segunda-feira, 26 de outubro de 2026

A prorrogação das trevas


Segundo a definição do Hospital Albert Einstein, a síndrome de Estocolmo “é um fenômeno psicológico observado em contextos de violência, ameaça ou privação de liberdade, no qual a vítima desenvolve empatia, afeição ou até defesa pública do agressor”. Entre seus sintomas estão “justificativas ou minimização da violência sofrida”, “negação do risco real da situação”, “dependência emocional acompanhada da crença de que o agressor ‘é quem pode ajudar’” e “defesa ativa do agressor”. A reeleição de Lula neste 25 de outubro confirma que a síndrome de Estocolmo também tem sua versão política. 

Depois de uma decisão inédita de Cristiano Zanin, que prorrogou em duas horas o horário de votação, Lula venceu Flávio Bolsonaro por menos de 4 pontos porcentuais dos votos válidos. “Pela primeira vez desde a Proclamação da República, o advogado de um presidente candidato à reeleição, e por ele premiado com uma vaga no Supremo Tribunal Federal, decidiu monocraticamente adiar por duas horas o encerramento de uma votação nacional”, afirmou Augusto Nunes, na reportagem de capa desta edição. “Pela primeira vez desde que o Brasil adotou o sistema da eleição em dois turnos, um candidato derrotado no primeiro (por uma diferença de 2 milhões de votos) venceu o segundo (com uma vantagem de quase 5 milhões). Pela primeira vez no mundo, um político conseguiu anexar mais de 10 milhões de cabeças a seu rebanho de eleitores”.

Além da ajuda de mais um amigo ministro, Lula e seu “exército” comandado por André Janones fizeram o diabo: acusaram Flávio Bolsonaro de planejar o desmonte de programas sociais e do Pix, a retirada de direitos trabalhistas e a redução das férias dos trabalhadores. Tentaram associá-lo a escândalos sexuais. Espalharam a falsidade segundo a qual o inimigo pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Fora o resto. 

Isso sem contar a institucionalização da compra de votos. Alexandre Garcia lembra que a cifra destinada a essa trama somou R$ 354 bilhões, segundo o Estadão. As benesses incluíram o aumento do Bolsa Família poucos dias antes do 2º turno, o perdão de dívidas de 3,6 milhões de microempresários, benefícios em dinheiro para universitários e isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. “Não é um chinelo, um par de óculos, uma dentadura, uma carga de tijolo, uma cédula de R$ 50”, observa Garcia. “Lula não fez varejo. Fez por atacado e a granel.” 

Tudo isso — e muito mais — não foi suficiente para evitar que a maioria dos brasileiros caísse de novo na ladainha da “colheta” que nunca chega. Lula herdará de si mesmo um país com inflação acima da meta, juros altíssimos, mais de 80 milhões de inadimplentes, dívida pública elevada e um número crescente de empresas em recuperação judicial. É a verdadeira herança maldita, observa Adalberto Piotto. 

Cada vez mais à vontade para fazer o que sempre fez, Lula continuará recomendando ovos à população enquanto desfruta da picanha que promete sem jamais entregá-la. Fantasiado de pai dos pobres, aumentará o volume de noites desfrutadas em suítes presidenciais de hotéis com diárias acima de R$ 50 mil e continuará colecionando relógios avaliados em mais de R$ 80 mil, sapatos de R$ 10 mil e gravatas de R$ 2 mil. Além de receber presentes suspeitíssimos, como a garrafa de uísque avaliada em R$ 500 mil que ganhou do banqueiro bandido Daniel Vorcaro. 

No discurso da vitória, Lula avisou que pretende “regular” as redes sociais. Desta vez as coisas não serão tão fáceis. O Congresso redesenhado pela ampliação das bancadas oposicionistas ajudará os brasileiros decentes a manter viva a esperança. Como ressalta Rodrigo Constantino, “o Brasil já passou por ditaduras, hiperinflação e escândalos que pareciam eternos. Não tema a tempestade”. O Brasil é muito maior — e bem melhor — que Lula e o PT. O país sobreviverá à prorrogação destes tempos de trevas.

Boa leitura

Branca Nunes

Diretora de Redação

Revista Oeste, 26 de outubro de 2026, 1h49

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