A herança maldita que Lula deixou para si mesmo, o general da mentira e os primeiros sinais de uma crise anunciada estão entre os destaques desta edição
Caro leitor,
"A procura pela cidadania italiana triplicou esta semana”, explicou uma atendente de uma empresa especializada ao se desculpar pela demora em responder a uma mensagem. Já as buscas no Google por “como morar no Paraguai” cresceram 1.700% na noite de 25 de outubro, data do 2º turno, de acordo com o Google Trends. Nas 48 horas seguintes ao dia da eleição, a Frontexa, consultoria especializada na instalação de empresas no Paraguai, afirmou ao site Poder360 que foi procurada por 25 empresas. De janeiro a setembro, esse número não havia chegado a 100.
“É um termômetro da expectativa dos brasileiros sobre ter que sobreviver em mais quatro anos de governo Lula”, observa Alexandre Garcia. O desespero de grande parte da população é compreensível. Como mostra Eugênio Esber na reportagem de capa desta edição, além das incontáveis dúvidas que cercam a votação, a campanha pela reeleição foi marcada pela compra de votos disfarçada de auxílio social e por uma avalanche de mentiras nas redes sociais.
Só neste ano eleitoral, Lula criou 51 novas medidas com impacto no Orçamento federal que somaram, segundo levantamento do Estadão, mais de R$ 405 bilhões. Passados poucos dias do fim do pleito, o próprio Lula reconheceu a dificuldade de arcar com boa parte dessas promessas. Fábio Matos destaca que o dia seguinte à reeleição foi “o prenúncio do caos econômico que se avizinha”. O mercado financeiro entrou em pânico, e o Ibovespa desabou quase 14%. “Foi o pior resultado diário desde março de 2020, no início da pandemia de covid-19, e a terceira maior queda da história da bolsa brasileira”, explica.
Diferentemente do que faz desde 2003, quando estreou no Planalto, agora Lula não terá a quem culpar pela “herança maldita” que ele mesmo criou. A expressão foi usada pela primeira vez para se referir ao legado deixado por Fernando Henrique Cardoso. Mas Lula sabia que a história não era bem assim. Três meses depois da posse, o ministro Antônio Palocci telefonou para FHC para agradecer, “em nome do presidente”, pelo país que haviam recebido: economicamente organizado e com a estabilidade de preços promovida pelo Plano Real.
A história da herança maldita foi uma das mais duradouras mentiras usadas por Lula para enganar o eleitorado e tirar vantagem política. Neste ano, contudo, a tarefa de espalhar falsidades foi terceirizada para o deputado federal André Janones, promovido a general da mentira. “Em junho, ao participar de evento com militantes do PT, Janones deu palestra sobre como criar ‘versão dos fatos’”, conta Anderson Scardoelli . “Deixou claro que a qualidade do conteúdo, assim como a veracidade das histórias, pouco importa. ‘Estou me lixando se dizem que baixo o nível’, disse. ‘Razão não ganha eleição, nunca ganhou e nunca ganhará’.” André Janones é a cara da campanha de Lula à reeleição.
O deputado federal da Rede é um exemplo do que Guilherme Fiuza chama de “virtuosos de redes sociais” — aqueles que defendem a democracia trabalhando pelo autoritarismo. Mas quem enxerga a realidade fora das bolhas sabe que “nada que começa errado tem muita chance de terminar bem”, como diz a reportagem assinada por Adalberto Piotto e Sarah Peres . “Depois de gastar mais de R$ 400 bilhões no que pode ser definido como o maior caso de abuso de poder econômico e político de uma reeleição na história do mundo, Lula ganhou a presidência pela quarta vez, mas perdeu o Brasil.” No caso, o Brasil é representado por um Congresso majoritariamente de oposição.
A nova composição do Parlamento também preocupa integrantes do Supremo Tribunal Federal. Eles sabem que seus abusos poderão encontrar mais resistência. Vivemos tempos estranhos, em que “a Constituição é diariamente mandada às favas por ministros do Supremo encarregados de preservá-la”, escreve Augusto Nunes. A “Lei de Gérson”, expressão que designa a esperteza de quem sempre quer levar vantagem em tudo, “foi promovida a Carta Magna das incontáveis tribos de espertalhões especializados em vantagens imorais, favores obscenos, propinas multimilionárias, ladroagens amazônicas e outros tipos de assassinato da honradez”.
Por enquanto, dezenas de perguntas continuam sem resposta. As desconfianças são maiores que as certezas. Mas uma coisa é certa: vencer uma eleição não transforma irregularidades em virtudes, nem absolve quem as cometeu. E, se forem comprovados os métodos espúrios usados para conquistar a vitória, o que parecia apenas malandragem poderá revelar-se um caso de estelionato eleitoral.
Boa leitura.
Branca Nunes
Diretora de Redação

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