João José Brandão
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| O Terramoto de 1755, João Glama Ströberle, 1756-1792 (?), Museu Nacional de Arte Antiga |
"Quosque tandem ó Catilina abutere patientia nostra?"
Marco Túlio Cícero
Notícia de última hora, divulgada pela agência Lusa, dá conta que o historiador (?!) Fernando Rosas terá descoberto um documento na Torre do Tombo – com sinais evidentes de ter sido submerso em água e lama – que mostra claramente como o “ditador” António de Oliveira Salazar quis ocultar, ao oprimido povo português, o número de mortes e destruição, ocorridos no fatídico abalo sísmico de 1 de novembro de 1755.
Faz agora 271 anos!
Logo que soube desta notícia a fogosa Catarina, do Bloco Canhoto, veio perorar sobre a miserável censura do “Estado Novo” e que a célebre frase – convenientemente atribuída a Pombal, mas na realidade proferida pelo Marquês de Alorna – “sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos”, devia ser reescrita para, “há que desenterrar os mortos, abrir os portos e pôr os vivos a bife com batatas fritas, a fim de escancarar toda a tragédia (talvez assim o BCE pudesse ir na treta de reavaliar o pagamento da dívida…)!
Mas o “PêCê”, pela boca do seu
maestro Raimundo veio, prestes, contrapôr que a ideia era sua e o que é preciso
fazer é aumentar o salário-mínimo para todos os mortos e vivos, desde aquela
funesta data, para 1.000 cruzados, digo euros! (e oferta de uma “maison”, a
todos os desafortunados da vida – obviamente vítimas do Capitalismo).
O PR questionado sobre o assunto respondeu que só falava quando lhe chegasse às mãos tão precioso documento; que se houvesse democracia sabia-se tudo e que, provavelmente, se tinha conseguido salvar o papiro dos incêndios havidos nessa altura, por a Protecção Civil funcionar melhor que em Pedrógão Grande.
Estava, também, pronto a condecorar em estátua, o bombeiro voluntário que salvou o documento, no próximo 10 de Junho e a convidar o antigo “palrador – mor do reino” a tirar uma “selfie” com ele (bombeiro), a título póstumo.
Quando soube disto a Fundação à volta do Aristides Sousa Mendes (que ele jura, nada ter a ver com ele), emitiu um comunicado dizendo que os bombeiros, na época, eram maioritariamente de origem judaica, pelo que foram certamente escondidos e protegidos pelos antepassados do grande cônsul de Bordéus, também ele perseguido e exautorado pela negregada figura nascida naquela obscura aldeia do Vimieiro.
Requeria ainda, que a condecoração e a “selfie”, fossem depositadas no recém-inaugurado, logo fechado e depois reaberto, museu (da “fronteira da Paz”) de Vilar Formoso.
O porta-voz do Conselho de Ministros referiu que o tal documento do Rosas tinha sido salvo “in extremis”, das caves da residência oficial de S. Bento, justamente por causa das cheias de 1967, em que, como se sabe – apesar de ter vindo tudo escarrapachado nos jornais, rádios e televisão – o governo de então tentou ocultar, da população, a tragédia causada pelas inundações, o que hoje obviamente não ocorreria (nem a ocultação, tão pouco as inundações!). Porém, e lamentavelmente, na altura, não se encontraram notas de escudos perdidas em cofres sem ninguém saber a quem pertenciam.
Lembra ainda (o tal porta-voz), que além do documento, a senhora Maria, governanta à altura, ainda conseguiu pôr a salvo as galinhas poedeiras que forneciam os ovos frescos para a mesa do “Senhor Professor” (o homem era mesmo um provinciano, quem se lembraria de ter um galinheiro nos jardins da residência oficial do PM – ria-se com vontade o porta-voz).
Na sequência, o programa sexta às nove, resolveu fazer uma investigação e promoveu uma sessão espírita/mediúnica, junto a um local onde reza a tradição, se abriu uma vala comum para enterrar os mortos do terramoto seguido de maremoto – consta ainda no tal documento do isento Rosas, que nas cheias de 1967, também se abriram valas comuns, mas agora para evitar que os mortos fossem enterrados nos cemitérios e, desse modo, o povo se desse conta do seu elevado número!
Desta feita a equipa do programa parece ter conseguido entrar em contacto com uma das almas penadas que ocorreu à chamada e que era nada mais, nada menos, que um estudante do antigo Colégio de S. Antão – hoje Hospital de S. José – que contou que os estudantes de então, se organizaram (contra a vontade dos mestres, vejam só!) para ajudar no socorro e na reconstrução da cidade (e se fosse hoje tinham fechado o portão da escola a cadeado, ora toma!).
Referiu ainda, como a visão da catástrofe o influenciou na tomada de consciência cívica e política – uma verdadeira pancada na testa, confessou – e como tal o fez ver as atrocidades do “Absolutismo” e a escuridão em que viviam, o que os levou, mais tarde, a ajudarem o Sebastião José a expulsar os Jesuítas!
