quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O Conselheiro

Conversa fictícia inspirada no reencontro entre pai e filho 

O poder tem uma característica curiosa: quanto mais alto se chega, mais gente aparece oferecendo conselhos. Quase sempre acompanhados de pedidos.

Depois de meses sem se encontrarem pessoalmente, Jair e Flávio Bolsonaro voltaram a conversar.

Um já conhecia os corredores do Planalto. O outro imagina percorrê-los.

O que realmente disseram pertence aos dois. O que poderiam ter dito pertence à imaginação deste cronista.

Jair estava sentado no sofá, diante da televisão desligada.

— Pai, preciso de uns conselhos.

— Quantos?

— Alguns.

— Então sente. Você ainda nem tomou posse e Brasília já começou a fazer efeito.

— Ainda preciso ganhar a eleição, pai.

— Então é melhor aprender antes. Depois, talvez não tenha tempo.

Flávio acomodou-se ao lado dele.

— Tenho pensado em algumas nomeações. Três nomes para um mesmo cargo.

— Ótimo.

— Como assim, ótimo?

— Já tem dois inimigos antes mesmo de escolher.

— E se eu não escolher nenhum?

— Aí terá três.

Flávio riu.

— E os aliados?

— Esses são mais complicados.

— Por quê?

— Porque adversário você sabe que é adversário. Aliado, às vezes, só descobre depois.

— Mas vou precisar construir uma base no Congresso.

— Naturalmente. Só não confunda apoio com amizade. Em Brasília, há gente que muda de opinião antes mesmo de terminar a frase. Basta aparecer uma proposta melhor.

— E os partidos?

— São indispensáveis. Principalmente para eles mesmos.

Flávio balançou a cabeça.

— Você está me deixando preocupado.

— Melhor agora do que depois da posse.

— E os ministros?

— Escolha gente competente.

— E de confiança?

— Principalmente competente. Confiança sem competência é um desastre. Competência sem confiança também pode ser.

— Então preciso das duas coisas.

— Está aprendendo.

O filho refletiu por alguns segundos.

— E a imprensa?

— Vai criticar.

— Mesmo quando eu acertar?

— Principalmente quando achar que acertou.

— E quando eu errar?

— Aí você vai descobrir que ainda existem coisas em que todos concordam.

Os dois riram.

— Um general também me procurou. Disse que fala em nome das Forças Armadas.

— Quantas estrelas?

— Quatro.

— Estrelas indicam patente. Não substituem argumentos.

— Devo ouvi-lo?

— Claro. Ouça todos.

Só não confunda continência com concordância. Nem conselho com ordem. As Forças Armadas são instituições, não propriedade de quem usa a farda.

Flávio voltou à carga.

— Pai, qual foi o seu maior erro?

Jair olhou para a televisão desligada.

— Se eu soubesse responder com precisão, provavelmente não teria cometido.

— E o maior acerto?

— Ter aprendido alguma coisa com os erros.

— Só isso?

— Não é pouco. Tem gente que passa a vida inteira repetindo os mesmos e ainda culpa os outros.

Houve um breve silêncio.

Jair levantou-se, foi até a estante e voltou com um livro nas mãos.

— Filho, leve este livro de presente.

Flávio examinou a capa.

— O Príncipe, de Maquiavel?

— Já leu?

— Conheço.

— Conhecer não é a mesma coisa que entender. Leia com atenção.

— E qual é a principal lição?

— Que conquistar o poder é difícil. Conservá-lo pode ser ainda mais.

Flávio sorriu.

— Você aprendeu isso lendo Maquiavel?

— Não, filho. Aprendi em Brasília.

Fez uma pausa e acrescentou:

— Maquiavel escreveu o livro. Brasília fez a edição comentada.

Flávio guardou o presente.

— Obrigado, pai. Acho que vou precisar de outros conselhos.

— Sempre que quiser.

— E qual seria o último conselho de hoje?

Jair pensou por alguns instantes.

— Nunca acredite que todos os que estão ao seu lado estão do seu lado.

Flávio levantou-se para sair.

— Bom dia , pai, nosso tempo acabou.

— Bom dia, número um, vá com Deus e não esqueça uma coisa.

— O quê?

— Se ganhar, o problema começa.

— E se perder?

— Aí o problema continua sendo meu.

A televisão permaneceu desligada.

Pela primeira vez naquela sala, ninguém parecia interessado em saber o que estava passando.

O assunto era o que poderia acontecer.

Como na velha canção de Cat Stevens, um pai tentando transmitir o que a vida lhe ensinou e um filho diante dos caminhos que ainda precisa percorrer.

Naquela manha não houve ordens.

Houve conselhos.

E uma lição que serve tanto aos palácios quanto às casas mais simples:

O adulador diz ao poderoso aquilo que ele deseja ouvir.

O conselheiro tem coragem de dizer aquilo que ele precisa ouvir.

Título, Imagem e Texto: Marcelo Duarte Lins, Facebook, 14-10-2026, 4h14

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