A despeito da rede de proteção ao Master parecer inexpugnável, o BC tinha meios para agir e impedir que a fraude chegasse ao valor que chegou. Por que não os utilizou?
Nuno Vasconcellos
Um mistério chama atenção
entre tantas dúvidas que se acumulam em torno dessa história do Banco Master —
e qualquer pessoa que conheça minimamente o funcionamento do sistema financeiro
no Brasil haverá de concordar com isso. O mistério é: num sistema tão regulado
como o brasileiro, onde as regras de operação são mais rígidas do que em outros
países, como foi possível empilhar tanta falcatrua, tanto perrengue e tanta
mutreta em um único CNPJ sem atrair a atenção e a fúria dos auditores do Banco
Central?
Para deixar a dúvida ainda
mais clara: como tantas tretas foram sendo feitas, uma atrás da outra, sem que
ninguém agisse a tempo de impedir que elas se tornassem tão robustas e lesassem
tanta gente? Como é que, num país que cria, sustenta e empodera tantas
instituições supostamente destinadas a impedir que mutretas aconteçam, as
mutretas bilionárias continuam vindo à tona, envolvendo cifras ainda maiores e
circunstâncias ainda mais escandalosas do que as da mutreta anterior?
É secundário discutir, neste
caso, se o problema do Master começou durante a passagem de Roberto Campos Neto
pela presidência do Banco Central ou se já vinha desde o tempo de seu
antecessor, Ilan Goldfajn. Também não é o caso de jogar toda a responsabilidade
nas costas do atual presidente, Gabriel Galípolo. É claro que os problemas de
qualquer instituição devem ser cobrados, em última instância, de quem a
comanda. Mas uma traulitada como a do Master só alcança a força que alcançou
caso conte com a participação de funcionários de vários escalões que, no limite
de suas atribuições e de suas responsabilidades, fechem os olhos para o que
está acontecendo.
E, antes de prosseguir, uma observação: além do Banco Central, a Receita Federal, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Tribunal de Contas da União (TCU) e outras siglas conhecidas, mantidas a peso de ouro para dar à sociedade a sensação de que conta com a proteção do Estado, também têm explicações a dar nessa história. Esses órgãos custam os olhos da cara para o contribuinte. Mas às vezes se mostram incapazes de impedir que o dinheiro do cidadão escorra entre os dedos daqueles que são pagos para zelar por ele e desapareça sem deixar rastros.
E quando isso acontece, a consequência é um rombo de grandes dimensões. No caso
do Master, ele deve ultrapassar a casa dos R$ 50 bilhões. É dinheiro demais
para ter sumido sob os olhos de tanta gente que é paga para zelar por ele. O
valor pode ser maior. Dia após dia têm vindo à tona uma situação mal explicada,
que só chegou ao valor escabroso que chegou porque essas instituições,
habituadas a agir com mão pesada contra o cidadão comum, fizeram vistas grossas
para evidências que estavam bem embaixo de seus narizes. Na sexta-feira
passada, por exemplo, surgiu a informação de que, entre as operações suspeitas
conduzidas por Vorcaro há uma transação envolvendo cotas de um fundo de
investimentos chamado Hans2.
Em dezembro de 2024, ele teria adquirido as cotas desse fundo por R$ 2,5 milhões. No dia seguinte, elas teriam sido vendidas por R$ 294,5 milhões — uma valorização de mais de cem vezes em 24 horas. A informação foi publicada pela Folha de S. Paulo e, de acordo com o jornal, consta da declaração de renda do empresário. Por muito menos do que isso, a Receita Federal já detonou muito CPF por aí. Mas Vorcaro continuou operando como se não devesse explicações a ninguém.
DELAÇÃO PREMIADA — Vorcaro, como se sabe, encontra-se preso e já
estaria negociando um acordo de delação premiada — única saída para reduzir a
pena pesada que deverá recair sobre ele no final do julgamento. Pela
visibilidade que o caso alcançou e pela gravidade do que vem sendo revelado, é
de se esperar que, a menos que haja alguma surpresa, seu caso seja tratado com
rigor exemplar pela Justiça.
Na sexta-feira passada, a
Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal confirmou a prisão preventiva
determinada na quarta-feira retrasada pelo ministro André Mendonça. Além de
Vorcado, recolhido ao presídio de segurança máxima da Papuda, em Brasília,
permanecerá preso seu cunhado e parceiraço, Fabiano Campos Zettel. Outro que
seguirá na prisão é o ex-policial federal Marilson Resende Silva, responsável
por atividades de vigilância e monitoramento do grupo.
