Quanto mais críticas recebe, mais a elite brasileira apoia a esquerda. Nesse cenário, a polarização e a classe média transformam Flávio em favorito para o segundo turno
Nuno Vasconcellos
Caso o eleitor brasileiro se oriente
nas eleições dos próximos anos pelos mesmos princípios que guiaram seu voto no
domingo passado, pode-se dizer que o Centrão se tornou um organismo político em
vias de extinção. Isso mesmo! A raposada que, nos últimos tempos, vem usando o
centro político como uma espécie de esconderijo, desenvolveu um tipo de
disfarce que permite a seus integrantes se integrarem sem dificuldades ao
governo do momento, nas ocasiões em que isso lhes convém. O mesmo disfarce
facilita que se transformem em oposicionistas aguerridos nos momentos em que o
governo (qualquer governo) se desgasta.
A capacidade de ir de um lado para o
outro sem prestar contas a ninguém deu a esse grupo um poder descomunal nos
últimos governos. Só que, agora, a força do grupo parece estar escorrendo ralo
abaixo. Por decisão soberana do eleitor, o Centrão saiu das eleições de 4 de
outubro muito mais fraco do que entrou — e o enfraquecimento do grupo é
consequência do mesmo ingrediente que o fez chegar ao tamanho que alcançou nos
últimos anos.
O nome do ingrediente é polarização. Durante os últimos anos, a disputa permanente entre a esquerda petista e a direita bolsonarista a partir de um ambiente parlamentar fragmentado inviabilizou a construção de qualquer consenso político. Isso permitiu que o Centrão funcionasse como o fiel da balança e tivesse a desenvoltura necessária para ir e voltar de um lado para o outro, sempre oferecendo apoio no Congresso em troca de ministérios e de nacos cada vez mais gordos do orçamento federal.
Atenção: ninguém está decretando o fim
dos políticos que barganham apoio ao governo em troca de cargos e
verbas. Nem dizendo que o perfil ideológico mais definido que emergiu das
urnas de domingo significará o fim das barganhas e da prática do “toma-lá-dá-cá”.
O que houve foi apenas o início do fim. O que está sendo dito é que, sob o
estímulo da polarização, que cobra cada vez mais clareza e coerência dos
políticos, o eleitor resolveu exercer o poder de apoiar aqueles que se
comprometem com uma causa clara (seja ela de direita ou de esquerda). E de
negar o voto a quem não agir de acordo com os compromissos que assumiu em
eleições passadas.
SÍNDROME DE ESTOCOLMO
Mas, afinal, de que eleitor estamos falando? Uma avaliação superficial dos resultados das eleições parlamentares e do primeiro turno do pleito presidencial deste ano, baseada mais na sensibilidade do observador do que em análises científicas, expõe detalhes no mínimo intrigantes sobre o perfil do eleitorado de cada um dos polos em disputa.
Um desses detalhes remete à chamada
“síndrome de Estocolmo” manifestada por um grupo de eleitores que, na prática,
é mais influente do que numeroso. Trata-se da tal “elite” que o presidente Lula
sempre aponta como responsável pelos males do Brasil. Para Lula, a “elite” é a
inimiga número 1 das políticas de inclusão que, segundo ele, estão no cerne das
preocupações dos governos petistas.
A Síndrome de Estocolmo, como se sabe,
é uma reação psicológica que leva uma vítima de violência ou de sequestro a
desenvolver uma forte ligação emocional com seu agressor. Essa reação cria
vínculos que podem fazer a vítima se identificar com o algoz. Assim é com a
elite brasileira. Ela pode ser criticada o quanto for, mas nunca deixa de ser
fiel a Lula.
Na quinta-feira anterior às eleições,
Lula havia batido forte na “elite”. E se referiu a ela como “essa gente que não
quer que eu coloque filha de empregada doméstica na universidade para ser
médica (...) Essa gente que não gosta de mim vai continuar não gostando, mas eu
vou continuar fazendo”, disse. Menos de 72 horas depois de ter ouvido essa
acusação, a elite foi às urnas e, como sempre tem feito, reafirmou sua
fidelidade.
Os resultados de domingo passado
mostram que o petista foi o grande vencedor das eleições no Leblon, bairro de
referência da elite no Rio de Janeiro. Foi também o vitorioso nas seções
eleitorais da região dos Jardins, em São Paulo, onde votam os mandachuvas do
mercado financeiro, conhecidos pelo termo genérico de “a Faria Lima” — em
referência à avenida que concentra um número expressivo de bancos, fundos d
investimentos e consultorias financeiras.
FIDELIDADE CANINA
Não é o caso de se analisar com lupa
os mapas da votação. As observações feitas neste texto, como já foi dito, são
baseadas na curiosidade e na sensibilidade de um observador atento e não em
evidências científicas. Os resultados do pleito confirmam que, quanto mais é
acusada por Lula de insensibilidade social, mais a elite o recompensa com uma
fidelidade canina. Até aí, tudo bem.
A questão é que a outra ponta da
amostra engloba a população vulnerável, pobre e numerosa concentrada,
principalmente, na região Nordeste do país. Esse grupo também costuma fazer o
“L”. Numa análise igualmente superficial, pode-se dizer que as pessoas que
dependem dos benefícios do Bolsa Família e de outros programas sociais são tão
devotadas a Lula quanto os malvadões insensíveis da Faria Lima que, a rigor,
seriam seus principais exploradores.
Por mais superficial que seja esse
desenho, os números do primeiro turno mostram que até essa realidade passou por
mudanças. Lula manteve sua soberania no Nordeste, embora não tenha contado com
uma maioria tão folgada quanto as das eleições passadas. Considerando os
números do país inteiro, Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos. Lula ficou
com 45,16%. Na eleição passada, Lula obteve na região e em Minas Gerais, onde
perdeu desta vez, uma vantagem muito mais folgada sobre o pai de Flávio,
Jair Bolsonaro. Isso sugere, ao fim e ao cabo, que muita gente que votou em
Lula em eleições passadas pode ter mudado de lado e passado a votar na
direita... A pergunta é: de onde saiu essa massa toda?
A resposta está na classe média. Isso
mesmo! Esse grupo social que, no mandato atual, passou a ser alvo de críticas
tão cruéis e frequentes quanto as que Lula dirige à elite não reagiu com a
mesma docilidade. Além de fatores regionais, da superioridade estratégica de
sua campanha sobre a de Lula e do desgaste natural de um governo que já está há
tempo demais no comando do país, Flávio conseguiu captar o humor da classe
média e transformar a insatisfação com os juros, o endividamento e a
inadimplência em apoio à sua candidatura. Se isso será suficiente ou não
para lhe garantir a vitória no dia 25 de outubro é uma outra história. A
verdade é que, pelo que se viu ao longo desta última semana, o senador trocou a
condição de azarão (ou dark horse, na expressão em inglês) pela de favorito.
Graças à polarização e à classe média.
Título, Imagem e Texto: Nuno
Vasconcellos, O Dia, 11-10-2026
Profecia ou ameaça? 🤔
“Lavagem cerebral: a propaganda totalitária, que foi utilizada pelo comunismo, nazismo e fascismo no passado. O petismo utiliza essa mesmíssima técnica”
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9-10-2026: Oeste sem filtro – Nova marqueteira de Lula espalha fake News (e insultos) na internet + Lula zera impostos sobre a gasolina para caçar votos + m. manda prender porteiro condenado a 14 anos
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