Henrique Pereira dos Santos
Não, não vou propriamente
escrever sobre a capa e etc., de ontem, do Público, isso faz parte da agitprop
de uns jornalistas que vivem da caridade da família Azevedo, não entra na
classificação de jornalismo.
Interessa-me sim a descrição
que é feita dos problemas no sector da habitação, em que o jornalismo vai
torturando a realidade até que diga o que o jornalista quer que diga, dando
como resultado uma má equação de problemas reais que só por sorte poderá desembocar
em boas soluções para um problema mal equacionado.
Nas dezenas de horas de
conversa sobre o carnaval montado no Rossio e no Porto, a pretexto de uma
suposta crise nunca vista da habitação, faz impressão a desinformação promovida
pelos jornalistas, entrevistando alegremente gente que ou está a dizer mentiras,
ou está mal informada sobre a questão, sem que o jornalista assuma a sua
obrigação de verificar factos.
Comecemos pela caracterização
dos problemas no sector da habitação como sendo a maior crise que alguma vez se
viu no sector da habitação, uma parvoíce sem nome, bastaria olhar para as
fotografias dos imensos mares de barracas à volta das grandes cidades, ou para
as condições de vida nos bairros populares e periferias do fim dos anos
sessenta e princípios dos anos setenta, ou mesmo até aos anos oitenta, para ter
uma noção clara de que é uma estupidez estar sempre a repetir que os jovens de
hoje enfrentam uma situação que os seus jovens pais e avós nunca enfrentaram.
Se quiserem ser mais
rigorosos, como seria dever dos jornalistas, podem dar um salto aos censos
nacionais que a partir de 1970 têm dados muito extensos sobre a habitação em
Portugal, para perceber que é simplesmente mentira estar-se perante uma
situação nunca vista na habitação.
Uma das entrevistadas numa dessas romarias ao carnaval do Rossio dizia que era professora, estava em Lisboa há dois anos, agora até tinha arranjado um quarto (ou uma casa, não me lembro) mas até aqui vivia nos sofás de amigos porque não conseguia arranjar casa, coisa que em muitas opiniões recolhidas sem audição crítica por parte dos jornalistas, era uma situação que os pais nunca tinham tido, na sua juventude.
Há milhares, literalmente
milhares de senhoras das limpezas e senhores das obras (escusam de me chatear
com as questões de género, eu sei que existem homens nas peixarias e mulheres
nos talhos, mas tradicionalmente havia peixeiras e homens do talho, e continua
a haver um desequilíbrio de género, que tem razões sociais e históricas e
referir-me a profissões tradicionalmente masculinas e femininas não é o mesmo
que defender que cada um é para o que nasce, é simplesmente uma forma simples
de falar da realidade, de maneira a que toda a gente entende) que todos os dias
entram e saem de Lisboa que ganham menos de metade do que ganha uma professora,
frequentemente têm filhos e outros familiares a cargo, e que nunca lhes
passaria pela cabeça dizer que andam a dormir pelos sofás dos amigos por não
terem dinheiro para viver numa casa ou num quarto.
Qual a principal diferença?
É que os amigos não têm sofás
disponíveis e a vida destas pessoas faz-se resolvendo os seus problemas, não é
fazendo carnavais no Rossio.
A imprensa insistir em falar
sempre dos preços de casas e quartos em Lisboa, esquecendo que num raio de uma
hora de transportes públicos existem preços completamente diferentes e que
existe um passe nacional que permite às pessoas deslocarem-se por vinte euros
por mês, é pura fraude.
A imprensa insistir nos
problemas que são causados pelos preços altos, omitindo que cada compra por um
preço alto corresponde a uma venda pelo mesmo preço de que beneficia uma
família portuguesa, na grande maioria das transacções, é pura fraude.
A imprensa insistir que os
jovens não conseguem comprar nem arrendar casa, quando há uns milhares largos
de utilizações das garantias do Estado para a compra por parte de jovens (a que
correspondem, naturalmente, vendas por parte de outras pessoas que beneficiam
com essa entrada de recursos), é pura fraude.
Há problemas sim, no acesso à
habitação, para uma faixa relativamente limitada de pessoas (sobretudo
imigrantes pobres e pessoas entre os vinte e os trinta ano que não têm
rendimentos altos ou capital familiar que as apoie), mas se a imprensa se
entretivesse a produzir informação de qualidade, em vez de dar colinho aos
choradinhos de meia dúzia de extremistas mimados, é bem possível que houvesse
melhores soluções para os problemas que existem, e menos demagogia.
Título e Texto: Henrique Pereira dos Santos, Corta-fitas, 20-10-2026

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