sexta-feira, 10 de abril de 2026

O esgoto perfumado

Cora Rónai

E aí o dono da loja vira para a cliente e diz:

“Não trabalho mais com negro!”

O mundo desaba.

Oops — não foi isso.

“Não trabalho mais com bicha!”

As faixas da manifestação já estão sendo pintadas.

Oops — também não foi isso.

“Não trabalho mais com mulher!”

Mexeu com uma, mexeu com todas.

Oops — não foi isso.

“Não trabalho mais com judeu!”

Ah. OK.

-- Desculpe, mas não vi antissemitismo nenhum nesse caso -- escreve uma seguidora no Facebook. -- Eu, por exemplo, não trabalho mais com americanos. Isso há mais de 20 anos. Evito judeus e árabes por conta da barganha com o preço. E vou te dizer uma coisa, judeu como cliente, é chato demais. Tá sempre achando pêlo em ovo para conseguir desconto. Isso é cultural. E se encher com esse traço cultural e má educação não é antissemitismo. Isso é ser humano. O educado de berço não reclama, não desabona o produto. Se não está a contento, não compra e fim. Vai procurar em outro lugar.

Este não foi um comentário isolado. Escolhi, entre muitos, porque não veio de uma pessoa raivosa, porque pode ser publicado e porque nem teve a pretensão de se disfarçar em indignação com a guerra. É o velho preconceito de sempre, agora apresentado como experiência pessoal, quase como dica de convivência.

O mais perturbador nem é que alguém escreva isso; é que escreva com tanta tranquilidade, como quem diz algo trivial.

O antissemitismo saiu do bueiro, tomou um banho de ideologia, perfumou-se e voltou a circular como opinião respeitável.

É difícil apagar uma ideia quando ela foi repetida durante dois mil anos pela máquina de propaganda mais poderosa que já existiu no planeta.

Para complicar ainda teve o outro caso lá, o do bar da Lapa, que exibiu placa dizendo que cidadãos de Israel e dos Estados Unidos não são bem-vindos. As águas estão tão turvas que mesmo gente que deveria saber das coisas está confundindo as bolas: o bar não foi antissemita, foi xenófobo; uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. As duas são crime e são igualmente condenáveis moralmente, mas são diferentes.

O antissemitismo é chique e é modinha, mas pode afetar os negócios de quem tem vasta clientela judaica; nisso é que dá ser ainda mais burro do que antissemita.

A xenofobia, no entanto, sempre foi excelente negócio, em todas as partes do mundo, em todas as épocas. O bar levou multa de R$ 9,5 mil, mas ganhou uma quantidade enorme de seguidores no Instagram, muitos fãs e apoiadores e já está pedindo pix de olho em R$ 35 mil para, em tese, arcar com os custos jurídicos e um “ciclo de eventos” sobre Oriente Médio e Imperialismo.

(Millôr: Desconfie de idealistas que lucram com os seus ideais.)

O que me preocupa não são a deli ou o bar, que têm CNPJ e que podem ser punidos; são os comentários das redes sociais. Pessoas comuns, como eu ou você, reciclando clichês e reproduzindo discursos medievais de ódio.

Estamos todos muito ocupados discutindo o impacto da inteligência artificial enquanto regredimos para um vocabulário de séculos atrás. O meteoro não vem do espaço nem da tecnologia; ele vem desse esgoto moral que aprendemos a chamar de “opinião”.

O problema não é o que aconteceu. É o que passou a ser aceitável.

(O Globo, 9.4.2026)
Título, Imagem e Texto: Cora Rónai, Facebook, 9-4-2026, 22h29

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