terça-feira, 20 de outubro de 2026

O papel miserável do jornalismo no debate público

Henrique Pereira dos Santos

Não, não vou propriamente escrever sobre a capa e etc., de ontem, do Público, isso faz parte da agitprop de uns jornalistas que vivem da caridade da família Azevedo, não entra na classificação de jornalismo.

Interessa-me sim a descrição que é feita dos problemas no sector da habitação, em que o jornalismo vai torturando a realidade até que diga o que o jornalista quer que diga, dando como resultado uma má equação de problemas reais que só por sorte poderá desembocar em boas soluções para um problema mal equacionado.

Nas dezenas de horas de conversa sobre o carnaval montado no Rossio e no Porto, a pretexto de uma suposta crise nunca vista da habitação, faz impressão a desinformação promovida pelos jornalistas, entrevistando alegremente gente que ou está a dizer mentiras, ou está mal informada sobre a questão, sem que o jornalista assuma a sua obrigação de verificar factos.

Comecemos pela caracterização dos problemas no sector da habitação como sendo a maior crise que alguma vez se viu no sector da habitação, uma parvoíce sem nome, bastaria olhar para as fotografias dos imensos mares de barracas à volta das grandes cidades, ou para as condições de vida nos bairros populares e periferias do fim dos anos sessenta e princípios dos anos setenta, ou mesmo até aos anos oitenta, para ter uma noção clara de que é uma estupidez estar sempre a repetir que os jovens de hoje enfrentam uma situação que os seus jovens pais e avós nunca enfrentaram.

Se quiserem ser mais rigorosos, como seria dever dos jornalistas, podem dar um salto aos censos nacionais que a partir de 1970 têm dados muito extensos sobre a habitação em Portugal, para perceber que é simplesmente mentira estar-se perante uma situação nunca vista na habitação.

Uma das entrevistadas numa dessas romarias ao carnaval do Rossio dizia que era professora, estava em Lisboa há dois anos, agora até tinha arranjado um quarto (ou uma casa, não me lembro) mas até aqui vivia nos sofás de amigos porque não conseguia arranjar casa, coisa que em muitas opiniões recolhidas sem audição crítica por parte dos jornalistas, era uma situação que os pais nunca tinham tido, na sua juventude.

Há milhares, literalmente milhares de senhoras das limpezas e senhores das obras (escusam de me chatear com as questões de género, eu sei que existem homens nas peixarias e mulheres nos talhos, mas tradicionalmente havia peixeiras e homens do talho, e continua a haver um desequilíbrio de género, que tem razões sociais e históricas e referir-me a profissões tradicionalmente masculinas e femininas não é o mesmo que defender que cada um é para o que nasce, é simplesmente uma forma simples de falar da realidade, de maneira a que toda a gente entende) que todos os dias entram e saem de Lisboa que ganham menos de metade do que ganha uma professora, frequentemente têm filhos e outros familiares a cargo, e que nunca lhes passaria pela cabeça dizer que andam a dormir pelos sofás dos amigos por não terem dinheiro para viver numa casa ou num quarto.

Qual a principal diferença?

É que os amigos não têm sofás disponíveis e a vida destas pessoas faz-se resolvendo os seus problemas, não é fazendo carnavais no Rossio.

A imprensa insistir em falar sempre dos preços de casas e quartos em Lisboa, esquecendo que num raio de uma hora de transportes públicos existem preços completamente diferentes e que existe um passe nacional que permite às pessoas deslocarem-se por vinte euros por mês, é pura fraude.

A imprensa insistir nos problemas que são causados pelos preços altos, omitindo que cada compra por um preço alto corresponde a uma venda pelo mesmo preço de que beneficia uma família portuguesa, na grande maioria das transacções, é pura fraude.

A imprensa insistir que os jovens não conseguem comprar nem arrendar casa, quando há uns milhares largos de utilizações das garantias do Estado para a compra por parte de jovens (a que correspondem, naturalmente, vendas por parte de outras pessoas que beneficiam com essa entrada de recursos), é pura fraude.

Há problemas sim, no acesso à habitação, para uma faixa relativamente limitada de pessoas (sobretudo imigrantes pobres e pessoas entre os vinte e os trinta ano que não têm rendimentos altos ou capital familiar que as apoie), mas se a imprensa se entretivesse a produzir informação de qualidade, em vez de dar colinho aos choradinhos de meia dúzia de extremistas mimados, é bem possível que houvesse melhores soluções para os problemas que existem, e menos demagogia.

Título e Texto: Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 20-10-2026 

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