Pedro Almeida Vieira
A ideia de que a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela constitui um desvio excepcional, explicável apenas pela personalidade errática e sociopata de Donald Trump, assenta numa leitura infantil da história contemporânea. Parte essa simplificação do pressuposto confortável de que a política externa norte-americana é, por natureza, respeitadora da soberania dos outros Estados, sendo Trump uma espécie de acidente moral no percurso de uma democracia virtuosa. Esse pressuposto é absolutamente falso. A intervenção dos Estados Unidos numa linha do ‘quero, posso e mando’ não é um excesso — é uma constante.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos comportam-se como aquilo que são: uma superpotência militar que projecta poder para além das suas fronteiras sempre que considera os seus interesses estratégicos ameaçados.
Essa projeção assumiu
múltiplas formas — golpes de Estado, guerras abertas, operações encobertas,
sanções económicas, bombardeamentos ‘humanitários’, guerras por procuração —
mas obedeceu sempre à mesma lógica fundamental: a soberania dos outros é
aceitável apenas enquanto não colide com a vontade de Washington.
Desde 1945, os Estados Unidos
exerceram a sua condição de superpotência através de um padrão contínuo de
intervenção externa que atravessa décadas, geografias e administrações, sejam
de republicanos, sejam de democratas. Começaram com a ocupação militar e a
reorganização política da Alemanha e do Japão no imediato pós-guerra,
intervieram decisivamente na guerra civil grega no final dos anos 40 e
manipularam processos eleitorais em países aliados como a Itália.
Seguiu-se a Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, e quase em simultâneo a institucionalização da ingerência encoberta: o golpe que derrubou Mohammad Mossadegh no Irão, em 1953, a queda de Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, e a sucessão de intervenções no Médio Oriente e no Sudeste Asiático ao longo da década de 50.
Nos anos 60, a lógica intensificou-se com a invasão falhada da Baía dos Porcos em Cuba, a escalada total no Vietname, os bombardeamentos secretos no Laos e no Camboja, a invasão da República Dominicana e operações diretas ou indiretas em vários países da América Latina e de África. A década de 70 não marcou qualquer inversão. Pelo contrário: foi o período do apoio activo ao golpe militar no Chile, em 1973, da consolidação de ditaduras aliadas no Cone Sul através da Operação Condor entre 1975 e 1980, da intervenção por procuração em Angola, do aval tácito à invasão de Timor-Leste pela Indonésia e da continuação de uma política externa baseada na contenção violenta de autonomias estratégicas.
Nos anos 80, essa doutrina
assumiu formas ainda mais explícitas: o financiamento dos mujahidin no
Afeganistão, a guerra clandestina contra a Nicarágua dos Contras, o apoio a
regimes e forças armadas em El Salvador, a invasão directa de Grenada em 1983,
novas operações militares no Líbano e, no final da década, a invasão do Panamá.
O fim da Guerra Fria não trouxe qualquer travão. Vieram a Guerra do Golfo em
1991, a intervenção na Somália, a ocupação do Haiti, os bombardeamentos na
Bósnia e, em 1999, a destruição de infra-estruturas civis na Jugoslávia sem
mandato das Nações Unidas.
O século XXI aprofundou, em vez de corrigir, este padrão. A invasão e ocupação do Afeganistão a partir de 2001, a guerra do Iraque em 2003 com base em pretextos falsos, o uso sistemático de drones no Paquistão, no Iémen e na Somália, a presença militar permanente em múltiplos teatros, a intervenção decisiva na Líbia em 2011 que resultou num Estado falhado, a actuação directa na Síria desde 2014, o envolvimento político e militar na Ucrânia a partir de 2014, as operações no Médio Oriente e no Mar Vermelho e, mais recentemente, a pressão contínua sobre países como a Venezuela, através de sanções, ameaças militares e operações encobertas.
Nada disto foi episódico. Até
se resumiu a lista. Nada disto dependeu de um único presidente. Nada disto pode
ser explicado como desvio ocasional. Nada disto dependeu do bem ou do mal.
Dependeu somente dos interesses dos Estados Unidos. Pode discutir-se em que
situações foram benévolos ou malévolos, justos ou injustos, justificados ou
injustificados — mas isso torna-se secundário sabendo-se que se executaram
sempre numa óptica de calculo de poder.
É neste quadro que deve ser
lida a recente atuação de Donald Trump, sendo certo que ele não inaugura a
ingerência, nem a radicaliza de forma inédita. Limita-se a expô-la sem verniz,
quando, por exemplo, afirma confiante que a Venezuela se abrirá às petrolíferas
norte-americanas.
Onde outros presidentes falavam em “ordem internacional baseada em regras”, Trump fala de força, sucesso e submissão. Mas o gesto é o mesmo; desapareceu foi a liturgia. Talvez seja essa franqueza brutal que perturba uma parte da opinião pública ocidental, mais habituada à hipocrisia bem-embalada do que à verdade dita sem rodeios.
Em suma, a Venezuela, neste
contexto, não é uma excepção nem um capricho — é um caso previsível dentro de
uma longa tradição de ingerência. Tratar esta realidade como uma anomalia
psicológica de Trump é não apenas um erro histórico, mas uma forma conveniente
de absolver o sistema que o produziu, porque apenas transforma a regra em
acidente e o padrão em desvio.
O problema, portanto, não é
Trump. O problema é a naturalização da intervenção como instrumento legítimo de
política externa. Na verdade, o verdadeiro escândalo não é que os Estados
Unidos intervenham — é que se continue, oitenta anos depois do início, a fingir
surpresa.
Título e Texto: Pedro Almeida Vieira, Página UM, 4-1-2026
O presidente da França, Emmanuel Macron, aliado político de Lula, comemorou publicamente a queda do regime de Nicolás Maduro na Venezuela. A manifestação foi divulgada nas redes sociais do mandatário francês, em uma mensagem escrita em espanhol, após o colapso do governo chavista em Caracas neste sábado (3/1).
Na publicação, Macron afirmou
que “o povo venezuelano está hoje libertado da ditadura de Nicolás Maduro e não
pode senão celebrar”. Em seguida, declarou que “os venezuelanos podem contar
com o apoio da França para erguer a voz de uma transição pacífica, democrática
e plenamente respeitosa de sua vontade soberana”.
A declaração foi feita em meio
ao início do processo de transição política na Venezuela, após a saída de
Maduro do poder, encerrando um ciclo de quase 27 anos de governos chavista.
A queda do regime ocorreu após
a ofensiva militar dos EUA que resultou na captura de Maduro, que deverá
responder na Justiça americana por quatro acusações principais: conspiração de
narcoterr0rismo; conspiração para importação de c0caína aos EUA; uso e posse de
metralhadoras e dispositivos destrutivos em conexão com o tráf1co; e
conspiração armada ligada a crimes de dr0gas.
➡️ A reportagem completa está na coluna do @jornalistapaulocappelli.
Basta acessar metropoles.com


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