sábado, 14 de março de 2026

Prédio do INSS abandonado há 30 anos no Centro do Rio, pode virar moradia popular após proposta do MPF

Imóvel na Rua Riachuelo está vazio há mais de 30 anos e abriga atualmente 115 moradores da Ocupação Gilberto Domingos. Acordo busca garantir habitação social e encerrar disputa judicial

Gabriella Lourenço

O prédio pertencente ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), na Rua Riachuelo, no Centro do Rio, pode ser destinado a moradia popular após proposta de acordo apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) à Justiça Federal. O imóvel, que está sem uso há mais de três décadas, é ocupado atualmente por famílias em situação de vulnerabilidade social e pode passar a cumprir função habitacional caso o entendimento seja homologado.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Hoje, o edifício abriga a Ocupação Gilberto Domingos, formada por 115 pessoas, entre elas 36 crianças e adolescentes e 14 idosos. A proposta do MPF busca garantir o direito à moradia das famílias e encerrar a disputa judicial envolvendo a posse do imóvel.

De acordo com o órgão, a permanência dos moradores no local é considerada fundamental para assegurar direitos básicos, como moradia, educação e acesso ao trabalho. Muitos dos residentes trabalham de forma informal na região central da cidade e têm filhos matriculados em escolas próximas, o que reforça a importância de manter as famílias na área.

“A manutenção dos ocupantes na localidade é necessária para a garantia de uma série de direitos fundamentais, entre os quais o direito à moradia, à educação e ao acesso ao trabalho”, afirma o procurador da República Julio Araujo, responsável pela manifestação no processo.

O MPF também argumenta que o prédio permanece sem uso há décadas, apesar de pertencer ao INSS, o que contraria o princípio constitucional da função social da propriedade.

Reunião entre órgãos públicos discutiu solução

A proposta de acordo surgiu após uma reunião de mediação realizada em fevereiro de 2026, que reuniu representantes de diferentes órgãos federais e integrantes da sociedade civil.

Participaram do encontro representantes do INSS, da Secretaria do Patrimônio da União (SPU), da Advocacia-Geral da União (AGU) e do Ministério das Cidades, além de moradores da ocupação e organizações da sociedade civil.

Durante o encontro, o INSS informou que não tem interesse em retomar o imóvel e manifestou apoio à possibilidade de destinar o prédio para programas de habitação social e regularização fundiária. A SPU também indicou que o edifício está entre os bens considerados prioritários para análise e possível transferência de gestão, por ser classificado como patrimônio não operacional da autarquia.

Para o MPF, o alinhamento entre os órgãos públicos abre caminho para uma solução consensual que evite despejos e permita que o imóvel seja utilizado para fins sociais.

Segundo o procurador Julio Araujo, há convergência de interesses entre as instituições envolvidas. “É nítido que nenhuma das partes deseja o prosseguimento da ação de reintegração de posse, haja vista que tanto a União quanto sua autarquia sinalizaram o desejo de que seja conferida ao imóvel uma destinação compatível com o interesse social”, destacou.

Regularização fundiária e programas habitacionais

Na proposta apresentada à Justiça Federal, o MPF defende que o acordo inclua o reconhecimento formal de que o INSS não tem interesse no prédio, além da destinação do imóvel para habitação de interesse social e o encerramento da ação possessória em andamento.

O documento também sugere que sejam avaliados instrumentos de regularização fundiária capazes de preservar a organização coletiva existente na ocupação. Entre as alternativas apontadas estão a inclusão da comunidade em programas habitacionais, como o Minha Casa Minha Vida Entidades, ou a concessão de direito real de uso coletivo do imóvel.

Caso o acordo seja aprovado e homologado pela Justiça, a ação de reintegração de posse será encerrada. A medida pode abrir caminho para que o prédio seja oficialmente destinado à moradia popular e passe a cumprir sua função social no Centro do Rio.

Título e Texto: Gabriella Lourenço, Diário do Rio, 14-3-2026 

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