Carina Bratt
ENTRE OS LIVROS da minha humilde
biblioteca, outro dia dando uma limpeza geral, achei um livro do escritor
italiano Fábio Volo (Nome verdadeiro de Fábio Bonetti) que me chamou a atenção,
não pela história contada por ele, mas pelo título. No livro de Fábio, ele
narra a história de um homem que luta com todas as forças para sair da pobreza
e reconquistar o afeto da família.
Diferente do meu tempo, desse meu tempo
de agora, desse meu tempo que eu queria, ou melhor, que eu quero e almejo, e
por conta dele, vivo cada minuto como se o próximo segundo fosse o último.
Ficou assim. Espero que gostem.
Há um tempo dentro de mim, que eu sempre
busquei. Ele não está no relógio da minha parede, perto do piano na sala, nem
no calendário lá na cozinha, de braços dados com a geladeira, sinalizado com um
bocado de datas importantes grafados com caneta esferográfica de cor vermelha.
Esse tempo está num lugar em meu interior, no fundo mais profundo do meu âmago.
É aquele tempo que às vezes dói só de lembrar, ou melhor, de olhar para ele.
Penso no meu pai Francisco, homem de
farda, de passo firme e palavras retas. Ele sabia o valor de cada minuto, como
se o tempo fosse uma ordem a ser sumariamente cumprida.
Papai partiu antes que eu pudesse lhe devolver um pouco de tudo o que ele me ensinou. Hoje, quando o procuro, o encontro sorrindo apenas no meu silêncio, naquele silêncio que ficou, no jeito dele andar que herdei, nas lições de vida que ainda me guiam. Queria, na verdade, mais tempo com ele, tipo assim, tempo de ouvir de novo as suas histórias, de ouvir agarrada em seu peio, as suas músicas, (ele amava Nelson Gonçalves. Tinha todos os discos, naquele tempo os famosos bolachões. Papai amava também o cantor Onésimo Gomes (‘Noite alta, céu risonho, a quietude é quase um sonho...’) sentar ao seu lado aninhada em seu colo, na rede do quintal debaixo do abacateiro e sem pressa, só para dizer: ‘obrigado, meu ‘papito’, por você existir e sobretudo, por ser meu exemplo imorredouro de vida e meu chão’’.
E a minha mãe? A minha princesa Marcela
ainda está aqui, graças ao bom Deus, mas o seu tempo de vida já não é o mesmo.
A memória vai se apagando devagar, aos poucos, num gradativo lento e
irreverente e pior, sem volta, como uma luz que se esvai. Às vezes me
reconhece, às vezes não. Cuido dela com todo o amor que tenho, (pago duas
enfermeiras que cuidam dela quando viajo) mas há noites em que o meu coração
aperta: não pelo que ela esqueceu, mas pelo que eu ainda queria viver com ela,
e que agora sempre alguma coisa que deixo de fazer, me escapa por entre os
dedos como um punhado de areia.
O tempo com ela eu sei, é agora, o tempo
dela é o já neste ou deste instante, porque o amanhã, por Deus, o porvir
incerto não me promete nada além do que eu possa dar hoje, no agora do meu
corrido cotidiano. E os medos? São tantos! O amanhã sempre bate à porta com
perguntas que eu não sei responder. Temo que o tempo passe rápido demais, que
voe e que eu não seja uma filha suficiente, perfeita e justa, uma filha
presente, e que os dias dela e os meus se tornem pesados demais para serem
carregados. Mas então eu olho para o meu agora. E ele, o meu agora, tem um
nome: Aparecido, ou simplesmente Apa.
Trabalho ao seu lado, e entre uma tarefa
e outra, entre as nossas viagens intermináveis país afora, entre um embarcar e
outro, há confiança mútua, respeito, um caminho reto e sem barreiras que
construímos juntos. Esse cara de setenta e três anos nas costas, uma ‘renca’ de
filhos e netos, seria o marido ideal. Ele me escuta, me valoriza, às vezes fica
ao meu lado sem pressa de ir embora, dorme no meu chão, outras vezes
amanhecemos agarrados na rede e faz do meu pedaço a sua própria casa e faz
melhor. Faz com que cada dia, euzinha tenha um sentido novo, um sentido de
força diferente, de um tempo que vai muito além do relógio bater. Estou aqui,
presente, com ele, sempre com ele, sou uma secretária útil, respeitada e isso,
acima de tudo, todas essas coisas que o Pai Maior me deu, entendo, são
presentes que eu aprendi a abraçar.
No fundo, o tempo que eu queria é meigo,
sutil, sem atropelos, sem contratempos. É na verdade, um tempo ‘meio-muito’,
simples: tipo um porvir risonho, onde não haja mais dores que pesem demais, nem
desgostos que tirem o meu sono e me descabelem a alma e me arranquem a paz
deixando em seu lugar, os dissabores e as intempéries que atropelam a alma e
ferem o coração. Quero um tempo onde as lembranças sejam apenas abraços que não
esfriam, onde o ‘hoje-agora’ seja suficiente, e onde o amanhã chegue leve, sem
surpresas desagradáveis, como uma manhã clara de sol bonito e o meu sol no
horizonte que vejo da minha varanda, me mostre um ‘céu de brigadeiro’.
Não peço muito. Rogo apenas pelo
necessário. Apenas imploro ao meu Deus Maior, que o tempo que tenho, o tempo
que ainda me resta (notadamente o tempo da minha convivência com mamãe Marcela)
seja doce para mim, seja acolhedor, e seja, acima de tudo, imorredouro. Ad
aeternum, enfim, para os que amo, e para todos os que, de uma forma ou de
outra, caminham lado a lado comigo.
Título e Texto: Carina Bratt, de Governador Valadares, Minas Gerais, 1-11-2026
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