Mário Sabino
Gilmar Mendes escreveu no X
que “a exposição pública de conversas de cunho estritamente privado,
desvinculadas de qualquer ilicitude, constituiu uma gravíssima violação ao
direito à intimidade e uma demonstração da barbárie institucional que transgride
todos os limites impostos pelas leis e pela Constituição”.
Concordo que expor conversas íntimas é condenável, mas, no caso de Vorcaro, a exposição mostrou parte da sua teia de relações político-empresariais e como ele operava junto a personagens poderosos. Foi também complemento para a compreensão da personalidade do personagem ao dar a medida da sua cafonice, do seu deslumbramento, do seu provincianismo travestido de cosmopolitismo, da sua arrogância, da vacuidade da sua existência.
Há também o aspecto da
vingança social, que não justifico, mas constato. Em um país como o Brasil,
onde a impunidade grassa, a ridicularização de gente criminosa, perversa no
desprezo a suas vítimas, pode ser a única pena a ser paga por ela, infelizmente.
Ao ler a postagem do decano no
X, comentei que há uma distância imensurável entre o que Gilmar acha
“gravíssimo” e o que é efetivamente gravíssimo em relação a Vorcaro, dono do
banco de fachada usado para executar um estelionato bilionário.
Na minha cada vez mais modesta
opinião, mas não só, a barbárie institucional promovida pelo STF é bem mais
grave do que o vazamento de conversas íntimas do estelionatário com a
influencer. Com o caso Master, o tribunal chegou ao seu nível mais baixo de reputação
depois de transgredir todos os limites das leis e da Constituição a pretexto de
“defender a democracia”.
Desculpe o leitor se me repito na sequência, recorrendo ao autoplágio, mas a repetição é incontornável em país tão redundante.
Barbárie institucional, eu ia
dizendo: dois dos ministros do STF estão envolvidos com Vorcaro, responsável
pela maior fraude financeira da história brasileira.
Dias Toffoli, que tentou
dificultar ao máximo a apuração do caso Master quando se apossou indevidamente
do caso, era sócio oculto dos irmãos em uma empresa suspeita de lavagem de
dinheiro, a Maridt.
A empresa negociou a venda do
seu resort no interior do Paraná, o já famoso Tayayá, com um fundo de
investimento da rede de estelionato de Vorcaro, cujo único cotista era o
cunhado do criminoso, igualmente preso na semana passada.
Suspeita-se, a partir de
conversas entre o estelionatário e o cunhado, que o ministro tenha levado R$ 35
milhões na forma de repasses ao resort.
O decano, que ficou
horrorizado com a divulgação das conversas picante de Volcalo, digo Vorcaro,
correu para ajudar Toffoli após a Maridt ter os sigilos quebrados pela CPI do
Crime Organizado, e a historinha é outro exemplo de barbárie institucional.
Os advogados dos irmãos do
ministro recorreram ao tribunal para evitar a quebra dos sigilos, o que é
legítimo.
No entanto, para fugir da
prevenção de André Mendonça, que sucedeu Toffoli na relatoria do caso Master,
eles entraram com o pedido no âmbito de um mandado de segurança que
oportunamente dormitava havia três anos nos escaninhos do STF.
Quem é o relator do mandado?
Surpresa, surpresa, Gilmar Mendes. A quebra de sigilos da empresa da qual Dias
Toffoli pôde, então, ser suspensa pelo decano.
Alexandre de Moraes, por sua
vez, tinha uma relação muito próxima com Vorcaro. Fumava charutos cubanos e
bebia vinhos caríssimos na casa do estelionatário em Brasília, encontrou-o em
outras ocasiões e, no dia da primeira prisão do meliante, manteve diálogos com
ele no WhatsApp, apagados mediante o uso de mensagens temporárias.
O ministro tentou negar ser o
interlocutor de Vorcaro, mas a sua negativa foi canhestra e logo desmentida
pelo jornal O Globo, que revelou os diálogos, assim como trouxe à tona o
contrato do escritório da mulher de Moraes com o Banco Master, no valor de inacreditáveis
R$ 129 milhões.
Quando resolveu dar satisfação
sobre a bolada embolsada por seu escritório, a doutora Viviane Barci de Moraes
fez uma listinha de tarefas executadas para o Master, das quais a mais
desafiadora foi ajudar a estruturar o departamento de compliance do banco, o
que é piada pronta. A listinha, assunto que animou a última segunda-feira, não
justifica os R$ 129 milhões do contrato. Pelo contrário, torna a quantia ainda
mais inacreditável para serviços somente advocatícios.
Abro parêntese. Não se credite
à barbárie institucional promovida pelo STF a história da ação que a TV Gazeta
de Alagoas, ligada à família de Fernando Collor, move contra a Rede Globo, que
faz parte do mesmo grupo do jornal que vem publicando notícias espantosas sobre
a dupla Moraes-Vorcaro.
O placar estava 3 a 0 em favor
emissora carioca, que não renovou o contrato de afiliação da TV Gazeta,
preferindo uma concorrente, mas o ministro, no exercício da sua imparcialidade
de juiz, resolveu examinar melhor a ação. Fecho parêntese.
Para encerrar, temos o
ministro Flávio Dino. Para blindar Lulinha, filho mais velho do presidente da
República, suspeito de envolvimento na roubança do INSS, ele mandou às favas a
independência do Legislativo e suspendeu a quebra dos sigilos de Lulinha e de
uma amiga dele pela CPMI do INSS. Alegou que o procedimento adotado para
aprová-la, o da votação em bloco, foi irregular, embora esteja longe de sê-lo.
De repente, as conversas
íntimas de Vorcaro com a noiva influencer adquiriram uma moralidade insuspeita
e o seu vazamento, um aspecto até civilizatório.
Título e Texto: Maro Sabino, Metrópoles, 10-3-2026, 14h22


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