quinta-feira, 15 de outubro de 2026

[Daqui e Dali] Como Eça explica a falta de patriotismo

Humberto Pinho da Silva

Como se sabe, o nacionalismo é o amor que se sente pela Pátria, onde se nasceu e se foi criado. Segundo José Maria Coloma (Léxico de Política), o termo equivale a patriotismo.

Eça assevera que o patriota, o que ama sua Pátria, o torrão onde nasceu e viveram os ancestrais, nunca pode ser cosmopolita.

Ao adquirirem idiomas, costumes, hábitos, e expressões de outros povos, o poliglota esquece lentamente a pátria, e a língua materna dilui-se em contacto com idiomas estranhos.

Certa ocasião, nos anos cinquenta, conheci jovem francesa que estudara em Bordéus, mas pouco conhecia além da pequena póvoa em que vivia. Um dia resolveu conhecer a terra dos antepassados e abalou para Portugal.

Tudo lhe parecia estranho, e não compreendia comportamentos e modos de pensar dos portugueses.

Como beijava todos que encontrava, lhe recomendaram a não o fazer, principalmente homens. Respondeu envergonhada:

“Desculpem, mas eu sou francesa, e beijar é a forma de cumprimentar na minha terra!"

Atualmente, com a globalização, o turismo, a vinda maciça de imigrantes, a sociedade europeia de raiz cristã se transformou. Hábitos se alteraram, assim como antigos valores e costumes que eram características de cada nação desapareceram.

Mas, leia-se o que disse Eça:

"Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: toda a outra deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na língua verdadeiramente reside a nacionalidade; e quem for possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa, vai gradualmente sofrendo uma desnacionalização. Não há já para ele o especial e exclusivo encanto da fala materna, com as suas influências afetivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do carácter. Por isso o poliglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desaparece, diluído em estrangeirismo”.  “Correspondência de Fradique Mendes."

Título e Texto: Humberto Pinho da Silva, outubro de 2026

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