terça-feira, 20 de outubro de 2026

Entrevista de página inteira com a diretora do Datafolha, Luciana Chong, ao Valor Econômico

“a tentação de demonizar um campo político é maior do que a fidelidade aos fatos”

Marcelo Guterman

Destaquei o trecho abaixo, em que a diretora comenta o fiasco do instituto na aferição das intenções de voto no RJ. 

Apenas para lembrar, no dia 1/10, o Datafolha soltou uma pesquisa em que colocava Eduardo Paes à frente de Douglas Ruas com uma vantagem de 47 a 35 dos votos válidos. O resultado foi 49,3 a 42,8 para Ruas. Mesmo na margem máxima de erro (45 a 37), a votação em Ruas foi subestimada em nada menos do que 12,3 pontos percentuais. Isso corresponde à bagatela de 1,15 milhão de votos válidos.

A explicação da diretora para o erro se resume ao achaque do crime organizado e das milícias aos eleitores. Esse achaque se daria de duas formas: 1) os pesquisadores não teriam acesso às regiões dominadas pelas facções e 2) os eleitores dessas regiões estariam sendo obrigados a votar nos candidatos aliados ao crime. No caso, Douglas Ruas.

O que pensar a respeito?

A primeira alegação pode ter algum sentido, se assumirmos como premissa que os moradores dessas regiões são eleitores majoritariamente de Ruas. Ao não franquear o acesso, a intenção de voto em Ruas estaria sendo subestimada. Seria necessário levantar a quantidade de votos em regiões dominadas pelo narcotráfico, mas considerando que a diferença foi de 1,15 milhão de votos, isso significaria que 27% dos eleitores de Ruas estariam “escondidos” nessas regiões. Isso, repito, se 100% desses eleitores votassem em Ruas. Meio puxado, mas ok até aqui.

A maionese da entrevista começa a desandar na segunda parte. A diretora do Datafolha avança em uma área fora do escopo de sua especialidade. Ela pode afirmar que seus pesquisadores não conseguem acessar certas áreas, e que essas áreas só podem ser majoritariamente eleitoras de Ruas, caso contrário, a diferença na estimação não seria tão grande. Mas ao afirmar que, na verdade, esse eleitorado seria de Paes, e que estão sendo obrigados a votar em Ruas pelo crime organizado (como se os bandidos entrassem na cabine para ver em quem o eleitor está votando), a diretora está extrapolando os seus sapatos, e apresentando como análise uma opinião pessoal. Ela não tem como provar essa hipótese, mesmo porque ela mesma admitiu que seus pesquisadores não têm acesso a essas áreas.

Não satisfeita em analisar as causas do fiasco de seu instituto no RJ, a diretora do Datafolha, instigada pelas repórteres, avança essa “explicação” para o Brasil inteiro, desnudando, inadvertidamente, a mixórdia de seu argumento. Fala da “tática do medo” como uma generalização do achaque que o crime supostamente faria com os eleitores do RJ. E cita, como exemplo, uma ameaça de Bolsonaro nas eleições… de 2022! Ora, estamos em 2026, e quem está usando a tática do medo é justamente Lula. A nos fiarmos deste argumento, é Lula e o PT que estão achacando os brasileiros. Mas o paralelo de Ruas com Bolsonaro é muito tentador para se prestar atenção a esses pequenos detalhes.

Não quero aqui dizer que a diretora não tenha razão ao afirmar que pode haver desvios grandes entre pesquisas e resultados em função da inacessibilidade a certas áreas. Se parasse por aí, teria explicado o erro e estaria tudo bem. Mas sabe como é, a tentação de demonizar um campo político é maior do que a fidelidade aos fatos que se podem comprovar.

Título, Texto e Imagem: Marcelo Guterman, Facebook, 19-10-2026, 23h13

Relacionados:
19-10-2026: Oeste sem filtro – Ato de Flávio na Paulista reúne uma multidão + Roberta Luchsinger chama Lula de mentiroso + Análise do primeiro debate presidencial 
“Vocês sabiam que gente morta não é eleita?” 
A noite em que a máscara caiu. De novo 
O primeiro debate presidencial 
“Quem ganhou o debate? Não sei. Só sei que perdi meu tempo” 
Pânico retrô: Quem venceu o debate? 
A Direita é outro nível? – Bloco do 22, Avenida Paulista, 18 de outubro de 2026 
Luchsinger diz que vai delatar: “Não vou poupar ninguém, nem presidente nem o filho”

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-