Conversa fictícia inspirada no reencontro entre pai e filho
O poder tem uma característica
curiosa: quanto mais alto se chega, mais gente aparece oferecendo conselhos.
Quase sempre acompanhados de pedidos.
Depois de meses sem se encontrarem
pessoalmente, Jair e Flávio Bolsonaro voltaram a conversar.
Um já conhecia os corredores do
Planalto. O outro imagina percorrê-los.
O que realmente disseram pertence aos
dois. O que poderiam ter dito pertence à imaginação deste cronista.
Jair estava sentado no sofá, diante da
televisão desligada.
— Pai, preciso de uns conselhos.
— Quantos?
— Alguns.
— Então sente. Você ainda nem tomou
posse e Brasília já começou a fazer efeito.
— Ainda preciso ganhar a eleição, pai.
— Então é melhor aprender antes.
Depois, talvez não tenha tempo.
Flávio acomodou-se ao lado dele.
— Tenho pensado em algumas nomeações.
Três nomes para um mesmo cargo.
— Ótimo.
— Como assim, ótimo?
— Já tem dois inimigos antes mesmo de
escolher.
— E se eu não escolher nenhum?
— Aí terá três.
Flávio riu.
— E os aliados?
— Esses são mais complicados.
— Por quê?
— Porque adversário você sabe que é
adversário. Aliado, às vezes, só descobre depois.
— Mas vou precisar construir uma base
no Congresso.
— Naturalmente. Só não confunda apoio
com amizade. Em Brasília, há gente que muda de opinião antes mesmo de terminar
a frase. Basta aparecer uma proposta melhor.
— E os partidos?
— São indispensáveis. Principalmente
para eles mesmos.
Flávio balançou a cabeça.
— Você está me deixando preocupado.
— Melhor agora do que depois da posse.
— E os ministros?
— Escolha gente competente.
— E de confiança?
— Principalmente competente. Confiança
sem competência é um desastre. Competência sem confiança também pode ser.
— Então preciso das duas coisas.
— Está aprendendo.
O filho refletiu por alguns segundos.
— E a imprensa?
— Vai criticar.
— Mesmo quando eu acertar?
— Principalmente quando achar que
acertou.
— E quando eu errar?
— Aí você vai descobrir que ainda
existem coisas em que todos concordam.
Os dois riram.
— Um general também me procurou. Disse
que fala em nome das Forças Armadas.
— Quantas estrelas?
— Quatro.
— Estrelas indicam patente. Não
substituem argumentos.
— Devo ouvi-lo?
— Claro. Ouça todos.
Só não confunda continência com
concordância. Nem conselho com ordem. As Forças Armadas são instituições, não
propriedade de quem usa a farda.
Flávio voltou à carga.
— Pai, qual foi o seu maior erro?
Jair olhou para a televisão desligada.
— Se eu soubesse responder com
precisão, provavelmente não teria cometido.
— E o maior acerto?
— Ter aprendido alguma coisa com os
erros.
— Só isso?
— Não é pouco. Tem gente que passa a
vida inteira repetindo os mesmos e ainda culpa os outros.
Houve um breve silêncio.
Jair levantou-se, foi até a estante e
voltou com um livro nas mãos.
— Filho, leve este livro de presente.
Flávio examinou a capa.
— O Príncipe, de Maquiavel?
— Já leu?
— Conheço.
— Conhecer não é a mesma coisa que
entender. Leia com atenção.
— E qual é a principal lição?
— Que conquistar o poder é difícil.
Conservá-lo pode ser ainda mais.
Flávio sorriu.
— Você aprendeu isso lendo Maquiavel?
— Não, filho. Aprendi em Brasília.
Fez uma pausa e acrescentou:
— Maquiavel escreveu o livro. Brasília
fez a edição comentada.
Flávio guardou o presente.
— Obrigado, pai. Acho que vou precisar
de outros conselhos.
— Sempre que quiser.
— E qual seria o último conselho de
hoje?
Jair pensou por alguns instantes.
— Nunca acredite que todos os que
estão ao seu lado estão do seu lado.
Flávio levantou-se para sair.
— Bom dia , pai, nosso tempo acabou.
— Bom dia, número um, vá com Deus e
não esqueça uma coisa.
— O quê?
— Se ganhar, o problema começa.
— E se perder?
— Aí o problema continua sendo meu.
A televisão permaneceu desligada.
Pela primeira vez naquela sala,
ninguém parecia interessado em saber o que estava passando.
O assunto era o que poderia acontecer.
Como na velha canção de Cat Stevens,
um pai tentando transmitir o que a vida lhe ensinou e um filho diante dos
caminhos que ainda precisa percorrer.
Naquela manha não houve ordens.
Houve conselhos.
E uma lição que serve tanto aos
palácios quanto às casas mais simples:
O adulador diz ao poderoso aquilo que
ele deseja ouvir.
O conselheiro tem coragem de dizer
aquilo que ele precisa ouvir.
Título, Imagem e Texto: Marcelo
Duarte Lins, Facebook,
14-10-2026, 4h14
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