João Sousa
Cristiano Ronaldo
divulgou, esta terça-feira, um longo comunicado no qual explica a sua
versão dos factos que o levaram a abandonar
o estágio da selecção nacional, em ruptura com Jorge Jesus.
No documento, o capitão da selecção de Portugal sustenta que o seleccionador faltou à palavra duas vezes e revela um plano de oito pontos que queria que Jesus afirmasse em público.
Ronaldo também pede
desculpa aos portugueses e aos colegas de selecção por ter abandonado o
estágio.
Lê aqui o comunicado de Cristiano Ronaldo na íntegra:
"Tal como prometi, decidi
contar, na primeira pessoa e de forma direta, as circunstâncias que envolveram
o último estágio da Seleção Nacional.
Após o Mundial 2026 preparei
uma carta aos portugueses, que ainda guardo, com as palavras que lhes quero
dirigir quando abandonar, definitivamente, a nossa equipa.
No final da competição, logo
no voo de regresso dos Estados Unidos, o Presidente da Federação pediu e
insistiu que eu ponderasse a decisão de sair porque a FPF queria que eu
continuasse.
Logo a seguir pediu que lhe
desse a minha opinião sobre o nome do atual Selecionador e que ele estava a
ponderar, a par de outros nomes que não me revelou.
Respondi ao Presidente da Federação que, em minha opinião, seria a escolha certa.
Por isso, no dia em que o
atual Selecionador foi apresentado fiquei genuinamente feliz pela escolha. Era
a opção certa, como os resultados vão comprovando.
Poucos dias depois recebi um
primeiro contacto do novo selecionador nacional a dizer que gostava de estar
comigo pessoalmente. Respondi que sim e agendámos para o final das minhas
férias.
Encontrámo-nos na Cidade do
Futebol onde o meu clube fazia estágio de pré-temporada.
O Selecionador disse-me nesse
dia que contava comigo e que a minha presença era fundamental para o seu
projeto. Apresentou-me, logo ali, um plano para a minha participação. Disse-me
que jogaria o primeiro jogo e o último e que por razões de gestão física
iria fazer sempre três a quatro mudanças por jogo.
Nessa altura colocou-me a
hipótese de eu não viajar com a Seleção para Noruega e Dinamarca. Propôs-me que
fizesse o primeiro jogo e ficasse em Portugal, para depois me juntar de novo
antes do jogo do Dragão.
Recusei de imediato esta
proposta. Parecia-me evidente que não a poderia aceitar. Não seria por não
jogar os jogos no estrangeiro que deixaria de capitanear a nossa equipa. Esse
privilégio de ficar em Portugal não seria um bom exemplo.
O Selecionador acabou por
concordar com a minha análise.
Esta conversa foi acompanhada
pelo Simão Coutinho, diretor Desportivo do Al Nassr, pessoa a quem reportava o
atual selecionador durante toda a época passada e um dos responsáveis pela sua
contratação pelo clube em 2025.
Na véspera do estágio começar
o Selecionador deslocou-se a minha casa, em Lisboa, para ter nova conversa
comigo, a seu pedido. A conversa foi tranquila e todos os princípios combinados
em agosto foram mantidos.
Joguei o jogo de Alvalade, e
apesar de substituído, não fiz nenhum problema. Coloquei a braçadeira eu mesmo
ao Bruno Fernandes, longe de imaginar que pudesse estar a dar os últimos
passos, como atleta e capitão da Seleção Nacional. O importante desse dia, para
mim, foi a nossa vitória. Ganhar é sempre bom, em Portugal e pelo meu País,
ainda melhor.
À hora de almoço do dia do
jogo na Noruega um adjunto do selecionador do veio à mesa onde o grupo estava a
almoçar e informou-me que o Selecionador me queria falar. Para minha
absoluta surpresa, o selecionador perguntou-me se estava bem para jogar 30
minutos. Eu estava totalmente focado na minha recuperação física, integrado
com os meus companheiros como sempre e a pensar que não jogaria naquele dia.
