Encerrada
a campanha, fica claro que a polarização não se limitou à disputa entre a
direita e a esquerda, mas também aos meios utilizados na campanha
Nuno Vasconcellos
A disputa pela presidência da
República este ano foi a mais polarizada da história. Tão polarizada que,
pode-se dizer sem medo de errar, a briga entre a direita e a esquerda se
estenderá além da apuração e se prolongará pelo próximo mandato presidencial.
Petistas e bolsonaristas levaram as divergências a um ponto irreconciliável e
há 100% de chances de que o próximo presidente — não importa quem seja eleito —
enfrente dificuldades para construir um consenso capaz de livrar o Brasil das
dificuldades que o aguardam. As diferenças estão nos mínimos detalhes.
Inclusive nos recursos de abordagem do eleitor utilizados pelas duas
candidaturas.
Pode-se dizer que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro deu preferência às ferramentas digitais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, recorreu aos recursos mais analógicos possíveis na abordagem do eleitor. Não cabe, aqui, fazer qualquer juízo de valor nem considerar que um dos métodos de caça ao voto é mais moderno do que o outro. Afinal, os dois candidatos terminaram o primeiro turno praticamente empatados, chegam ao dia da eleição com chances de vitória e nem mesmo o debate promovido pela TV Globo na noite de sexta-feira foi capaz de revelar um favorito.
PRIMEIRO TURNO
Flávio se apoiou nas ferramentas
digitais porque não havia outra escolha a fazer. Sem passagem pelo Executivo,
sem realizações importantes no currículo e com a candidatura lançada menos de
um ano antes da eleição, Flávio tinha no sobrenome o principal (senão o único)
recurso para se aproximar do eleitor.
Chegou aonde chegou porque, além do prestígio herdado do pai, foi hábil no uso dos recursos digitais — que seu grupo político manuseia com eficiência desde 2018. A campanha do PL captou a insatisfação da sociedade com os preços dos alimentos, a revolta diante das taxas de juros reais mais indecorosas do mundo, o medo da criminalidade, a lerdeza no combate à violência e a incapacidade das políticas públicas de atender às necessidades da população. E teve a competência de, por meio das redes sociais, traduzir essa insatisfação numa linguagem simples, direta e objetiva — que foi capaz de unir multidões em torno da necessidade de mudanças.
Os recursos digitais, no caso de Lula,
não eram tão vitais quanto eram para Flávio. O presidente sempre pareceu
tratá-los como uma forma de entretenimento para os jovens, não como um recurso
de campanha. Desde o início, Lula parecia acreditar que o passado ancorado em
suas passagens pelo Planalto e o medo do “bolsonarismo” que os petistas tentam
incutir nas pessoas seriam trunfos suficientes para liquidar a fatura no
primeiro turno.
Para ele, a legião de apoiadores que
atuou como a linha de frente das vitórias do PT em cinco das seis eleições
presidenciais realizadas no século 21 seria suficiente para assegurar mais uma
vitória. E que as medidas populistas adotadas na reta final do atual mandato —
que incluem a distribuição de botijões de gás, o perdão de dívidas e a
repetição de promessas já feitas em eleições anteriores — bastariam para manter
a fidelidade do eleitorado das regiões mais vulneráveis do país. Como se viu, a
realidade não é tão simples como supõem os estrategistas do PT.
GENERAL DO LULA
Abertas as urnas e apurados os votos,
ficou evidente que o currículo do presidente não bastava para encerrar a
disputa no primeiro turno. Para conquistar o quarto mandato, o presidente teria
que enfrentar o segundo turno, ao contrário do que houve nas três eleições
anteriores, numa posição de desvantagem em relação ao candidato da oposição.
Com mais de 2 milhões de votos de
desvantagem em relação ao adversário, a campanha petista acordou para a
necessidade de recorrer aos meios digitais e criar uma estrutura capaz de levar
o nome de Lula ao eleitorado mais jovem. O problema é que, ao seguir esse
caminho, o presidente se cercou de pessoas que talvez não fossem as mais
indicadas para a tarefa.
O nome que primeiro alimentou as
esperanças da esquerda, logo após a divulgação dos resultados do primeiro
turno, foi o da jovem Ana Elisa, de 21 anos, recém-eleita deputada federal pelo
PT de Minas Gerais. A votação portentosa se explica pela eficiência no uso das
redes — que garantiu a ela mais de meio milhão de votos. Só havia dois
problemas.
O primeiro: bastou uma consulta ao
histórico das postagens que conferiram prestígio eleitoral a Ana Elisa para se
constatar um comportamento que, se foi eficaz para conquistar votos de
esquerda, não combinava com a necessidade do presidente de conquistar a
simpatia dos eleitores de centro e de direita. A jovem deputada eleita
revelou-se uma mulher sectária, agressiva e defensora de métodos violentos para
lidar com os adversários. O segundo problema é que, acima da jovem petista na
preferência dos eleitores mineiros, estava o deputado Nikolas Ferreira (PL/MG).
Do alto de uma montanha de mais de 3,1
milhões de votos, Ferreira se firmaria como um dos nomes centrais da campanha
de Flávio. Como seria mostrado nas semanas seguintes, ele resolveu usar a
atração que exerce sobre os jovens nas redes sociais para arrastar multidões
para a rua em apoio a Flávio Bolsonaro.
Descartada a conveniência de fazer de
Ana Elisa a líder da estratégia digital da candidatura, o comando petista
resolveu confiar a responsabilidade ao estridente deputado André Janones
(Rede-MG) — que fez barulho demais para o pouco resultado que obteve com o tal
Exército do Lula. Ainda que tenha reunido milhões de adeptos sob o comando do
“General do Lula” (como o próprio Janones passou a se intitular), é difícil
dizer que a estratégia tenha sido eficaz naquilo que se propunha: virar votos
em favor do presidente.
A sorte foi lançada e resta, agora,
saber qual dos dois candidatos foi capaz de atravessar o Rubicão para chegar à
presidência da República. A lição que fica é a de que Lula confiou demais em
conquistas do passado para lidar com uma geração que demonstra preocupações com
o futuro. E o futuro cobra não só o uso de ferramentas modernas (e digitais) de
relacionamento. Cobra também uma nova maneira de se fazer política — que inclui
não prometer aquilo que não se pode entregar.
Título, Imagem e Texto: Nuno
Vasconcellos, O Dia, 25-10-2026
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