domingo, 25 de outubro de 2026

O analógico e o digital na disputa do voto

Encerrada a campanha, fica claro que a polarização não se limitou à disputa entre a direita e a esquerda, mas também aos meios utilizados na campanha

Nuno Vasconcellos

A disputa pela presidência da República este ano foi a mais polarizada da história. Tão polarizada que, pode-se dizer sem medo de errar, a briga entre a direita e a esquerda se estenderá além da apuração e se prolongará pelo próximo mandato presidencial. Petistas e bolsonaristas levaram as divergências a um ponto irreconciliável e há 100% de chances de que o próximo presidente — não importa quem seja eleito — enfrente dificuldades para construir um consenso capaz de livrar o Brasil das dificuldades que o aguardam. As diferenças estão nos mínimos detalhes. Inclusive nos recursos de abordagem do eleitor utilizados pelas duas candidaturas.

Pode-se dizer que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro deu preferência às ferramentas digitais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, recorreu aos recursos mais analógicos possíveis na abordagem do eleitor. Não cabe, aqui, fazer qualquer juízo de valor nem considerar que um dos métodos de caça ao voto é mais moderno do que o outro. Afinal, os dois candidatos terminaram o primeiro turno praticamente empatados, chegam ao dia da eleição com chances de vitória e nem mesmo o debate promovido pela TV Globo na noite de sexta-feira foi capaz de revelar um favorito. 

PRIMEIRO TURNO

Flávio se apoiou nas ferramentas digitais porque não havia outra escolha a fazer. Sem passagem pelo Executivo, sem realizações importantes no currículo e com a candidatura lançada menos de um ano antes da eleição, Flávio tinha no sobrenome o principal (senão o único) recurso para se aproximar do eleitor.

Chegou aonde chegou porque, além do prestígio herdado do pai, foi hábil no uso dos recursos digitais — que seu grupo político manuseia com eficiência desde 2018. A campanha do PL captou a insatisfação da sociedade com os preços dos alimentos, a revolta diante das taxas de juros reais mais indecorosas do mundo, o medo da criminalidade, a lerdeza no combate à violência e a incapacidade das políticas públicas de atender às necessidades da população. E teve a competência de, por meio das redes sociais, traduzir essa insatisfação numa linguagem simples, direta e objetiva — que foi capaz de unir multidões em torno da necessidade de mudanças.

Os recursos digitais, no caso de Lula, não eram tão vitais quanto eram para Flávio. O presidente sempre pareceu tratá-los como uma forma de entretenimento para os jovens, não como um recurso de campanha. Desde o início, Lula parecia acreditar que o passado ancorado em suas passagens pelo Planalto e o medo do “bolsonarismo” que os petistas tentam incutir nas pessoas seriam trunfos suficientes para liquidar a fatura no primeiro turno.

Para ele, a legião de apoiadores que atuou como a linha de frente das vitórias do PT em cinco das seis eleições presidenciais realizadas no século 21 seria suficiente para assegurar mais uma vitória. E que as medidas populistas adotadas na reta final do atual mandato — que incluem a distribuição de botijões de gás, o perdão de dívidas e a repetição de promessas já feitas em eleições anteriores — bastariam para manter a fidelidade do eleitorado das regiões mais vulneráveis do país. Como se viu, a realidade não é tão simples como supõem os estrategistas do PT.

GENERAL DO LULA

Abertas as urnas e apurados os votos, ficou evidente que o currículo do presidente não bastava para encerrar a disputa no primeiro turno. Para conquistar o quarto mandato, o presidente teria que enfrentar o segundo turno, ao contrário do que houve nas três eleições anteriores, numa posição de desvantagem em relação ao candidato da oposição.

Com mais de 2 milhões de votos de desvantagem em relação ao adversário, a campanha petista acordou para a necessidade de recorrer aos meios digitais e criar uma estrutura capaz de levar o nome de Lula ao eleitorado mais jovem. O problema é que, ao seguir esse caminho, o presidente se cercou de pessoas que talvez não fossem as mais indicadas para a tarefa.

O nome que primeiro alimentou as esperanças da esquerda, logo após a divulgação dos resultados do primeiro turno, foi o da jovem Ana Elisa, de 21 anos, recém-eleita deputada federal pelo PT de Minas Gerais. A votação portentosa se explica pela eficiência no uso das redes — que garantiu a ela mais de meio milhão de votos. Só havia dois problemas.

O primeiro: bastou uma consulta ao histórico das postagens que conferiram prestígio eleitoral a Ana Elisa para se constatar um comportamento que, se foi eficaz para conquistar votos de esquerda, não combinava com a necessidade do presidente de conquistar a simpatia dos eleitores de centro e de direita. A jovem deputada eleita revelou-se uma mulher sectária, agressiva e defensora de métodos violentos para lidar com os adversários. O segundo problema é que, acima da jovem petista na preferência dos eleitores mineiros, estava o deputado Nikolas Ferreira (PL/MG).

Do alto de uma montanha de mais de 3,1 milhões de votos, Ferreira se firmaria como um dos nomes centrais da campanha de Flávio. Como seria mostrado nas semanas seguintes, ele resolveu usar a atração que exerce sobre os jovens nas redes sociais para arrastar multidões para a rua em apoio a Flávio Bolsonaro.

Descartada a conveniência de fazer de Ana Elisa a líder da estratégia digital da candidatura, o comando petista resolveu confiar a responsabilidade ao estridente deputado André Janones (Rede-MG) — que fez barulho demais para o pouco resultado que obteve com o tal Exército do Lula. Ainda que tenha reunido milhões de adeptos sob o comando do “General do Lula” (como o próprio Janones passou a se intitular), é difícil dizer que a estratégia tenha sido eficaz naquilo que se propunha: virar votos em favor do presidente.

A sorte foi lançada e resta, agora, saber qual dos dois candidatos foi capaz de atravessar o Rubicão para chegar à presidência da República. A lição que fica é a de que Lula confiou demais em conquistas do passado para lidar com uma geração que demonstra preocupações com o futuro. E o futuro cobra não só o uso de ferramentas modernas (e digitais) de relacionamento. Cobra também uma nova maneira de se fazer política — que inclui não prometer aquilo que não se pode entregar.

Título, Imagem e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 25-10-2026

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