Com a pré-candidatura à presidência abalada pela divulgação de áudios mandados a Vorcaro, o senador se vê obrigado a dar explicações ao invés de cobrar respostas
Nuno Vasconcellos
O senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL/RJ) vive um momento especialmente incômodo para alguém que, até dias atrás, estava numa trajetória ascendente que parecia destinada a conduzi-lo ao cargo mais importante da República. Agora, ao invés de cobrar respostas, ele precisa dar explicações. Pior ainda: está exposto ao julgamento severo de pessoas dispostas a condená-lo sem se darem ao trabalho de ouvir o que ele tem a dizer em sua defesa.
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| 'Daniel na cova dos leões', pintura de Briton Rivière, 1872 |
A caminhada do senador se
deparou, na quarta-feira passada, com o maior obstáculo que enfrentou até
agora. Trata-se da publicação pelo site Intercept Brasil de uma gravação que
vem dando o que falar. Em mensagem de áudio, o senador cobra a liberação de parte
do dinheiro que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro havia prometido para ajudar a
bancar um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Batizado de Dark Horse
(expressão em inglês que significa azarão), o filme tem estreia prevista para o
mês de setembro, bem na reta final da campanha eleitoral, e será estrelado pelo
ator americano Jim Caviesel.
O episódio ainda não chegou à
Justiça. No entanto, ninguém deve estranhar se, amanhã ou depois, a
Procuradoria Geral da República ver na gravação algum motivo para processar
Flávio e o Supremo Tribunal Federal, como tem feito com todas as denúncias que
se referem à família Bolsonaro, levar o processo a julgamento. Os
desdobramentos jurídicos, porém, talvez nem sejam o aspecto mais sensível desse
episódio.
Independentemente de qualquer consequência jurídica que um processo como esse
possa vir a gerar, as implicações políticas são imediatas. Flávio pode até
conseguir provar, mais adiante, que não houve qualquer ilegalidade nos acertos
com Daniel Vorcaro que foram jogados no ventilador pelo Intercept. Mas o
estrago já está feito. E, dependendo da dinâmica de uma campanha eleitoral que
ainda não começou oficialmente, mas já está nas ruas desde o ano passado, as
consequências podem ser devastadoras para ele.
No limite das possibilidades,
a repercussão negativa do episódio pode até mesmo cortar pela raiz as chances
de vitória de uma candidatura presidencial que, até a semana passada, vinha
assumindo até mesmo um ar de favoritismo discreto na disputa contra o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. As mensagens estavam em um dos celulares de Vorcaro
apreendidos pela Polícia Federal e chegaram às mãos do Intercept sabe-se lá por
qual caminho.
Nelas, o senador expressa
solidariedade pela situação que o banqueiro estava atravessando, mas cobra o
pagamento dos recursos prometidos. Flávio não menciona o valor que Vorcaro
havia se comprometido a pagar — mas o site insiste em dizer que o total acertado
teria sido de US$ 24 milhões. É, sem dúvida, uma senhora bolada!
Pela cotação do dólar
comercial na quarta-feira passada, dia 14 de maio, quando a notícia foi
publicada, isso alcançaria o valor de R$ 117 milhões. O Intercept, porém,
preferiu fazer a conversão pela cotação na data da gravação da mensagem. Ou
seja, 16 de novembro do ano passado, domingo, véspera da primeira prisão de
Vorcaro. Na época, US$ 24 milhões valiam R$ 136 milhões — ou seja, mais ou
menos R$ 20 milhões a mais do que a cotação na quarta-feira.
A escolha, certamente, não foi
casual. Num caso rumoroso como esse, quanto mais alta a quantia envolvida no
malfeito, maior será o potencial explosivo. Em outras palavras, R$ 117 milhões
já seriam suficientes para deixar Flávio em situação para lá de embaraçosa.
Mas, convenhamos, o efeito de R$ 136 milhões é mais embaraçoso ainda. Simples
assim.
DICK VIGARISTA
A questão é que, até o momento, não se sabe
exatamente quanto Vorcaro se comprometeu a investir para ajudar a financiar o
filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro — e que, certamente, seria uma peça
de destaque da campanha de Flávio à presidência. Mas, diante da proporção que o
escândalo adquiriu desde o primeiro momento, a falta de certeza sobre a quantia
prometida chega a ser um detalhe de menor relevância.
Pelo lado da esquerda, a
primeira reação, para surpresa de absolutamente ninguém, partiu do deputado
Lindbergh Farias (PT/RJ) — que mantém a família Bolsonaro sob vigilância
raivosa, numa obsessão parecida com a do personagem trapalhão Dick Vigarista em
seu esforço pela captura do pombo Doodle, no velho desenho animado de
Hanna-Barbera. Minutos depois da gravação vir à tona, Lindbergh anunciou que
protocolaria junto à Polícia Federal um pedido de prisão imediata de Flávio.
Reações como essa, claro, são
do jogo. Pela ótica do PT e de toda a esquerda, Flávio e qualquer bolsonarista
é e sempre será culpado e deve ser levado ao pelourinho até por deslizes menos
constrangedores do que esse. É claro (e isso também é do jogo) que os partidos
da esquerda tentarão explorar o áudio no limite de suas possibilidades. E irão
além do que estiver a seu alcance para aniquilar a imagem daquele que, pelo
menos até a semana passada, vinha sendo apontado como o adversário com mais
chances de bater o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de outubro
deste ano.
