domingo, 18 de outubro de 2026

[As danações de Carina] Ele, sempre Ele. O pão, e os pés na estrada

Carina Bratt

ELE NÃO VEIO de carro próprio, nem voando num avião último tipo, com o dinheiro roubado (ou afanado) dos irmãos da congregação, de todas essas criaturas com os olhos tapados e colados numa venda enorme (pior que a daquela vagaba que foi ‘batonizada’ por uma cabelereira. Ele não veio com a bufunfa que os humildemente imbecilizados por falsas promessas fazem a entrega em nome de uma oferta famigerada que vai para os bolsos de uma manada de filhos sem mãe e se transforma logo depois, em palácios, fazendas, sítios e polpudas contas bancárias em paraísos fiscais. Ele não veio de Uber, igual aos   mesmos pastores metidos a soberanos e que se julgam iguais ao Pai Maior, e também roubam e passam as mãos grandes descaradamente colhidos de envelopes e sacolinhas tirados dos fiéis.

Tampouco Ele pintou no pedaço de carona com ‘apoiadores’ nem ostentou uma coroa de ouro na cabeça e no pescoço, cordões caríssimos, e nos braços relógios importados dos Estados Unidos. Menos ainda Ele apareceu na praça sentado feito um nababo em uma carruagem ricamente enfeitada como nos tempos dos reis fajutos. O cara pintou simples, se enfeitou ‘maltrapilhado’, como qualquer um de nós: poeira nos pés, mãos calejadas, todavia, os olhos bem abertos que enxergavam o que ninguém mais via. Andou por ruas e estradas, trilhas e veredas, onde os pobres e depauperados, os esfomeados e os sem teto caminhavam curvados sobre a própria desgraça.

Transitou por atalhos e carreiros onde se viam doentes deixados às margens dos infortúnios e dissabores, largados a própria sorte e aos reveses e as desventuras do ‘deus dará’. Passou esse Homem por sendas atoladas em misérias e borrascas calamitosas, se feriu por dentro dando com sua face frenteada as mais diversas pragas e avarias, todas, sem tirar nem pôr, enlameadas em grau máximo da mais ultrajante objurgação, onde os corações flagelados e avariados, pesavam mais que as pedras de todos os caminhos percorridos por dias e noites sem um segundo de descanso. E não apareceu nenhum Drauzio Varela ou outro doutorzinho ‘meia boca’ para perguntar se ele necessitava de cuidados especiais. Da mesma forma, não escolheu palácios, nem casas e mansões de tirar o fôlego para falar do Reino. Do seu reino.

Preferiu montanhas simples, morros e encostas à beira do mar, onde o vento suave levava as suas palavras até aqueles que tinham ouvidos cansados de promessas vazias e os olhos obstruídos pela cegueira da infelicidade. Disse aqueles que se ajuntaram como seu público fiel, em alto e em bom som, que os humildes e os modestos, os mortiços e desvanecidos, que seriam exaltados, e que os que choravam seriam consolados. E deixou bem claro que ‘o maior entre nós é aquele que serve aos outros’. Era esse Ser diferente de todos os mestres: em vez de apontar o dedo, estendia a mão, ao ensejo de gritar, falava com suavidade e polidez. Em vez de julgar, dar canetas feito uma bicha louca e alucinada, tipo esses escorpiões carecas (as minhas leitoras já viram escorpiões carecas??). Ele se fazia cheio de uma alma radiante, pura e ao invés de olhos esbugalhados, a sua bondade infinita abrigava, hospedava e acolhia.

Ao se deparar com uma mulher sendo apedrejada disse com voz sonora e aconchegante:

— Quem aqui sem pecado, que atire a primeira pedra...

Se deparou mais adiante, com uma fila maior que a do INSS, bem ainda com os ‘envolvidos’ (entre aspas) na mentirosa patacoada falcatruada de 8 de janeiro de 2023 e os convidou a seguirem seu caminho.

Viu uma legião de ‘filhos perdidos’ e correu ao encontrá-los e antes mesmo que eles terminassem de se ajoelharem, os incitou a pedirem Perdão.

Sempre assim: se antecipando, amando primeiro, sem esperar que as pessoas fossem ‘dignas’ para serem amadas.

No final, pela burrice dos homens gananciosos, dos facínoras sem leis, dos engrandecimentos, dos poderosos e gananciosos que só queriam agarrar pelos cabelos o Poder, esse Homem não foi compreendido por muitos.

Por conta, se viu rejeitado, xingado, surrado, julgado, e por fim, pregado numa cruz como um criminoso comum. E ali, em meio à dor mais terrível, se dignou a orar sem pedir dinheiro ao Banco Master, ou comer com farinha a grana dos pobres, ou ainda a implorar por aqueles que o matavam:

— Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem...

Mas a história como todos nós sabemos, não terminou naquela pedra selada. O amor que o mundo pensou ter apagado voltou, renasceu vivo, se solidificou das cinzas e voltou engrandecido, fortalecido, inquebrantável, coeso, indestrutível, denso, e mais forte que a morte. E hoje, esse Homem não está num túmulo. Tampouco na Papuda. Ele se faz posicionado no coração de quem o busca, de quem propaga a bondade. Ele se faz ao lado de quem divide o pão, se fortifica no perdão de quem reconstrói o que foi sumariamente quebrado e transformado em escombros.

E até hoje, tantos e tantos anos, Ele continua caminhando. Não seguindo em frente como esses ministros impolutos e intocáveis, ratos de esgoto, cânceres malignos e incuráveis  que abundam no STF, bem entendido, os cognominados (Sem Ter Fé), menos ainda se amolda aos outros infindáveis urubus escrotos de outras pocilgas ou que se ajuntam a  um bando de deputados, senadores, governadores, enfim,  aos trocentos salafrários e picaretas, desonestos e embusteiros, enganadores e punguistas, menos ainda esse mesmo Homem que aqui trago à baila, se verá ladeado e ao convívio de  cafajestes e trapaceiros, de tubarões e lulas flibusteiras e calhordas, charlatões e chibancas, pilantras e salafrários. Esses tipos de estrumes e vermes peçonhentos de esgoto, de cobras vindas dos quintos do inferno e infames que se vendem por trinta moedas logo se verão prestando contas ao Deus Maior.

Às vezes esse Homem do qual acabei de falar, se apresenta disfarçado de estrangeiro, de doente, de leproso, de cego, de surdo e até mesmo de mudo.  Enfim, Ele se avulta, se nobilita, se centuplica, se diviniza e se manifesta honrado, e imortal, soberano ao vivo e a cores, para quem de fato, precisa de um copo de água, ou se mostra carente de uma simples xícara de café sem açúcar e um pedacinho de pão dormido. Por conta disso, em todos esses encontros, Ele sempre se deixa ser visto com aquele sorriso bonachão e imorredouro, e mansamente, costuma dizer a mesma coisa, repetitivamente, incansavelmente:

— Estive com fome e me destes de comer, estive com frio, e me deste um cobertor, estive doente e me visitastes. O que fizestes ao menor destes meus irmãos que padecem, a mim o fizestes.

Título e texto: Carina Bratt, de Vila Velha, ES, 18-10-2026

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