Carina Bratt
NOS BASTIDORES, a vida acontece em silêncio. Enquanto o palco brilha, iluminado por refletores e aplausos, há sempre uma cortina que esconde o verdadeiro espetáculo: o improviso, o nervosismo, o riso contido, os palavrões, o café frio esquecido sobre a mesa, o sanduiche que alguém deixou pela metade e uma baratinha simpática e faminta insistindo em rondar medrosa e não querendo ser vista. É nos bastidores que se revelam as pequenas grandes verdades.
É ali também que o ator repete mentalmente as
suas falas como quem recita uma oração de fé. A costureira que ajeita o último
botão com mãos firmes, tem no peito o coração acelerado. O técnico de som que,
invisível ao público, segura o fio da tensão como quem resguarda uma ‘pica’
imensa do destino de todos. Se ele falha, nossa, se ele falha... certamente o
diretor geral lhe dará uma chamada de tirar o fôlego, além da banana enfiada à
guisa de comida de rabo.
Nos bastidores não há disfarces ou máscaras,
capotes ou embuços, apenas pessoas. Ali, os heróis, os destemidos, os paladinos
e os defensores são apenas pessoas frágeis com medo de esquecer as respectivas
falas. A vilã, a megera, a bruxa uau!... essa beldade é uma moça linda e
charmosa que sonha em chegar cedo em casa para assistir, se não ferrar no sono,
mais um episódio da série ‘Sempre dentro do meu coração’.
O figurante principal é o sujeito que mais
ri. Parece uma hiena tresloucada, porque sabe que a sua presença, mesmo
discreta, ou às vezes até quase apagada, sustenta o cenário inteiro. E quando a
cortina se abre, o público vê apenas o espetáculo saído de dentro da enorme
caixa teatral. Quem já esteve nos bastidores sabe: é ali nas coxias que mora a
essência, o âmago, o sustentáculo, a sutileza.
É ali, mesmo norte, com a cortina escancarada, que o público, (cada um ao seu modo e ritmo), dá de cara, se vê frente a frente com seu próprio papel desempenhado no cotidiano da vida. É ali que a plateia descobre e se depara que o amanhã não existe. Tudo é apenas um futuro imaginário que criamos dentro de nós com a esperança imorredoura de um porvir que talvez nunca chegue.
O palco não visto é o sonho, é a fuga da
realidade, é a escapatória, ou a digressão para trazer à tona os pensamentos
adormecidos. Em face disso, nos fios escondidos dos bastidores, a vida é real,
é mentirosa, às vezes faz surgir coisas inimagináveis. E é exatamente ali, no
escondidinho, longe dos esbugalhos do grande público espectador, fora do
alcance das câmeras, onde tudo acontece distanciado e divorciado da realidade
que nos aprisiona.
Talvez seja assim com todos nós. O que
mostramos ao mundo, no dia a dia, é apenas sobras de um palco. É nos
bastidores, ou grosso modo, na cozinha bagunçada, no banheiro sujo e sem a
devida preocupação de se puxar a descarga, ou no quarto de dormir, depois
daquela ‘trepada memorável’, a cama suada se veja bagunçada, o lençol de rosto
amarrotado, os travesseiros deitados no chão, envoltos nas conversas
interrompidas, ou nos pensamentos que ninguém escuta, que se desenrola a
verdadeira história.
Nos bastidores, a ordem é simples: nada sai
como planejado. Enquanto o público se deleita com um espetáculo impecável, no
atrás da cortina reina o caos organizado, ou melhor dito, o desorganizado.
Antes de entrar em cena, o ator principal esquece a fala e resolve improvisar,
citando uma poesia desconhecida de Mário Quintana, ou Cecília Meireles. Como
ninguém liga para a cultura... tanto faz ele mandar bala em Cora Coralina ou
Adélia Prado.
Ou ainda, de roldão, a receita de como fazer
um arroz soltinho numa panela sem fundo, como se fosse um texto de Leon
Eliachar. A bailarina deixa de colocar o acessório principal nos cabelos e
improvisa com a sua calcinha menstruada prendendo a cabeleira vasta, como laço
e com isso, sem que ninguém se dê conta, a transforma em um objeto de última
hora para tapar o buracão do figurino.
Mesmo caminho, o técnico de luz, distraído,
vendo vídeos idiotizados em seu celular, acende o refletor no momento errado e
ilumina o cachorrinho do autor da peça que invadiu o palco e deu uma suave e
leve mijada nos pés de uma das artistas do elenco. Nos bastidores, cada segundo
é uma aventura nova. O ‘boca-aberta’ do cinegrafista que deveria entrar pela
esquerda aparece pela direita.
Inesperadamente tropeça feio com câmera e
tudo indo se sentar sem querer numa cadeira de três pernas e por conta disso,
congestiona a cena aos trambolhões, indo literalmente se estabacar no chão,
como se fosse parte da coreografia lembrando o tombo memorável da Ana Maria
Braga quando entrevistava ao vivo a jornalista Glenda Kozlowski no ‘Mais Você’
nos idos de 2010.
O microfone que não funciona vira objeto
cênico: ‘É uma coisinha mágica que não estava programada!’, anuncia o ator,
tentando salvar a situação inesperada. E o público? Kikikikikikikikiki... o
público ri, aplaude, se emociona, chora viaja, sai do chão, porque ele não
sabe, não tem noção, que por trás daquela imensa cortina, o espetáculo que não
entra em cena é outro. Uma comédia pastelão improvisada, tipo os ‘Três
Patetas’, feita de correrias e um espocar de gargalhadas contidas.
No fim, talvez seja esse o verdadeiro encanto
dos bastidores: mostrar que a perfeição é falha, inexistente, tudo não passa de
pura fachada, de uma mentira feita às pressas, engendrada as carreiras. A
verdadeira beleza, o encanto, a magia, o sonho, tudo, em resumo, se atravanca
nos cafundós dos bastidores.
O glamour, ah, o glamour respeitável público,
o glamour acaba, se encerra, dá adeus na porta central de acesso a cortina. O
ator principal entra em pânico, sofre por dentro, sente vontade de dar uma bela
de uma cagada daquelas de feder até a alma, porque esqueceu a fala. A cantora,
coitada, por sua vez, solta a voz cantando Beyoncé, enquanto o técnico de som
jura que o aparelho ingressou com a
canção errada. ‘Era pra ser a orquestração mixada da Gal Costa. Merda!’.
No fim, é tudo muito prático e simples: o
palco inteiro, mostra ao vivo e a cores, a arte, mas as trapalhadas dos
bastidores, mostram a vida. E ela, a vida é uma imensa comédia deliciosa,
saborosa, apetitosa, elegante, chamativa, como a leitura de uma crônica de um
dos livros de Aparecido Raimundo de Souza ou um texto do saudoso Luiz Fernando
Veríssimo.
Título e Texto: Carina Bratt, de Vila Velha, no Espírito Santo, 4-11-2025
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