O Edil de Lisboa, Carlos Moedas, veio a terreiro dizer que as forças de repressão, capitaneadas pelo esbirro Pina Manique, tinham andado a esconder os cadáveres e a açoitar os desgraçados que recolhiam os haveres alheios, numa tentativa desesperada de sobrevivência, acusando-os de serem ladrões; e que um investigador camarário tinha encontrado, nos recônditos da edilidade, uma denúncia em que já se mencionava terem sido aqueles que hoje se designam por comunidade “LGBT”, etc., os mais perseguidos…
E prometeu, alto e bom som, que mesmo antes de construir uma verdadeira “Kasbah”, Mouraria acima, ia apresentar uma proposta na próxima reunião da Assembleia Municipal, no sentido da estátua do colonialista Afonso de Albuquerque, sita na Praça do Império – de vergonhosa memória – seja substituída pela expressão, em bronze, da “fúria e solidariedade estudantil”.
Á praça seria agora, dado o nome de “Mártires das cheias e oprimidos dos terramotos”!
Para comemorar a mudança será organizado um ágape na Basílica da Estrela – agora que o Panteão Nacional foi vedado a tais eventos – cheia de passadeiras pintadas com os símbolos da Bandeira Nacional, inspirado na decoração de um hotel de luxo há poucos anos inaugurado na Invicta, e a bem do turismo. Patriótico, já se vê!
A “Comichão para a Igualdade de Género” veio, de pronto, a terreiro e de dedo em riste, lembrar que o número de mortos nas cheias e terramotos deve ser rigorosamente igual: ou seja, não pode haver mais homens mortos que mulheres e vice-versa!
Benevolente, o primeiro entre os ministros, que temos, Montenegro de sua graça – que foi antecedido por alguém orgulhosamente descendente da diáspora indiana (presumivelmente, brâmane) – e para não ficar atrás, respondeu que, naturalmente, o Governo já tinha enviado recomendação nesse sentido e que tal argumento tinha já sido usado para conseguir a vinda da Agência Europeia do Medicamento para o Porto, o que foi chumbado pela ação deletéria da Direita mais reacionária.
Ao saber da ideia da remoção da estátua do antigo “Leão dos Mares”, o Conselho de Chefes Militares, entendeu ser seu dever – como se num “Estado de Direito Democrático” fosse suposto os militares terem deveres, além de estarem estritamente calados – promover o “Marte Português”, simultaneamente, a Marechal e Almirante.
Para tal já estavam a diligenciar o parecer da PGR; de todas as organizações de “Verdes” existentes e a sondar o quarto secretário do Ministro das Finanças, se era possível dar um jeito na verba!
Tendo encontrado um microfone
voador (devia ser um “drone”), á saída da “feira do aranhiço”, em Alguidares de
Baixo, o antigo e prosélito PR, em que o sacrificado povo português votou,
inquirido pelo microfone, sobre o que se estava a pensar fazer à estátua do
Albuquerque, referiu achar a ideia “interessante”, apesar do Palácio de Belém
nunca ter sido afectado por nenhum abalo sísmico ou, de resto, qualquer outro,
e embora apenas estivesse ali para falar sobre os aranhiços.
Embora confessasse, que o fazia a medo, pois parece “que o tipo era bruto, tinha um mau feitio dos diabos e não era para brincadeiras”…
Mas claro, que dizia isto sem se querer imiscuir nos poderes do Poder Local, aliás uma das maiores conquistas de Abril. Longe disso, abrenúncio!
Parece que ninguém se lembrou
de perguntar ao atual inquilino de Belém (o nosso “tó zé”) o que pensava,
certamente com receio de que a resposta coubesse numa destas (exclusivas)
respostas: “uma declaração em branco – passível de ser conectada a um célebre
filme subsidiado, de João César Monteiro, que não continha uma única imagem
(apenas um fundo negro); uma circunferência, com o significado de redondo; a
frase “dadas as circunstâncias passei a gostar de tudo o que vejo”.
Perante tudo isto, o Bardo Alegre compôs uns versos, logo premiados pela Sociedade Portuguesa de Autores.
E, assim, vamos vivendo todos contentes.
Ó Catilina…
1 Até quando, ó Catilina, vais
abusar da nossa paciência?
2 Diz-se que esta última
reivindicação tem a ver com pressões das alas mais trotskistas e anarquistas,
da coisa…
3 O filme do tal César
Monteiro chamava-se “Branca de Neve”, e o autor quando questionado
relativamente à evidência de que um filme era caracterizado por ter imagens,
que contavam uma história ou narrativa, respondeu mandando todo o mundo abaixo
de Braga. É lindo de se ver…
Título e Texto: João José Brandão Ferreira é Tenente-coronel piloto
aviador (Ref.), comandante de Linha Aérea (Ref.) e mestre em Estratégia pelo
ISCSP. Foi colaborador de quase todas as revistas militares portuguesas e de
alguns jornais, tendo já publicado mais de 1600 artigos e efetuado mais de 100
conferências. É autor de várias obras editoriais, entre elas ‘A Evolução do
Conceito Estratégico Ultramarino Português’ e ‘A Inserção das Forças Armadas na
Sociedade’. ContraCultura,
1-11-2026

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