terça-feira, 20 de outubro de 2026

[Aparecido rasga o verbo] Simplesmente Samária

Aparecido Raimundo de Souza

CONHECI A SAMÁRIA que me foi apresentada por indicação de um amigo, no exato instante em que procurava alguém para me auxiliar no dia a dia, uma vez que a minha secretaria Carina, precisava se afastar para cuidar da mãe adoentada. Seria apenas uma conversa inicial, pensei com meus botões. Mas bastou ouvi-la dizer "bom dia" para que algo em mim se transformasse. Sua voz se fazia maviosa, pausada, tipo assim, como quem cuidava das próprias palavras antes de soltá-las ao sabor do vento. Não havia pressa nelas, nem durezas. Cada frase vinha envolta numa ternura que não fingia simplesmente existir. E quando horas depois vi o seu rosto, (pelas câmeras projetadas através de nossos celulares), senti um encantamento que não esperava.

Vislumbrei, de cara, uma clareza no olhar. De roldão, uma serenidade que parecia acalmar o ambiente à sua volta, como se ela inteira trouxesse consigo um pedacinho de paz que eu nem sabia que me faltava. Aos bocados poucos, fui-me envolvendo sem querer, sem planejar. A cada conversa, um desejo novo nascia, insistia quieto e tímido, qual seja, o de estar perto, o de ouvir mais uma vez aquela sua voz adocicada, o de saber também como foi o seu dia. Mas então, quando tentei seguir em frente, dizer o que sentia, veio o silêncio pesado, de profundidade densa, e com ele, o peso dos setenta e três anos que carrego. Ela é jovem, bonita, vistosa, tem na presença que inebria, a vida toda ainda se abrindo diante de seu futuro.

E eu? Meu Pai! Eu trago uma longa estrada percorrida, e com ela, rugas que contam histórias, rusgas que trazem à tona os cabelos que o tempo destituiu da cor original. Então vieram as indagações me açoitarem: Como me atrever a dizer o que sinto? Seria justo? Que direito tenho, ou teria de sonhar acordado, de “quimerar” com alguém que está no início e eu já tão perto do “quase-fim?”. A diferença de idade entre ela e eu, ergue um muro que parece intransponível. Com isso, por vezes, o coração bate mais forte e a boca entreaberta quase solta a verdade. Mas então, nessa hora, me lembro dos meus anos. Sopeso a juventude que contemplo nela, e embasbacado engulo as palavras. Prefiro guardar esse sentimento como um tesouro só meu, uma quimera adocicada que me permita ao menos admirá-la de longe, sem, todavia, incomodar, sem exigir nada.

Talvez seja melhor assim: tê-la conhecido e apenas ouvido a sua voz e sentido aquele brilho suave no olhar que pareceu debulhar sonhos não vividos e me abster. Já é muito. O suficiente para aquecer os meus dias, mesmo que ela nunca saiba ou acredite o quanto me inebriou. Se eu tivesse a coragem que me faltou na hora, juro por tudo quanto é sagrado, escreveria uma crônica ou declamaria tudo isso que agora joguei no papel e agiria num gesto retraído, assim bem baixinho, só para ela ler, ou quem sabe, ouvir: e ver o que diria? Nada muito rebuscado, mas começaria dizendo mais ou menos assim. “Samária, desde a primeira vez em que ouvi a sua voz, com aquela calma desdourada que para mim pareceu acarinhar cada palavra, algo em mim se aquietou, ou melhor, se agitou e se acendeu dentro de mim ao mesmo tempo.

Quando agora avivo meus encantamentos olhando para você, juro por tudo quanto é sagrado, me perco como um menino bobo nesses seus olhos que parecem mostrar toda a sua alma transparente, bondosa, como se nada dentro dela estivesse escondido. Fico admirado, ou pior, encantado, embasbacado, me questionando como alguém pode carregar tanta ternura no olhar e ainda assim ser tão atraente e ao mesmo tempo “carismáticamente” forte? Se eu pudesse, pediria apenas uma chance. Não prometeria mundos, mas juraria respeitar cada pedacinho do que ela é. Diria que desde que a vi, (ainda que pelo celular), venho sonhando, às vezes, me sentindo ousadamente lhe abraçando, e lhe sinto perto, lhe percebo quieta e submissada, acomodada no meu peito, como se finalmente estivesse onde deveria estar. E se me permitisse, num rápido segundo lhe beijar, ah, iria além: lhe despiria de suas vestes, me acomodaria em um roçar de lábios a sua boca suave e, a depois, moveria a língua em reboliços igualmente devagar, como quem saboreia algo raro e delicado, e ali, bem perto de seu calor, sussurraria com aquele dedo a trançar suavemente minhas mãos em seus cabelos, eu te possuiria e ao mesmo tempo gritaria, “eu te amo”.

Sei que os anos me pesam mais do que a você. Sei que parece despropositado, talvez até indevido. Mas o coração não pede licença para bater mais forte, nem consulta calendários quando encontra pela frente o que lhe faz bem. Então, Samária, aqui fica, mesmo que em silêncio, uma simplória declaração. Ela se agiganta no meu desejo veemente, ao tempo em que o inexplicável se alvoroça no meu respeito acalentado de um amor imensurável e incondicional que, mesmo sem dizer, já é inteiro, só seu. Em face disso, e diante da sua passividade, olha o que eu faria. Afoito, lhe arrancaria as vestes. Desceria a calcinha que lhe cobre a gruta do amor e lhe possuiria como um “doidivano tresloucado” diante de uma mulher poderosa que me fez nascer de novo e avivou o amor adormecido que havia dentro de mim. E então, devagar, bem devagarinho, aos trancos e barrancos, você, tenho certeza, você se entregaria e eu mergulharia dentro de você, procuraria feito um desmiolado e aos gritos loucos até explodir numa realidade indescritível tudo o que eu pensei já estivesse a tempos, se extinguido.

Título e Texto: Aparecido Raimundo de Souza, de Vila Velha, ES, 20-10-2026  

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