segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O primeiro debate presidencial


A sete dias do segundo turno, o Brasil assistiu ao primeiro debate presidencial e a um fenômeno extraordinário: dois vencedores e nenhum derrotado.

Não houve empate. Houve duas vitórias.

Pelo menos, segundo as respectivas assessorias dos candidatos.

Antes mesmo de as luzes do estúdio se apagarem, os vencedores já estavam anunciados. Cada campanha tinha sua comemoração preparada, seus melhores momentos selecionados e uma versão da história pronta para circular.

É uma das maravilhas da política brasileira. No futebol, o placar costuma contrariar metade da torcida. Nos debates presidenciais, porém, a realidade parece ter perdido o direito de apitar o jogo.

Basta ouvir os assessores.

De um lado, comemora-se a firmeza do candidato. Do outro, exalta-se sua serenidade. Se atacou, demonstrou coragem. Se não respondeu, revelou equilíbrio. Se interrompeu, foi incisivo. Se permaneceu calado, mostrou superioridade.

Na política, até o silêncio pode ser transformado em discurso memorável.

Os marqueteiros entram em campo antes mesmo de os candidatos deixarem o estúdio.

Selecionam frases, recortam imagens, distribuem vídeos e anunciam uma vitória que já estava decidida antes da primeira pergunta.

As redes sociais fazem o resto.

Cada militância recebe os melhores momentos do seu candidato e os piores do adversário. Não é preciso assistir ao debate inteiro. Basta consumir a versão que confirma suas convicções.

A verdade, coitada, fica na ilha de edição.

E aqui surge uma pergunta que deveria incomodar mais do que qualquer provocação entre candidatos.

Vale mentir?

Vale inventar números, distorcer fatos, prometer o impossível e atribuir ao adversário palavras que ele nunca pronunciou?

A mentira tem uma vantagem sobre a verdade: não precisa respeitar os fatos.

Corre depressa, emociona, indigna e conquista seguidores. O desmentido, quando chega, quase sempre chega tarde.

Quem precisa enganar para conquistar a confiança do eleitor já oferece um bom motivo para não merecê-la.

Enquanto isso, o cidadão espera respostas.

Quer saber como serão resolvidos os problemas do país, de onde virá o dinheiro das promessas e por que tantas soluções milagrosas aparecem justamente às vésperas das eleições.

Mas propostas exigem explicações. Acusações rendem manchetes.

E manchetes, aparentemente, rendem votos.

Há também os especialistas em linguagem corporal, capazes de interpretar um sorriso como demonstração de confiança, uma sobrancelha levantada como sinal de nervosismo e um gole d’água como indício de desespero.

Freud teria dificuldade para acompanhar tanta análise.

O debate termina. Começa outro espetáculo.

Cada campanha anuncia sua vitória. Cada torcida comemora. Cada candidato agradece o apoio recebido.

Ninguém perdeu.

Será que alguém ganhou alguma coisa?

Tenho minhas dúvidas.

Não acredito que o debate tenha conseguido mudar significativamente a intenção de voto dos eleitores.

Quem chegou convencido de um lado provavelmente saiu ainda mais convencido. O mesmo aconteceu do outro.

Os candidatos falaram, os militantes aplaudiram e as torcidas comemoraram.

Cada qual levou para casa as certezas que já havia trazido.

Existe  uma terceira plateia, talvez mais importante do que as duas primeiras.

A daqueles que não compareceram às urnas no primeiro turno.

Será que o debate ofereceu a essas pessoas alguma razão para votar no próximo domingo?

Despertou esperança? Transmitiu confiança? Apresentou propostas capazes de vencer a indiferença?

Ou apenas reforçou a impressão de que a política se transformou numa disputa em que todos querem vencer, mas poucos se preocupam em convencer?

A sete dias da eleição,  essa é a pergunta mais importante.

Porque conquistar aplausos de quem já está do seu lado é fácil. Difícil é conquistar a confiança de quem perdeu o interesse em participar.

E há outra pergunta que deveria acompanhar cada eleitor até a urna.

Se alguém precisa mentir para conquistar o poder, por que diria a verdade depois de conquistá-lo?

No próximo domingo, apenas um candidato vencerá.

A verdadeira vitória não deveria pertencer a um partido, a uma campanha ou a uma torcida.

Deveria pertencer ao Brasil.

Os dois candidatos já se consideram vencedores.

Resta saber se conseguiram convencer alguém além daqueles que já estavam convencidos.

E, sobretudo, se conseguiram despertar nos ausentes a vontade de participar.

Porque, numa democracia, tão importante quanto saber em quem o eleitor vota é compreender por que tantos deixam de votar.

Afinal, de que adianta vencer o debate se não se consegue convencer quem já desistiu de ouvir?

Cada candidato acha que venceu, porém

quem precisa vencer é o povo.

E isso, somente as urnas vão dizer. Com a transparência e a integridade que a democracia exige.

Título e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 19-10-2026, 4h04

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