O círculo de auxiliares mais
próximos, presos no mesmo dia que Vorcaro, também incluía o nome de Luiz
Philipi Mourão. Conhecido como Sicário, ele morreu em circunstâncias para lá de
esquisitas, depois de “tentar suicídio” na carceragem da Polícia Federal de
Belo Horizonte. A história dele é estranha, mas não é ela que interessa a este
texto.
O que interessa por enquanto é
falar de uma prática recorrente de Vorcaro: ele e seu grupo gastavam dinheiro a
rodo para, vamos dizer assim, remover obstáculos capazes de dificultar suas
operações que, de tão ousadas, levantariam suspeitas de qualquer autoridade.
Nos últimos dias, veio a público uma extensa lista de pessoas pagas por
Vorcaro. É tanto nome graúdo envolvido que pouca gente deu a devida importância
à presença de dois funcionários do Banco Central entre os que foram abastecidos
pela pecúnia de Vorcaro. Ele teria destinado uma senhora propina ao ex-diretor
de Fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves, e ao Chefe de
Departamento da autoridade monetária, Belline Santana.
Ninguém mencionou o tamanho da
bufunfa que a dupla teria recebido em troca de tapar o nariz para as
traquinagens cometidas por Vorcaro no comando de seu banco. A acusação é a de
os dois teriam “recebido algum” para não sentir cheiro de irregularidade em uma
remessa de pelo menos R$ 2 bilhões para uma conta em nome de Henrique Vorcado,
pai de Daniel, em um paraíso fiscal.
O detalhe é o seguinte: por mais poder que concentrassem em suas mãos, Neves e Santana não conseguiriam agir se não contassem com a cumplicidade, com a conivência ou com o silêncio amedrontado de pessoas abaixo e acima deles na hierarquia da instituição. Uma operação desse tamanho depende de mais de uma autorização e de alçadas muito parrudas para ser executada. Será que as responsabilidades dentro da instituição se esgotam nesses dois nomes? Será que não há mais gente envolvida?
NATA DA NATA — A resposta a essas perguntas, é claro, depende do
andamento das investigações. Seja como for, um aspecto que se destaca quando se
juntam as pontas dessa história é a desenvoltura e o destemor que os
corruptores demonstram na hora de distribuir propinas entre autoridades do
primeiro, do segundo, do terceiro e, se bobear, até do vigésimo escalão da
República. O que espanta é que, diante da quantidade de casos de subornos que
vêm sendo expostos, não venha à tona um único exemplo de recusa.
Parece que, no Brasil, não
existe aquele tipo de personagem que se vê nas telas do cinema. Aquele tipo de
gente honesta que, diante de uma oferta indecente, reaja com indignação, dê um
soco na mesa, ponha o emissário do corruptor para fora de sua sala e o ameace
de prisão caso insista com aquela história.
Pode ser que isso exista e
seja mais comum do que se pensa. Certamente há milhares e milhares de
servidores públicos honestos e honrados, que se ofenderiam com a simples ideia
de serem corrompidos e não aceitam ter a mão molhada (não importa com qual quantia)
para facilitar a vida de meliantes pelo Brasil afora. Desde já, peço desculpas
caso alguém se sinta ofendido com essa afirmação. Mas a impressão que se tem é
a de que a lista de escândalos que acontecem no Brasil não seria tão extensa se
não contassem com a conivência de centenas ou até milhares de servidores que
têm por função impedir que os malfeitos aconteçam.
Voltemos ao caso específico do
Banco Central, autarquia que concentra a nata da nata da nata da nata do
funcionalismo público do Brasil. O último concurso público para o BC, realizado
em 2024, atraiu 38.420 candidatos para as 100 vagas oferecidas. Isso significa,
numa conta elementar, 384,2 candidatos por vaga. A título de comparação, o
vestibular para o curso mais concorrido da Universidade de São Paulo, o de
medicina, teve 90,7 candidatos por vaga em sua última edição.
É de se supor que, tendo passado por uma peneira de malha tão fina como essa,
os servidores do BC tivessem mais noção de sua importância e fossem implacáveis
no cumprimento de suas funções. Entre as finalidades do órgão, criado em 1965
pelo então ministro do Planejamento Roberto Campos — avô do ex-presidente
Roberto Campos Neto —, além de zelar pela saúde monetária brasileira, está a de
regular e fiscalizar o funcionamento do sistema financeiro. Só que essas
atribuições nobres e poderosas costumam tropeçar em falhas como as que vêm
sendo reveladas no episódio do Master.
