domingo, 4 de janeiro de 2026

[As danações de Carina] Bastidores

Carina Bratt

NOS BASTIDORES, a vida acontece em silêncio. Enquanto o palco brilha, iluminado por refletores e aplausos, há sempre uma cortina que esconde o verdadeiro espetáculo: o improviso, o nervosismo, o riso contido, os palavrões, o café frio esquecido sobre a mesa, o sanduiche que alguém deixou pela metade e uma baratinha simpática e faminta insistindo em rondar medrosa e não querendo ser vista. É nos bastidores que se revelam as pequenas grandes verdades.

É ali também que o ator repete mentalmente as suas falas como quem recita uma oração de fé. A costureira que ajeita o último botão com mãos firmes, tem no peito o coração acelerado. O técnico de som que, invisível ao público, segura o fio da tensão como quem resguarda uma ‘pica’ imensa do destino de todos. Se ele falha, nossa, se ele falha... certamente o diretor geral lhe dará uma chamada de tirar o fôlego, além da banana enfiada à guisa de comida de rabo.

Nos bastidores não há disfarces ou máscaras, capotes ou embuços, apenas pessoas. Ali, os heróis, os destemidos, os paladinos e os defensores são apenas pessoas frágeis com medo de esquecer as respectivas falas. A vilã, a megera, a bruxa uau!... essa beldade é uma moça linda e charmosa que sonha em chegar cedo em casa para assistir, se não ferrar no sono, mais um episódio da série ‘Sempre dentro do meu coração’.

O figurante principal é o sujeito que mais ri. Parece uma hiena tresloucada, porque sabe que a sua presença, mesmo discreta, ou às vezes até quase apagada, sustenta o cenário inteiro. E quando a cortina se abre, o público vê apenas o espetáculo saído de dentro da enorme caixa teatral. Quem já esteve nos bastidores sabe: é ali nas coxias que mora a essência, o âmago, o sustentáculo, a sutileza.

É ali, mesmo norte, com a cortina escancarada, que o público, (cada um ao seu modo e ritmo), dá de cara, se vê frente a frente com seu próprio papel desempenhado no cotidiano da vida. É ali que a plateia descobre e se depara que o amanhã não existe. Tudo é apenas um futuro imaginário que criamos dentro de nós com a esperança imorredoura de um porvir que talvez nunca chegue. 

O palco não visto é o sonho, é a fuga da realidade, é a escapatória, ou a digressão para trazer à tona os pensamentos adormecidos. Em face disso, nos fios escondidos dos bastidores, a vida é real, é mentirosa, às vezes faz surgir coisas inimagináveis. E é exatamente ali, no escondidinho, longe dos esbugalhos do grande público espectador, fora do alcance das câmeras, onde tudo acontece distanciado e divorciado da realidade que nos aprisiona.

Talvez seja assim com todos nós. O que mostramos ao mundo, no dia a dia, é apenas sobras de um palco. É nos bastidores, ou grosso modo, na cozinha bagunçada, no banheiro sujo e sem a devida preocupação de se puxar a descarga, ou no quarto de dormir, depois daquela ‘trepada memorável’, a cama suada se veja bagunçada, o lençol de rosto amarrotado, os travesseiros deitados no chão, envoltos nas conversas interrompidas, ou nos pensamentos que ninguém escuta, que se desenrola a verdadeira história.

Nos bastidores, a ordem é simples: nada sai como planejado. Enquanto o público se deleita com um espetáculo impecável, no atrás da cortina reina o caos organizado, ou melhor dito, o desorganizado. Antes de entrar em cena, o ator principal esquece a fala e resolve improvisar, citando uma poesia desconhecida de Mário Quintana, ou Cecília Meireles. Como ninguém liga para a cultura... tanto faz ele mandar bala em Cora Coralina ou Adélia Prado.  

Ou ainda, de roldão, a receita de como fazer um arroz soltinho numa panela sem fundo, como se fosse um texto de Leon Eliachar. A bailarina deixa de colocar o acessório principal nos cabelos e improvisa com a sua calcinha menstruada prendendo a cabeleira vasta, como laço e com isso, sem que ninguém se dê conta, a transforma em um objeto de última hora para tapar o buracão do figurino.

Mesmo caminho, o técnico de luz, distraído, vendo vídeos idiotizados em seu celular, acende o refletor no momento errado e ilumina o cachorrinho do autor da peça que invadiu o palco e deu uma suave e leve mijada nos pés de uma das artistas do elenco. Nos bastidores, cada segundo é uma aventura nova. O ‘boca-aberta’ do cinegrafista que deveria entrar pela esquerda aparece pela direita.

Inesperadamente tropeça feio com câmera e tudo indo se sentar sem querer numa cadeira de três pernas e por conta disso, congestiona a cena aos trambolhões, indo literalmente se estabacar no chão, como se fosse parte da coreografia lembrando o tombo memorável da Ana Maria Braga quando entrevistava ao vivo a jornalista Glenda Kozlowski no ‘Mais Você’ nos idos de 2010.   

O microfone que não funciona vira objeto cênico: ‘É uma coisinha mágica que não estava programada!’, anuncia o ator, tentando salvar a situação inesperada. E o público? Kikikikikikikikiki... o público ri, aplaude, se emociona, chora viaja, sai do chão, porque ele não sabe, não tem noção, que por trás daquela imensa cortina, o espetáculo que não entra em cena é outro. Uma comédia pastelão improvisada, tipo os ‘Três Patetas’, feita de correrias e um espocar de gargalhadas contidas.

No fim, talvez seja esse o verdadeiro encanto dos bastidores: mostrar que a perfeição é falha, inexistente, tudo não passa de pura fachada, de uma mentira feita às pressas, engendrada as carreiras. A verdadeira beleza, o encanto, a magia, o sonho, tudo, em resumo, se atravanca nos cafundós dos bastidores.                                                                                                        

O glamour, ah, o glamour respeitável público, o glamour acaba, se encerra, dá adeus na porta central de acesso a cortina. O ator principal entra em pânico, sofre por dentro, sente vontade de dar uma bela de uma cagada daquelas de feder até a alma, porque esqueceu a fala. A cantora, coitada, por sua vez, solta a voz cantando Beyoncé, enquanto o técnico de som jura que o aparelho   ingressou com a canção errada. ‘Era pra ser a orquestração mixada da Gal Costa. Merda!’.

No fim, é tudo muito prático e simples: o palco inteiro, mostra ao vivo e a cores, a arte, mas as trapalhadas dos bastidores, mostram a vida. E ela, a vida é uma imensa comédia deliciosa, saborosa, apetitosa, elegante, chamativa, como a leitura de uma crônica de um dos livros de Aparecido Raimundo de Souza ou um texto do saudoso Luiz Fernando Veríssimo.

Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo, 4-11-2025

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