Não houve empate. Houve duas vitórias.
Pelo menos, segundo as respectivas
assessorias dos candidatos.
Antes mesmo de as luzes do estúdio se
apagarem, os vencedores já estavam anunciados. Cada campanha tinha sua
comemoração preparada, seus melhores momentos selecionados e uma versão da
história pronta para circular.
É uma das maravilhas da política
brasileira. No futebol, o placar costuma contrariar metade da torcida. Nos
debates presidenciais, porém, a realidade parece ter perdido o direito de
apitar o jogo.
Basta ouvir os assessores.
De um lado, comemora-se a firmeza do
candidato. Do outro, exalta-se sua serenidade. Se atacou, demonstrou coragem.
Se não respondeu, revelou equilíbrio. Se interrompeu, foi incisivo. Se
permaneceu calado, mostrou superioridade.
Na política, até o silêncio pode ser
transformado em discurso memorável.
Os marqueteiros entram em campo antes
mesmo de os candidatos deixarem o estúdio.
Selecionam frases, recortam imagens,
distribuem vídeos e anunciam uma vitória que já estava decidida antes da
primeira pergunta.
As redes sociais fazem o resto.
Cada militância recebe os melhores
momentos do seu candidato e os piores do adversário. Não é preciso assistir ao
debate inteiro. Basta consumir a versão que confirma suas convicções.
A verdade, coitada, fica na ilha de
edição.
E aqui surge uma pergunta que deveria
incomodar mais do que qualquer provocação entre candidatos.
Vale mentir?
Vale inventar números, distorcer
fatos, prometer o impossível e atribuir ao adversário palavras que ele nunca
pronunciou?
A mentira tem uma vantagem sobre a
verdade: não precisa respeitar os fatos.
Corre depressa, emociona, indigna e
conquista seguidores. O desmentido, quando chega, quase sempre chega tarde.
Quem precisa enganar para conquistar a
confiança do eleitor já oferece um bom motivo para não merecê-la.
Enquanto isso, o cidadão espera
respostas.
Quer saber como serão resolvidos os
problemas do país, de onde virá o dinheiro das promessas e por que tantas
soluções milagrosas aparecem justamente às vésperas das eleições.
Mas propostas exigem explicações.
Acusações rendem manchetes.
E manchetes, aparentemente, rendem
votos.
Há também os especialistas em
linguagem corporal, capazes de interpretar um sorriso como demonstração de
confiança, uma sobrancelha levantada como sinal de nervosismo e um gole d’água
como indício de desespero.
Freud teria dificuldade para
acompanhar tanta análise.
O debate termina. Começa outro
espetáculo.
Cada campanha anuncia sua vitória.
Cada torcida comemora. Cada candidato agradece o apoio recebido.
Ninguém perdeu.
Será que alguém ganhou alguma coisa?
Tenho minhas dúvidas.
Não acredito que o debate tenha
conseguido mudar significativamente a intenção de voto dos eleitores.
Quem chegou convencido de um lado
provavelmente saiu ainda mais convencido. O mesmo aconteceu do outro.
Os candidatos falaram, os militantes
aplaudiram e as torcidas comemoraram.
Cada qual levou para casa as certezas
que já havia trazido.
Existe
uma terceira plateia, talvez mais importante do que as duas primeiras.
A daqueles que não compareceram às
urnas no primeiro turno.
Será que o debate ofereceu a essas
pessoas alguma razão para votar no próximo domingo?
Despertou esperança? Transmitiu
confiança? Apresentou propostas capazes de vencer a indiferença?
Ou apenas reforçou a impressão de que
a política se transformou numa disputa em que todos querem vencer, mas poucos
se preocupam em convencer?
A sete dias da eleição, essa é a pergunta mais importante.
Porque conquistar aplausos de quem já
está do seu lado é fácil. Difícil é conquistar a confiança de quem perdeu o
interesse em participar.
E há outra pergunta que deveria
acompanhar cada eleitor até a urna.
Se alguém precisa mentir para
conquistar o poder, por que diria a verdade depois de conquistá-lo?
No próximo domingo, apenas um
candidato vencerá.
A verdadeira vitória não deveria
pertencer a um partido, a uma campanha ou a uma torcida.
Deveria pertencer ao Brasil.
Os dois candidatos já se consideram
vencedores.
Resta saber se conseguiram convencer
alguém além daqueles que já estavam convencidos.
E, sobretudo, se conseguiram despertar
nos ausentes a vontade de participar.
Porque, numa democracia, tão
importante quanto saber em quem o eleitor vota é compreender por que tantos
deixam de votar.
Afinal, de que adianta vencer o debate
se não se consegue convencer quem já desistiu de ouvir?
Cada candidato acha que venceu, porém
quem precisa vencer é o povo.
E isso, somente as urnas vão dizer.
Com a transparência e a integridade que a democracia exige.
Título e Texto: Marcelo Duarte Lins,
Facebook,
19-10-2026, 4h04
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