NOVAS FALCATRUAS — Com
os instrumentos que têm em mãos, com a facilidade que têm para criar normas,
baixar portarias e ampliar seu próprio poder, é difícil explicar como o BC,
neste caso, foi incapaz de evitar que problema crescesse e chegasse ao montante
que alcançou. Pelo que parece, nenhum dos integrantes dessa elite que integra o
quadro do BC agiu — ou, se agiu, não fez barulho suficiente para se fazer notar
— para impedir que o problema crescesse, crescesse a acabasse assumindo a
dimensão que assumiu.
Seja como for, o fato é que a
fraude prosperou sob os olhos de quem deveria impedi-la e chegou à cifra
inacreditável de R$ 50 bilhões — valor que pode se tornar ainda maior na medida
que novas falcatruas venham à tona no calor das investigações. Esse número foi
alcançado à custa da emissão fraudulenta de papéis sem lastro, da participação
despudorada no escândalo do INSS, do relacionamento indecoroso com governos
estaduais e prefeituras, de operações temerárias que desafiavam as regras mais
elementares de segurança do Banco Central, mas que, enquanto havia tempo, não
atraíram a atenção de ninguém com autoridade para dar um basta!
E não adianta dizer que isso
só foi possível porque o Master contava com padrinhos poderosos, contratados a
peso de ouro entre altas autoridades dos três poderes da República! As relações
promíscuas de Vorcaro com os círculos mais elevados certamente teceram para o
Master uma rede de proteção que parecia inexpugnável aos olhos de quem via o
banco fazer as operações temerárias que fazia sem que nada acontecesse. Mas,
por outro lado, produziram um efeito contrário importante: o de chamar a
atenção de todo mundo para o que estava acontecendo com a instituição. Qualquer
desvio que viesse à tona teria uma repercussão muito maior do que haveria se o
banco não contasse com protetores de tanto destaque.
Pois bem. A verdade é que, com
protetores ou sem protetores, chegou um momento que os problemas ficaram tão
volumosos que o BC se viu obrigado a agir. A decisão de intervir no Master e
decretar sua liquidação extrajudicial partiu de dentro da própria instituição
e, conforme relatos, também enfrentou resistências internas — mas, quando
aconteceu, deixou evidente que a medida deveria ter sido tomada muito antes.
Quando o saco de problemas foi aberto, começaram a aparecer problemas atrás de
problemas e, por maiores que fossem, não chamaram atenção de ninguém no devido
tempo. Ficou claro, por exemplo, que a escalada do banco no mercado foi
vertiginosa demais para não ter levantado suspeitas muito antes do que
levantou.
Os parâmetros de controle do
mercado financeiro brasileiro são apontados entre os mais rígidos do mundo e os
instrumentos de acompanhamento à disposição da autoridade monetária são
precisos e sofisticados. Sendo assim, nada, absolutamente nada, justifica que
um escândalo alcance a dimensão que alcançaram as patuscadas do Banco Master.
O controle da saúde
operacional e financeira dos bancos não depende da emissão de balanços
semestrais nem mesmo de balancetes mensais. O controle é diário. Qualquer
desvio que afete o Índice de Basileia é detectado imediatamente. Se estava
cansada de saber que os valores recolhidos pelo Master ao Banco Central não
chegavam a 10% dos Depósitos Compulsórios previstos nas normas de operação, por
que a instituição não agiu? Por que permitiu que o escândalo chegasse ao
tamanho que chegou para que as providências fossem tomadas?
Motivos para agir, como fica
claro a cada dia, não faltavam. Desde que o controle foi assumido por Vorcaro,
a instituição saltou de um patrimônio de R$ 200 milhões, em 2018, para os R$
4,7 bilhões registrados no último balanço. Isso mesmo. Num período de apenas
oito anos, o patrimônio do Master cresceu mais de 23 vezes — uma escalada
vertiginosa demais para não despertar suspeitas mesmo em um mercado financeiro
anabolizado pelos juros indecentes que vigoram no Brasil.
Por muito menos do que fez a empresa de Daniel Vorcaro, por deslizes bem menos graves do que os que estão vindo à tona do calor das investigações, os auditores e fiscais do BC, da CVM, do TCU, da Receita Federal e de um monte de órgãos, partem para cima de quem pisou na bola com faca nos dentes e os olhos injetados de raiva e suspeição. Diante da extensão dos embustes praticados pelo Master, existem poucas hipóteses à disposição de quem pretenda entender como foi possível que o rombo ter chegado ao valor que chegou (de pelo menos R$ 50 bilhões, é bom repetir!) sem que o BC agisse. E todas elas deixam evidente que o Brasil precisa cobrar da autoridade monetária mais eficiência na ação em defesa dos interesses da sociedade.
Título e Texto: Nuno Vasconcellos,
O
Dia, 15-3-2026

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