“a tentação de demonizar um campo político é maior do que a fidelidade aos fatos”
Marcelo Guterman
Destaquei o trecho abaixo, em que a diretora comenta o fiasco do instituto na aferição das intenções de voto no RJ.
Apenas para lembrar, no dia 1/10, o
Datafolha soltou uma pesquisa em que colocava Eduardo Paes à frente de Douglas
Ruas com uma vantagem de 47 a 35 dos votos válidos. O resultado foi 49,3 a 42,8
para Ruas. Mesmo na margem máxima de erro (45 a 37), a votação em Ruas foi
subestimada em nada menos do que 12,3 pontos percentuais. Isso corresponde à
bagatela de 1,15 milhão de votos válidos.
A explicação da diretora para o erro
se resume ao achaque do crime organizado e das milícias aos eleitores. Esse
achaque se daria de duas formas: 1) os pesquisadores não teriam acesso às
regiões dominadas pelas facções e 2) os eleitores dessas regiões estariam sendo
obrigados a votar nos candidatos aliados ao crime. No caso, Douglas Ruas.
O que pensar a respeito?
A primeira alegação pode ter algum sentido, se assumirmos como premissa que os moradores dessas regiões são eleitores majoritariamente de Ruas. Ao não franquear o acesso, a intenção de voto em Ruas estaria sendo subestimada. Seria necessário levantar a quantidade de votos em regiões dominadas pelo narcotráfico, mas considerando que a diferença foi de 1,15 milhão de votos, isso significaria que 27% dos eleitores de Ruas estariam “escondidos” nessas regiões. Isso, repito, se 100% desses eleitores votassem em Ruas. Meio puxado, mas ok até aqui.
A maionese da entrevista começa a
desandar na segunda parte. A diretora do Datafolha avança em uma área fora do
escopo de sua especialidade. Ela pode afirmar que seus pesquisadores não
conseguem acessar certas áreas, e que essas áreas só podem ser majoritariamente
eleitoras de Ruas, caso contrário, a diferença na estimação não seria tão
grande. Mas ao afirmar que, na verdade, esse eleitorado seria de Paes, e que
estão sendo obrigados a votar em Ruas pelo crime organizado (como se os
bandidos entrassem na cabine para ver em quem o eleitor está votando), a
diretora está extrapolando os seus sapatos, e apresentando como análise uma
opinião pessoal. Ela não tem como provar essa hipótese, mesmo porque ela mesma
admitiu que seus pesquisadores não têm acesso a essas áreas.
Não satisfeita em analisar as causas
do fiasco de seu instituto no RJ, a diretora do Datafolha, instigada pelas
repórteres, avança essa “explicação” para o Brasil inteiro, desnudando,
inadvertidamente, a mixórdia de seu argumento. Fala da “tática do medo” como
uma generalização do achaque que o crime supostamente faria com os eleitores do
RJ. E cita, como exemplo, uma ameaça de Bolsonaro nas eleições… de 2022! Ora,
estamos em 2026, e quem está usando a tática do medo é justamente Lula. A nos
fiarmos deste argumento, é Lula e o PT que estão achacando os brasileiros. Mas
o paralelo de Ruas com Bolsonaro é muito tentador para se prestar atenção a
esses pequenos detalhes.
Não quero aqui dizer que a diretora
não tenha razão ao afirmar que pode haver desvios grandes entre pesquisas e
resultados em função da inacessibilidade a certas áreas. Se parasse por aí,
teria explicado o erro e estaria tudo bem. Mas sabe como é, a tentação de
demonizar um campo político é maior do que a fidelidade aos fatos que se podem
comprovar.
Título, Texto e Imagem: Marcelo
Guterman, Facebook,
19-10-2026, 23h13
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