Carina Bratt
HOJE PELA manhã, assim que acordei, menos de vinte minutos atrás, pulei da cama meio que correndo. Antes mesmo de ir ao banheiro fazer xixi, lavar o rosto e escovar os dentes, e antes ainda de tirar a calcinha e a blusinha com as quais passei a noite e vestir o habitual de sempre para enfrentar mais um dia, resolvi (não sei por qual cargas d’água) ou melhor dito, me ative a olhar no espelho do meu roupeiro. Foi exatamente nesse momento, que tudo aconteceu. Calma, gente. Tudo o quê? Eu não me vi. Não é que o reflexo não estivesse lá. Estava, com os mesmos olhos, os mesmos traços, os mesmos cabelos compridos que já conheço de tanto tempo cobrindo a minha cabeça. Mas dentro... ou melhor, por dentro de mim havia um silêncio tão grande que doía.
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| Fernand Toussaint |
Um ‘silêncio-espaço’ amplo, limpo, brilhante, mas vazio, oco, tipo assim, sem vida. Como uma casa de onde se levaram todos os móveis, onde já não há risos, nem lembranças, nem calor, apenas um amontoado de ecos retumbantes, que respondem quando falo. De dentro do meu ‘eu’ interior, sinto que me esvaziei aos poucos, me desinchei, e o fiz sem perceber. Dei um pedaço meu aqui, outro ali, outro mais acolá. Dei meu tempo, minha paciência, meu carinho, minha atenção. Dei tanto, mas tanto de mim para preencher os vazios dos outros, os desabitados, os desentulhados que, quando me virei, o meu próprio ‘por dentro’ estava extenuado. E o pior: não sei ao certo em qual momento isso aconteceu. Foi nas noites em que dormi chorando pela perda de meu Papito Francisco? Acho que sim...
Nos dias em que sorri por fora enquanto o meu oculto profundo desmoronava? Não tenho a certeza da resposta certa. Em face disso, fico assim, no ‘e agora, no quem sabe!’. Entretanto, nas vezes em que me coloquei por derradeira, me quedo apavorada, pensando meditando profundamente: em meio a tudo isso, euzinha estava sendo uma boa pessoa? Agora estou aqui, olhando para dentro de mim, vasculhando, prescrutando, cada canto, cada reentrância, cada desvão e encontro apenas um silêncio imenso. Não é raiva, não é tristeza é menos que isso. É como se eu por inteira, tivesse saído de férias de mim mesma, ido para Campos do Jordão ou Floripa, ou dado uma rasante como um drone descontrolado para a minha querida e amada Curitiba, a cidadezinha inesquecível onde vim ao mundo em primeiro de maio de 1989. Como se eu fosse apenas uma sombra escura, (não negra), uma deformidade imperfeita, obumbrada, que anda, fala, cumpre tarefas, mas já não sente.
Não vislumbra o real, não distingue o irreal do ilógico, ou o real do lógico, apenas sonha. Embora sonhe, viaje em quimeras, não espero nada de ninguém, nem de mim mesma. Dizem os entendidos que o ‘vazio também é um começo. Que quando tiramos tudo que nos ocupava, sobra um espaço novo, um ermo intocado, para algo ainda não nascido vir à tona, aflorar, nascer. Mas, cá entre nós, ou reformulando, ‘ca entre mim e a vida que levo’, ou visto pela ótica daquela forma estranha. É assustador estar assim leve demais, sem peso, sem raízes, sem meias, sem sapatos, pelada com as mãos onde não deve, sem amarras, sem saber quem sou quando não estou cuidando de alguém, ou de mim mesma.
Quem sou eu, afinal, quem é Carina Bratt, solteira, escrevinhadora, secretária, quando não está sendo útil, quando não está fazendo algo por alguém? Talvez seja preciso aprender a me preencher de novo. Aprender a me aprofundar inflando. Não com os outros, mas comigo no silêncio do meu desespero incomodante. Com minhas pequenas alegrias esquecidas, com os sonhos que guardei numa gaveta dentro do meu armário e nunca mais abri, em face do respeito (ou com o respeito) que mereço. Talvez o meu caminho, a minha jornada, o meu amanhã no agora das coisas, seja este: aprender a ser a minha própria morada, a residir faceira dentro do que ainda não descobri, enfurnada no meu próprio ‘escondidinho’, até que o silêncio vazio se transforme em um grito berrante de paz. Um grito sufocado, repletado e imensamente cheio de boas coisas que ainda não aportaram no meu cais. Entretanto, hoje, ‘ainda estou aqui’ como a Sandy na linda ‘Me espera’. Estou vazia de mim mesma, tentando entender onde me perdi, ou em que ponto da estrada me desvencilhei para saber exatamente por onde começar a me reencontrar. No fundo, bem lá no meu mais profundo, estou em busca do que ainda me resta. A mamãe, o Aparecido, nossa vida corrida, meus textos, continuar viajando, (recém chegamos de Vila Pavão, em Nova Venécia) e tentar chegar ao fim dessa viagem de mãos dadas, sempre de mãos dadas com as coisas boas e maravilhosas que estão ao meu lado. Mudando o tom: AO NOSSO LADO. Sai pra lá, espelho. Sai pra lá, seu roupeiro. Agora correndo para o banheiro fazer o meu xixi.
Título e Texto: Carina Bratt. De Vila Velha, ES, 11-10-2026
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