Lula comemorou a chegada do primeiro comunista ao STF. O que ele fez desde então explica a festa
Rogerio Pires
Nesta quarta-feira, o ministro Flávio
Dino abriu um inquérito no Supremo Tribunal Federal. Ninguém pediu. Nenhuma
autoridade com foro especial estava envolvida nos fatos. E, pelo despacho de 12
páginas, o relator escolhido foi ele mesmo.
O tema soa nobre: uma “aparente onda
de ataques” contra imagens religiosas. Só que das dez reportagens citadas como
base, apenas uma é posterior à decisão que ele tomou no domingo. As outras nove
estavam publicadas havia meses. Não eram urgentes até agora.
Então por que agora? Basta olhar o
calendário.
Na sexta, 25, André Mendonça,
vice-presidente do TSE, mandou tirar do ar posts que associavam Flávio
Bolsonaro a uma suposta intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título
de padroeira. A ordem ressalvava críticas, opiniões e sátiras.
No domingo, 27, Dino acolheu um pedido
do humorista Antonio Tabet e mandou os posts voltarem. Detalhe: fez isso dentro
de um processo do Supremo, passando por cima da Justiça Eleitoral.
Na segunda, Luiz Fux suspendeu a
decisão e criticou o método. E deixou uma pergunta no ar: “Faz sentido que este
Supremo Tribunal Federal determine a veiculação de notícia comprovadamente
falsa?”
Na quarta, nasce o inquérito das
imagens religiosas. No mesmo processo.
O ministro comunista
O rótulo não é meu. É dele. Em julho de 2019, ainda governador do Maranhão, disse numa entrevista: “Sou comunista, graças a Deus”. Em 2015, na TV Brasil, se definiu como socialista, comunista e marxista, e afirmou fazer o que Lenin recomendava. Foi filiado ao PCdoB de 2006 a 2021.
Em dezembro de 2023, na sabatina do
Senado, mais de um senador fez a ele uma pergunta simples: o senhor vai se
declarar impedido quando o caso envolver adversários políticos? O nome foi
aprovado. No dia seguinte, diante da juventude do PT, Lula comemorou. Pela
primeira vez na história, disse ele, o país conseguiu colocar na Suprema Corte
um ministro comunista.
Em fevereiro de 2024, na posse, Dino
prometeu exercer o cargo com imparcialidade e isenção.
Um presidente festeja a ideologia do
juiz que acabou de indicar. O juiz jura neutralidade.
Quase três anos depois, na
segunda-feira, 28, a mesma em que Fux desfazia a decisão de Dino sobre os
posts, Lula estava num hospital em Belém para sancionar uma lei que o ministro
apresentou quando era senador. No meio da cerimônia, pegou o celular, ligou
para Dino e encostou o aparelho no microfone. “Eu tô ao vivo aqui”, avisou, e
pediu ao ministro um alô para o povo do Pará. A voz de Dino não chegou ao
público. Alguém no palco anunciou que a ligação tinha caído. Nas redes, o vídeo
correu com outra versão: Dino teria desligado na cara do presidente ao perceber
que estava sendo transmitido.
As imagens não permitem dizer qual
versão é a verdadeira. Mas reparem no que as duas têm em comum. Ou o presidente
trata um ministro do Supremo como auxiliar que atende ao vivo em evento do
governo, ou o ministro sabe muito bem o quanto essa intimidade pega mal e fugiu
dela diante das câmeras. Em nenhuma das hipóteses existe distância. Em 2022, o
próprio Lula disse que ter amigo no STF não é democrático.
Na semana da eleição, é esse o juiz
que relata casos do principal adversário de Lula.
A PF
Em 8 de setembro, Mendonça afastou o
diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de
Inteligência, Leandro Almada, por suspeita de direcionamento político em
relatórios sobre o Banco Master e a fraude do INSS. Na Segunda Turma, Fux e Nunes
Marques já tinham votado para manter o afastamento.
Dino não era relator desse caso. Mas
tinha sob sua caneta outro processo, sobre emendas para o filme Dark Horse. Foi
por essa porta lateral que o próprio diretor-geral entrou com recurso. Em 24
horas, estava de volta ao cargo.
