma geração que nasceu, cresceu
e vive numa sociedade que, deliberadamente, voltou as costas a Deus.
O resultado não é o paraíso
secular prometido, mas inquietação, fragmentação e a substituição de um Deus
por muitos outros.
O homem é, por natureza, um
ser religioso. Calvino falava do sensus divinitatis — o sentido de
divindade inscrito em cada pessoa. O apóstolo Paulo descreve-o com clareza em
Romanos 1:18-25: o que se pode conhecer de Deus é manifesto, pois Deus lho
revelou; contudo, os homens «suprimem a verdade pela injustiça», «não o
glorificaram como Deus» e «mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança
da imagem de homem corruptível». Trocaram a verdade de Deus pela mentira e
adoraram e serviram a criatura em lugar do Criador. O vazio deixado por Deus
não permanece vazio. É imediatamente preenchido.
Uma geração anterior foi
convencida — muitas vezes em nome da liberdade, da autonomia e do progresso —
de que não devia transmitir aos filhos a fé dos avós. A religião passou a ser
vista como opressão, superstição ou, no melhor dos casos, assunto privado e
opcional. Os pais que já se afastavam de Deus (ou da «religião», como preferiam
dizer) educaram os filhos sem o ensino sistemático das Escrituras, sem a
catequese, sem a disciplina da igreja e sem a visão de um Deus soberano, santo
e gracioso.
O resultado está à vista: uma geração que exige justiça absoluta enquanto rejeita qualquer autoridade transcendente que a fundamente; que clama por sentido enquanto recusa o único que o pode dar; que protesta contra o mal enquanto relativiza a moralidade que o define.
Quando Deus é expulso do
centro, outros deuses ocupam o trono. Pode ser o Estado, apresentado como
salvador e redentor de todas as injustiças. Pode ser o eu, com os seus desejos
elevados a norma final. Podem ser causas — por mais legítimas que algumas sejam
em aspectos pontuais — transformadas em identidades totais e em sistemas de
purificação moral. Podem ser ideologias que oferecem uma escatologia (um futuro
redentor), liturgias (manifestações, cancelamentos, sinais de pureza) e um
cânone de textos sagrados.
O coração inquieto de que
falava Agostinho não descansa. Continua a buscar, mas agora fá-lo em ídolos que
não perdoam, não redimem e não sustentam.
A perspectiva cristã não se
contenta com diagnósticos culturais genéricos. Reconhece que o problema é, em
última análise, teológico e espiritual. O homem não é neutro. Nasce em Adão,
sob o domínio do pecado, com a mente obscurecida e a vontade cativa (Efésios
2:1-3; Romanos 3:10-12). Sem a regeneração operada pelo Espírito Santo e sem o
ensino fiel da Palavra, a tendência natural não é a descoberta espontânea do
Deus verdadeiro, mas a fabricação de deuses à imagem dos desejos humanos. A
secularização não produziu pessoas menos religiosas; produziu pessoas
religiosas de forma desordenada e, frequentemente, mais intolerantes, porque os
ídolos contemporâneos não conhecem a graça.
Isto não significa que todo o
protesto seja ilegítimo ou que as dificuldades materiais sejam irrelevantes.
Significa que nenhuma reforma política, por mais necessária que seja, resolve o
problema do coração. A geração que herdou o abandono de Deus está a viver as
consequências descritas em Romanos 1: a troca da verdade pela mentira produz
confusão moral, fragmentação social e uma busca incessante de sentido que as
instituições seculares não conseguem satisfazer.
A resposta, do ponto de vista
bíblico, não é a nostalgia de um passado idealizado nem a mera condenação
moral. É o anúncio do Evangelho: que Deus, em Cristo, reconcilia consigo os que
se rebelaram; que a cruz revela tanto a gravidade do pecado como a profundidade
da graça; e que a igreja tem o mandato de ensinar «todas as coisas» que Cristo
ordenou (Mateus 28:20), incluindo às gerações seguintes. Os pais e as igrejas
que negligenciaram este dever contribuíram para o vazio actual. Os que o
reassumirem — com fidelidade à Escritura, dependência do Espírito e paciência
pastoral — oferecem não apenas a crítica, mas o único descanso verdadeiro para
o coração inquieto.
O que as ruas mostram é, em
grande medida, o grito de uma geração que nunca foi ensinada a conhecer o Deus
para quem foi feita. O vazio não se preenche com mais autonomia ou com novos
ídolos. Preenche-se com o conhecimento do Deus verdadeiro — o único que não
decepciona e o único que pode dar sentido, justiça e esperança duradouras.
Título, Imagem e Texto: Maria
Helena Costa, ContraCultura,
30-10-2026

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