Sem nenhum problema.
Este pedido era algo fora do
meu plano de recuperação física e de treino – porque apenas iria jogar dia 4 no
Dragão – mas obviamente disse que sim. Respondeu-me que então estivesse
preparado porque jogaria 30 min.
O resto todos conhecem. Aqueci
desde o intervalo, vi os minutos a passar e não fui chamado.
O Selecionador tinha-me
falhado com a sua palavra.
No fim do jogo só queria que
tudo acabasse com a vitória e ficar sozinho. Não fui cumprimentar os
adeptos. Uma falha que é apenas da minha responsabilidade e que não deveria ter
acontecido. Peço desculpa aos portugueses que ali nos apoiaram
intensamente, peço desculpa aos adeptos e peço desculpa aos que, sem serem
portugueses, ali se possam ter deslocado para me ver e a quem eu possa ter
desiludido.
Passado 48 horas tivemos
uma conversa, eu, o Selecionador e o Simão Coutinho uma vez que tinha sido
ele a acompanhar as nossas conversas de Agosto.
Foi um momento profundo, muito
frontal, sem qualquer tipo de filtro.
Concordámos que só havia
uma maneira de encerrar este “caso”: que o Selecionador repetisse o que acabara
de me dizer ali em privado, na presença do Simão Coutinho, mas na Sala
de Imprensa.
O que foi combinado era
simples: o Selecionador começaria a conferência de imprensa por este tema,
procurando encerrar o assunto contando a verdade. Diria que nunca pedi para
jogar minutos nenhuns, que foi o Selecionador e mais ninguém, quem me propôs o plano
para este estágio e que foi um erro colocar-me a aquecer para não entrar e que
se voltasse a acontecer não o faria.
Acabamos essa reunião com o
Selecionador a pedir-me um abraço, a prometer-me que ia dizer na conferência o
que acabara de me dizer a mim e que o assunto se ultrapassava. Eu não
jogaria na Dinamarca e jogaria o jogo do Dragão. Tudo isto na presença do Simão
Coutinho, sempre.
A pedido do selecionador,
decorreu depois uma reunião entre ele mesmo, o Simão Coutinho e o Tiago
Craveiro em videoconferência, em que se resumiu aquilo que falámos.
Foi produzido um pequeno
documento que eu mesmo validei e que, com o meu conhecimento, foi entregue ao
Selecionador, tal como ele havia solicitado.
A conferência foi o que se
conhece: a postura não teve nada a ver com a nossa reunião, ouvi expressões
e uma agressividade que julgo não merecer, uma atitude de quero, posso e mando
que nunca me manifestou, nem de perto nem de longe, em privado, na véspera.
As notas que validei eram
as seguintes:
“Acho importante, até porque é
a verdade, esclarecer algumas coisas antes de falar da Dinamarca:
·
1. Propus ao Cristiano eu mesmo, sem mais
ninguém, um plano para ele, esta época desportiva, na Seleção Nacional.
Foi uma conversa demorada e muito boa.
·
2. Sei o quanto ele vive e Ama a Seleção
e o peso que tem no Mundo, mais ainda, o peso e a influência positiva que tem
na Seleção há 24 anos consecutivos.
·
3. O plano que propus ao Cristiano foi aceite.
·
4. Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar,
leal e profissional.
·
5. Do plano que tracei para ele não constava
o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar
fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O
Cristiano concordou
·
6. Errei ao colocar alguém da dimensão de
Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não
o faria.
·
7. Para encerrar o assunto: Eu quero o
Cristiano na Seleção Nacional. Aliás não quero pouco, quero muito. Felizmente
ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e aqui também.
·
8. Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já
falámos sobre isso. Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de
mim lições de Amor a Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga
coisa nenhuma. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que
mais acarinha os adeptos. Não inventemos problemas onde eles não existem.
