domingo, 1 de novembro de 2026

[As danações de Carina] O Tempo que eu queria

Carina Bratt

ENTRE OS LIVROS da minha humilde biblioteca, outro dia dando uma limpeza geral, achei um livro do escritor italiano Fábio Volo (Nome verdadeiro de Fábio Bonetti) que me chamou a atenção, não pela história contada por ele, mas pelo título. No livro de Fábio, ele narra a história de um homem que luta com todas as forças para sair da pobreza e reconquistar o afeto da família. 

Diferente do meu tempo, desse meu tempo de agora, desse meu tempo que eu queria, ou melhor, que eu quero e almejo, e por conta dele, vivo cada minuto como se o próximo segundo fosse o último. Ficou assim. Espero que gostem. 

Há um tempo dentro de mim, que eu sempre busquei. Ele não está no relógio da minha parede, perto do piano na sala, nem no calendário lá na cozinha, de braços dados com a geladeira, sinalizado com um bocado de datas importantes grafados com caneta esferográfica de cor vermelha. Esse tempo está num lugar em meu interior, no fundo mais profundo do meu âmago. É aquele tempo que às vezes dói só de lembrar, ou melhor, de olhar para ele.

Penso no meu pai Francisco, homem de farda, de passo firme e palavras retas. Ele sabia o valor de cada minuto, como se o tempo fosse uma ordem a ser sumariamente cumprida.

Papai partiu antes que eu pudesse lhe devolver um pouco de tudo o que ele me ensinou. Hoje, quando o procuro, o encontro sorrindo apenas no meu silêncio, naquele silêncio que ficou, no jeito dele andar que herdei, nas lições de vida que ainda me guiam. Queria, na verdade, mais tempo com ele, tipo assim, tempo de ouvir de novo as suas histórias, de ouvir agarrada em seu peio, as suas músicas, (ele amava Nelson Gonçalves. Tinha todos os discos, naquele tempo os famosos bolachões. Papai amava também o cantor Onésimo Gomes (‘Noite alta, céu risonho, a quietude é quase um sonho...’) sentar ao seu lado aninhada em seu colo, na rede do quintal debaixo do abacateiro e sem pressa, só para dizer: ‘obrigado, meu ‘papito’, por você existir e sobretudo, por ser meu exemplo imorredouro de vida e meu chão’’.

E a minha mãe? A minha princesa Marcela ainda está aqui, graças ao bom Deus, mas o seu tempo de vida já não é o mesmo. A memória vai se apagando devagar, aos poucos, num gradativo lento e irreverente e pior, sem volta, como uma luz que se esvai. Às vezes me reconhece, às vezes não. Cuido dela com todo o amor que tenho, (pago duas enfermeiras que cuidam dela quando viajo) mas há noites em que o meu coração aperta: não pelo que ela esqueceu, mas pelo que eu ainda queria viver com ela, e que agora sempre alguma coisa que deixo de fazer, me escapa por entre os dedos como um punhado de areia.

O tempo com ela eu sei, é agora, o tempo dela é o já neste ou deste instante, porque o amanhã, por Deus, o porvir incerto não me promete nada além do que eu possa dar hoje, no agora do meu corrido cotidiano. E os medos? São tantos! O amanhã sempre bate à porta com perguntas que eu não sei responder. Temo que o tempo passe rápido demais, que voe e que eu não seja uma filha suficiente, perfeita e justa, uma filha presente, e que os dias dela e os meus se tornem pesados demais para serem carregados. Mas então eu olho para o meu agora. E ele, o meu agora, tem um nome: Aparecido, ou simplesmente Apa.

Trabalho ao seu lado, e entre uma tarefa e outra, entre as nossas viagens intermináveis país afora, entre um embarcar e outro, há confiança mútua, respeito, um caminho reto e sem barreiras que construímos juntos. Esse cara de setenta e três anos nas costas, uma ‘renca’ de filhos e netos, seria o marido ideal. Ele me escuta, me valoriza, às vezes fica ao meu lado sem pressa de ir embora, dorme no meu chão, outras vezes amanhecemos agarrados na rede e faz do meu pedaço a sua própria casa e faz melhor. Faz com que cada dia, euzinha tenha um sentido novo, um sentido de força diferente, de um tempo que vai muito além do relógio bater. Estou aqui, presente, com ele, sempre com ele, sou uma secretária útil, respeitada e isso, acima de tudo, todas essas coisas que o Pai Maior me deu, entendo, são presentes que eu aprendi a abraçar.

No fundo, o tempo que eu queria é meigo, sutil, sem atropelos, sem contratempos. É na verdade, um tempo ‘meio-muito’, simples: tipo um porvir risonho, onde não haja mais dores que pesem demais, nem desgostos que tirem o meu sono e me descabelem a alma e me arranquem a paz deixando em seu lugar, os dissabores e as intempéries que atropelam a alma e ferem o coração. Quero um tempo onde as lembranças sejam apenas abraços que não esfriam, onde o ‘hoje-agora’ seja suficiente, e onde o amanhã chegue leve, sem surpresas desagradáveis, como uma manhã clara de sol bonito e o meu sol no horizonte que vejo da minha varanda, me mostre um ‘céu de brigadeiro’.

Não peço muito. Rogo apenas pelo necessário. Apenas imploro ao meu Deus Maior, que o tempo que tenho, o tempo que ainda me resta (notadamente o tempo da minha convivência com mamãe Marcela) seja doce para mim, seja acolhedor, e seja, acima de tudo, imorredouro. Ad aeternum, enfim, para os que amo, e para todos os que, de uma forma ou de outra, caminham lado a lado comigo.

Título e Texto: Carina Bratt, de Governador Valadares, Minas Gerais, 1-11-2026 

Anteriores: 
Os pássaros não cantam mais 
Ele, sempre Ele. O pão, e os pés na estrada 
[As danações de Carina] Vazia de mim mesma tentando me achar no que ‘ainda não me descobri’ 
A ferida invisível 
Oração dos ‘Sete Esses’

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-