Aparecido Raimundo de Souza
Vislumbrei, de cara, uma clareza no
olhar. De roldão, uma serenidade que parecia acalmar o ambiente à sua volta,
como se ela inteira trouxesse consigo um pedacinho de paz que eu nem sabia que
me faltava. Aos bocados poucos, fui-me envolvendo sem querer, sem planejar. A
cada conversa, um desejo novo nascia, insistia quieto e tímido, qual seja, o de
estar perto, o de ouvir mais uma vez aquela sua voz adocicada, o de saber
também como foi o seu dia. Mas então, quando tentei seguir em frente, dizer o
que sentia, veio o silêncio pesado, de profundidade densa, e com ele, o peso
dos setenta e três anos que carrego. Ela é jovem, bonita, vistosa, tem na
presença que inebria, a vida toda ainda se abrindo diante de seu futuro.
E eu? Meu Pai! Eu trago uma longa estrada percorrida, e com ela, rugas que contam histórias, rusgas que trazem à tona os cabelos que o tempo destituiu da cor original. Então vieram as indagações me açoitarem: Como me atrever a dizer o que sinto? Seria justo? Que direito tenho, ou teria de sonhar acordado, de “quimerar” com alguém que está no início e eu já tão perto do “quase-fim?”. A diferença de idade entre ela e eu, ergue um muro que parece intransponível. Com isso, por vezes, o coração bate mais forte e a boca entreaberta quase solta a verdade. Mas então, nessa hora, me lembro dos meus anos. Sopeso a juventude que contemplo nela, e embasbacado engulo as palavras. Prefiro guardar esse sentimento como um tesouro só meu, uma quimera adocicada que me permita ao menos admirá-la de longe, sem, todavia, incomodar, sem exigir nada.
Talvez seja melhor assim: tê-la
conhecido e apenas ouvido a sua voz e sentido aquele brilho suave no olhar que
pareceu debulhar sonhos não vividos e me abster. Já é muito. O suficiente para
aquecer os meus dias, mesmo que ela nunca saiba ou acredite o quanto me
inebriou. Se eu tivesse a coragem que me faltou na hora, juro por tudo quanto é
sagrado, escreveria uma crônica ou declamaria tudo isso que agora joguei no
papel e agiria num gesto retraído, assim bem baixinho, só para ela ler, ou quem
sabe, ouvir: e ver o que diria? Nada muito rebuscado, mas começaria dizendo
mais ou menos assim. “Samária, desde a primeira vez em que ouvi a sua voz, com
aquela calma desdourada que para mim pareceu acarinhar cada palavra, algo em
mim se aquietou, ou melhor, se agitou e se acendeu dentro de mim ao mesmo
tempo.
Quando agora avivo meus
encantamentos olhando para você, juro por tudo quanto é sagrado, me perco como
um menino bobo nesses seus olhos que parecem mostrar toda a sua alma
transparente, bondosa, como se nada dentro dela estivesse escondido. Fico
admirado, ou pior, encantado, embasbacado, me questionando como alguém pode
carregar tanta ternura no olhar e ainda assim ser tão atraente e ao mesmo tempo
“carismáticamente” forte? Se eu pudesse, pediria apenas uma chance. Não
prometeria mundos, mas juraria respeitar cada pedacinho do que ela é. Diria que
desde que a vi, (ainda que pelo celular), venho sonhando, às vezes, me sentindo
ousadamente lhe abraçando, e lhe sinto perto, lhe percebo quieta e submissada,
acomodada no meu peito, como se finalmente estivesse onde deveria estar. E se
me permitisse, num rápido segundo lhe beijar, ah, iria além: lhe despiria de
suas vestes, me acomodaria em um roçar de lábios a sua boca suave e, a depois,
moveria a língua em reboliços igualmente devagar, como quem saboreia algo raro
e delicado, e ali, bem perto de seu calor, sussurraria com aquele dedo a
trançar suavemente minhas mãos em seus cabelos, eu te possuiria e ao mesmo
tempo gritaria, “eu te amo”.
Sei que os anos me pesam mais do que
a você. Sei que parece despropositado, talvez até indevido. Mas o coração não
pede licença para bater mais forte, nem consulta calendários quando encontra
pela frente o que lhe faz bem. Então, Samária, aqui fica, mesmo que em
silêncio, uma simplória declaração. Ela se agiganta no meu desejo veemente, ao
tempo em que o inexplicável se alvoroça no meu respeito acalentado de um amor
imensurável e incondicional que, mesmo sem dizer, já é inteiro, só seu. Em face
disso, e diante da sua passividade, olha o que eu faria. Afoito, lhe arrancaria
as vestes. Desceria a calcinha que lhe cobre a gruta do amor e lhe possuiria
como um “doidivano tresloucado” diante de uma mulher poderosa que me fez nascer
de novo e avivou o amor adormecido que havia dentro de mim. E então, devagar,
bem devagarinho, aos trancos e barrancos, você, tenho certeza, você se
entregaria e eu mergulharia dentro de você, procuraria feito um desmiolado e
aos gritos loucos até explodir numa realidade indescritível tudo o que eu
pensei já estivesse a tempos, se extinguido.
Título e Texto: Aparecido Raimundo
de Souza, de Vila Velha, ES, 20-10-2026
Falta muito pouco para o verdadeiro “grito de liberdade” ecoar. Só depende de nós
Segue, firme e forte, essa eterna e imorredoura “Casa da mãe Joana”
Vexame
Talvez, lá no distante da curva...
[Aparecido rasga o verbo] Aconteceu na lua de mel
Batendo frontalmente nas bases dos “ladrões do povo” haveriam diferenças gritantes desses “enganadores” para os demais “maquiavélicos” e “safardanas” que enlameiam os eternos carentes de proteção?
Teoria da gaveta

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