E Mendonça ainda foi acusado de
decidir “em causa própria”. Acusação curiosa, vinda de quem vinha.
O Maranhão já conhecia
Quem é do Maranhão não se surpreende.
Em 2016, José Sarney escreveu que o então governador usava polícia e Justiça
para destruir adversários. Na época, dava para tratar como briga de velhos
inimigos.
O problema é o que veio depois da
toga.
Carlos Brandão foi vice de Dino por
oito anos. Rompeu com ele. Quando Brandão tentou indicar seu advogado ao
Tribunal de Contas do Estado, um aliado histórico de Dino, o deputado Othelino
Neto, foi ao STF. O sorteio caiu com Dino. Ele não se declarou impedido. A
indicação travou.
Hoje, o sobrinho de Brandão disputa o
governo contra Felipe Camarão, pupilo político do ministro.
O jornalista e o carro
Em novembro de 2025, o jornalista
maranhense Luís Pablo publicou fotos de carros do Tribunal de Justiça do
Maranhão usados por familiares de Dino. A assessoria do ministro nega qualquer
uso irregular.
O que aconteceu depois não foi a
apuração do carro. Foi a apuração do jornalista.
Em março, o notebook dele foi
apreendido. A Polícia Federal acessou o WhatsApp Web e chegou à fonte: Raimundo
Cutrim, ex-secretário do governo Brandão, que já havia chamado Dino
publicamente de inimigo pessoal e político. A busca contra Cutrim foi autorizada
por Alexandre de Moraes. Mas Cutrim já estava afastado do cargo e em prisão
domiciliar desde julho, por decisão de Dino, em outro processo.
Luís Pablo escreveu ao presidente do
STF que, depois de tudo, não surgiu uma única prova de que ele perseguiu ou
monitorou o ministro. O carro, até onde se sabe, segue sem investigação.
Pense nisso da próxima vez que alguém
disser que a imprensa é livre para fiscalizar o poder.
A escala nacional
Nas emendas parlamentares, Dino
bloqueou R$ 119 milhões de Valdemar Costa Neto, presidente do partido de Flávio
Bolsonaro, e mandou à PF as explicações dos dirigentes partidários.
Transparência nas emendas é bandeira que eu defendo há anos. Mas transparência
não combina com relator que escolhe o próprio caso, entra por porta lateral no
processo alheio e não se afasta de quem trata como inimigo.
Hoje, a defesa de Flávio Bolsonaro
pediu a Edson Fachin que tire de Dino os processos que envolvem Lula, a eleição
e o principal adversário do presidente. Faltam quatro dias para o primeiro
turno.
Aquela pergunta da sabatina finalmente
foi respondida. Não com palavras. Com decisões.
A resposta foi não.
E talvez essa nem seja mais a pergunta
que importa. Há poucos dias, dirigentes do PSB disseram à Folha que Dino seria
recebido de braços abertos se deixasse o Supremo, e gente do próprio governo
enxerga no protagonismo dele a pavimentação de uma candidatura em 2030. Entre
os partidos de esquerda, o nome já circula como herdeiro de Lula. Oficialmente,
não há candidatura anunciada nem sinal de que ele pretenda largar a toga. Mas
se a hipótese se confirmar, o Brasil terá assistido a um futuro candidato à Presidência
passar anos decidindo, de dentro do Supremo, o destino de quem pode vir a
enfrentá-lo nas urnas. Aí não será só o Supremo que ele vai achar que é dele.
Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 1-10-2026
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Nova Padroeira
“Lula fala muito. E, cada vez mais, quando fala, é uma metralhadora de bobagens”
🚨Urgente: quem pediu ao Instagram para censurar minha reportagem no Brasil?
29-9-2026: Oeste sem filtro – Fux derruba decisão de Dino e proíbe notícias falsas sobre a Padroeira + Nunes Marques critica interferência do STF no TSE

Me dá um beijinho, pino, ou vou agarrar no seu pino. Sé é que você tem pino. Você está mais pra uma bicha velha, balofa e gorda. E esse letreiro ai atrás, STF não me deixa mentir. Significa "Sou Toda Feminina".
ResponderExcluirAparecido Raimundo de Souza