Miguel A. Baptista
A embaixadora de Portugal na Rússia apresentou as suas
credenciais sem cumprimentar Vladimir Putin
O gesto não foi ostensivo,
mas, ainda assim, parece-me um erro.
A diplomacia existe precisamente para funcionar quando a afinidade política é inexistente ou mesmo quando há hostilidade aberta. A História oferece exemplos eloquentes disso. Durante a Segunda Guerra Mundial, o embaixador alemão na União Soviética, Friedrich-Werner von der Schulenburg, apesar do choque ideológico absoluto entre os dois regimes, manteve relações pessoais corretas e até cordiais com Molotov. Esse respeito não significava concordância; significava civilização.
O mesmo se passou com Percy
Lorraine, embaixador britânico em Itália, que foi sempre tratado com cortesia e
urbanidade por Galeazzo Ciano, ministro dos Negócios Estrangeiros e genro de
Mussolini. Também Joseph Grew, embaixador dos Estados Unidos no Japão, foi
consistentemente tratado com extrema correção pelas autoridades nipónicas,
mesmo num contexto de crescente antagonismo que acabaria em guerra aberta.
Estes exemplos lembram-nos
algo essencial: o código diplomático não é um detalhe cerimonial nem um
resquício anacrónico. É uma conquista civilizacional. A sua função é
precisamente sobrepor-se à animosidade política, criando um espaço mínimo de
respeito que permita comunicação, contenção e, em última instância, a
possibilidade de evitar o pior.
Num mundo cada vez mais polarizado, emocionalmente inflamado e, em muitos aspetos, civilizacionalmente em regressão, a preservação desses códigos deveria ser mais importante do que nunca. Quando até os gestos elementares de cortesia são sacrificados em nome da sinalização moral ou do aplauso fácil, não é a firmeza que ganha, é a barbárie que avança.
Título e Texto: Miguel A. Baptista, Corta-fitas, 17-1-2026
🗓️ Hoje, em Moscovo, na Sala Aleksandrovski do Grande Palácio do Kremlin, o Presidente Vladimir Putin recebeu as cartas credenciais de 32 chefes de missões diplomáticas estrangeiras.
— Embaixada da Rússia (@EmbaixadaRusPt) January 15, 2026
Entre eles estava a Embaixadora de Portugal Sara Feronha Martins 🇵🇹
🔗 https://t.co/IgeDLzocaf pic.twitter.com/UkjB1gPDXW
Das senhoras embaixadoras creio ter sido a única que não apertou a mão a Putin.
Estaria com gripe?
Fernando Lopes

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