Quando não estamos contentes reagimos. Foi só isso.”
Nenhuma destas notas dizia,
portanto, que o selecionador me pedisse sequer desculpa.
Era a segunda vez, que me
estava a faltar à palavra dada.
Decidi abandonar o estágio
sem esperar por mais nenhuma quebra de palavra. Para mim a verdade ainda é
a coisa mais importante na relação entre as pessoas. Por muito que doa, que me
digam a verdade.
Aliás, numa conversa que
mantive com o Presidente da FPF e com o Selecionador na manhã do dia dessa
conferência de imprensa, podem confirmar seguramente, reafirmei que se não me
quisessem ali mo dissessem. Bastava serem francos comigo. Eu aceitaria isso e
prometi que prepararíamos algo bonito, como sonho que aconteça, e ninguém
ficaria zangado.
Lembro-me como se fosse hoje.
Responderam em uníssono que não. Que o meu lugar era na Seleção Nacional.
Nunca, em nenhum momento me
intrometi em qualquer decisão técnica ou tática de qualquer treinador ou
selecionador em quase 25 anos de carreira. Aceito é melhor ou pior o que me
propõem fazer. Respeito a decisão e quando me faltam à palavra, sinto que o meu
lugar não é ali.
Devo também um pedido de
desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio. Apesar
da absoluta quebra de confiança na palavra do Selecionador, como poderá
testemunhar quem assistiu a estas conversas, eu não o devia ter feito. A
responsabilidade é exclusivamente minha.
Peço desculpa aos
portugueses mais uma vez, mas a quebra da palavra tem, para mim, um impacto
definidor. Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar
o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse
útil: peguei nas malas e saí.
A consequência deste meu
ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Entendo
que a punição não deve ter atenuantes. Não sou um jogador qualquer, sou capitão
de equipa e isso constitui uma agravante. Já pedi desculpa, mas sei que as
atitudes têm de ter consequências. Quem está no futebol como estou sabe
que, independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos.
A este propósito, tenho ouvido
muito falar em jogos de despedida, que tenho que ter uma despedida digna e que
a Federação me quer dar essa oportunidade.
Aprendi na vida, com fome e
sem nada para comer muitas vezes, que ninguém dá nada a ninguém.
Posso prometer a todos os meus
fãs, naturalmente e em especial a todos os portugueses, que faremos um ou
mais jogos de despedida, haverá tempo para isso.
Mas quando penso na seleção o
que eu penso mesmo é em competir. Foi nisso que pensei no dia em que me deram a
notícia da morte do meu Pai. Estava em estágio da nossa Seleção e lá decidi
ficar até terminar o jogo do dia seguinte. Fiz por isso pelo País o que jamais
faria por clube algum.
Portanto se estiver bem
fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da
suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até
hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção.
Esta é, acreditem, a mais pura
das verdades.
Cristiano Ronaldo 6 de Outubro de 2026"
Título, Imagem e Edição do
Comunicado: João Sousa, DAZN,
6-10-2026

Sou suspeito, porque nunca simpatizei com Jorge Jesus, e sempre simpatizei com Cristiano Ronaldo.
ResponderExcluirA primeira internacionalização "AA" (seleção principal) de Cristiano Ronaldo ocorreu a 20 de agosto de 2003, num jogo amigável contra o Cazaquistão. Faz 23 anos.
Jorge Jesus acaba de chegar.
Sim, quando você pega um táxi (ou um dromedário) nos confins deste mundo e diz que é português, de imediato, o motorista ou o condutor exclama” Cristiano Ronaldo!”
O mesmo se aplica a um brasileiro, a exclamação é: “Pelé!”
Portanto, entre Cristiano Ronaldo e Jesus, escolho o primeiro, por tanto orgulho que transmitiu aos portugueses.
Ah, outra coisa: “A inveja é uma merda”. E não só, destrói o invejoso, não o invejado.
Muito obrigado, Cristiano Ronaldo. 🫂