Rafael Nogueira
Certos escândalos são como
ladrões armados que entram pela porta da frente. Outros são burburinhos que se
ouvem pela fresta, barulho de TV no corredor, e acabam tratados como se fossem
um arrastão no edifício inteiro. O caso Banco Master pertence ao primeiro
grupo. A história do filme 'Dark Horse' pertence ao segundo.
Comecemos pelo óbvio, já que o
óbvio anda desempregado no debate público nacional: financiar um filme privado
com dinheiro privado não é crime. Pode ser cafona, inconveniente,
eleitoralmente arriscado e até burro. Crime, por si só, não é.
O direito distingue campanha
eleitoral de produção audiovisual. O STF proibiu doações empresariais a
campanhas na ADI 4650. Financiamento cultural é coisa bem outra: envolve
patrocínio, coprodução, incentivo fiscal e mecanismos da Ancine.
A natureza muda se, e somente
se, o filme for campanha disfarçada, se o dinheiro tiver origem criminosa, se
houver lavagem, corrupção, ocultação do beneficiário real ou contrapartida
pública indevida. Aí saímos do cinema e entramos no Código Penal. Hipótese de
ilicitude não equivale a ilicitude provada.
No caso 'Dark Horse', o que se
sabe publicamente é relevante, embora muito limitado. Flávio Bolsonaro
confirmou ter buscado financiamento de Daniel Vorcaro para o filme sobre Jair
Bolsonaro, alegando patrocínio privado e negando contrapartida. A produtora
GOUP Entertainment negou ter recebido dinheiro de Vorcaro, embora novas
revelações ponham essa negativa sob suspeita. E daí?
Merece apuração? É evidente. Merece pergunta dura? Também. Merece ser tratado como o centro do caso Master? Aí começa a fraude analítica.
O núcleo do Master é
incomparavelmente mais grave. O Banco Central decretou a liquidação
extrajudicial do conglomerado por crise de liquidez, comprometimento
significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do
Sistema Financeiro Nacional. A Polícia Federal, na Operação Compliance Zero,
investiga fabricação de carteiras de crédito insubsistentes, gestão
fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. Fases posteriores miram
lavagem de dinheiro, vantagens indevidas a agentes públicos, corrupção e
manipulação de mercado, com bloqueios bilionários e dezenas de prisões
decretadas.
Há ainda o Fundo Garantidor de
Créditos. Após a consolidação das instituições liquidadas, restaram cerca de
800 mil credores, R$ 40,6 bilhões em garantias a pagar e um abalo real na
arquitetura de proteção do sistema financeiro.
Comparar isso a um filme
equivale a lembrar do lamentável incêndio no Museu Nacional e discutir se o
pôster da entrada estava de bom gosto.
O brasileiro ama a dramaturgia
menor. Se aparecem um banqueiro, um senador, um filme, um áudio e uma
celebridade estrangeira, a tentação é abandonar a razão e correr para a novela.
Mas o escândalo verdadeiro mora onde há balanço, lastro, liquidez, supervisão,
auditoria e patrimônio pulverizado de gente comum.
A régua é simples, minha
gente: filme privado com dinheiro privado pertence ao campo da liberdade
empresarial e cultural. Filme usado para burlar eleição, lavar dinheiro ou
comprar favor público pertence ao campo criminal.
Enquanto não houver prova
pública da segunda hipótese, o que existe é uma interação com um personagem
pouco recomendável, é verdade, mas que gastava dinheiro com muita coisa. O
restaurante onde ele jantava não é chamado de cúmplice. O hotel onde ele se hospedava
não responde por seus negócios. Cobrar cada destinatário de seu dinheiro como
se a origem determinasse a culpa do destino é raciocinar por contágio. O caso
Master é uma crise muitíssimo mais grave: financeira, regulatória e criminal de
massa.
Quem lê este texto como defesa
irrestrita de Flávio Bolsonaro ou de Daniel Vorcaro leu outro texto. O que está
em discussão é o senso de proporção: escandalizar-se até onde? Com qual custo?
Há uma eleição chegando, pleito que definirá quem indica os próximos ministros
do Supremo por uma geração inteira. Daí que gastar toda a munição num alvo
ainda não identificado não está sendo mais honesto nem mais esperto, está sendo
mais ingênuo. Porque também sairá perdendo no final. E muito.
A imprensa pode investigar o
filme. A oposição pode explorar o desgaste. A Justiça pode apurar eventual
ilicitude. O que não faz sentido é trocar a manada por um cavalo de propaganda.
O Banco Master é um elefante. Um não, vários. 'Dark Horse', até aqui, é o
cavalo passando na frente da manada. Faz barulho, sim. Mas não é a manada.
Título e Texto: Rafael
Nogueira, O Dia, 20-5-2026

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