OMBRO A OMBRO
É improvável que qualquer eleitor que estivesse
inclinado a votar em Flávio considere a mensagem publicada pelo Intercept como
razão suficiente para dar seu voto a Lula ou a qualquer candidato de esquerda.
O mais provável é que os eleitores que desembarcarem da candidatura de Flávio
troquem o senador por outro candidato de direita. A pergunta é: quem poderia,
na campanha deste ano, cumprir o papel que o filho mais velho de Jair Bolsonaro
está cumprindo?
O que o episódio testará, no
fundo, será a fidelidade dos eleitores de Flávio e o tamanho real da bolha
bolsonarista. Pelo que se percebe até agora, os eleitores que demonstram uma fé
cega no candidato e que votariam em Flávio em quaisquer circunstâncias não
devem chegar a 15% do eleitorado — percentual insuficiente para que, sozinhos,
eles levem o senador ao segundo turno da disputa. As chances do senador,
portanto, dependem da capacidade que ele terá de atrair eleitores identificados
com a direita (ou agastados com os governos de esquerda) que, mesmo não sendo
bolsonaristas de carteirinha, se mostrem dispostos a votar em Flávio apenas
para derrotar Lula.
Como esses eleitores reagirão
aos áudios que já foram divulgados e aos que ainda virão à tona com mais
conteúdos comprometedores? Será que a repercussão negativa das gravações será
suficiente para excluir o senador da disputa? Será que, ao contrário disso, ele
conseguirá convencer os apoiadores que o colocavam ombro a ombro com Lula na
corrida eleitoral a manter seu apoio e seguir com ele até a linha de chegada?
DESCARTE ELEITORAL
A proximidade com Daniel Vorcaro, assim como o
filme sobre a trajetória de Bolsonaro, deu aos adversários argumentos para
utilizar na tentativa de “desconstruir” a imagem de Flávio. E meio ao
escândalo, surgiu a acusação de que parte dos recursos pagos pelo banqueiro não
seriam destinados ao filme. Eles ajudariam a bancar o irmão de Flávio, o
ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde 2024. O caso
está sob investigação da Polícia Federal.
A família Bolsonaro, claro, nega a acusação — mas, a essa altura, qualquer palavra que Flávio ou seus irmãos disserem a respeito do episódio será utilizada contra eles. O que interessa aos adversários não são os fatos, mas as versões. O importante, para eles, é explorar ao máximo a possibilidade de usar escândalos como esse para manter Flávio na defensiva e impedir que ele volte a cortejar o eleitor com a desenvoltura que vinha demonstrando antes do escândalo estourar.
O senador, por sua vez, não
parece disposto a recuar de sua pretensão presidencial. A pergunta é: será que
a candidatura que até o início da semana passada parecia ter uma avenida aberta
pela frente recuperará o fôlego? Esse é o ponto que interessa.
O que mais chamou a atenção no
calor do escândalo nem foi a tentativa dos políticos de esquerda de tirar
proveito da situação. O que se destacou, isso sim, foi a pressa com que
políticos de direita que também pleiteiam a presidência se lançaram sobre o butim
— tentando conquistar para si os votos que Flávio perderia com o episódio.
O ex-governador de Minas
Gerais, Romeu Zema, que até outro dia cobria Flávio de elogios, foi o que mais
elevou o tom. “Ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável”, disse em
vídeo divulgado pela internet. O ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, tomou
outro caminho. “O pré-candidato Flávio Bolsonaro precisa, sim, se explicar
diante de todas as gravações que foram publicadas”, afirmou Caiado antes de
lembrar que, em 40 anos de vida pública, nunca foi alvo de acusações de
corrupção. Foi como se dissesse: se ele é corrupto, eu não sou!
MACALLAN 21 ANOS
A questão é muito mais complexa do que parece e
os efeitos desse escândalo ultrapassam, e muito, a figura de Flávio. Se o
critério de aferição das reputações dos candidatos à Presidência da República
nas eleições deste ano se basear em ligações com o Master ou com a família
Vorcaro, poucos permanecerão na disputa. As teias de influência do banqueiro
chegam aos três poderes da República e alcançam políticos de todas as
inclinações ideológicas.
A começar pelos dignitários do
PT da Bahia, muita gente no campo da esquerda tem explicações a dar sobre as
ligações com o ex-dono do Master. Os petistas baianos, até onde se sabe, foram
os primeiros a mergulhar no esquema de tráfico de influência, em que o
banqueiro oferecia mimos caríssimos em troca de acesso privilegiado ao poder.
Logo, a prática se alastrou alcançou algumas das mais altas autoridades da
República.
O certo é que o banqueiro não
media esforços para agradar as autoridades que, se cumprissem suas funções ao
pé da letra, poderiam criar obstáculos para que ele seguisse aumentando o
patrimônio com base em operações financeiras fajutas. As festanças que ele
oferecia em sua propriedade em Trancoso, no Sul da Bahia, eram rumorosas. Os
eventos que ele patrocinava em Nova York ou em Londres, com direito a regabofes
à base de uísque Macallan 21 anos, atraiam autoridades graúdas e o mantinha em
contato direto com o poder — com destaque para figuras próximas ao atual
governo.
Os cargos e as posições
políticas das autoridades envolvidas com o Master antes que seu nome passasse a
figurar na lista, ao invés de servir de álibi, tornam a situação de Flávio
ainda mais delicada. Mais do que os danos que o escândalo já provocou e ainda
pode provocar à sua reputação, a presença do senador na lista de Vorcaro
arranca das mãos da direita uma das bandeiras mais vistosas que ela tinha para
mostrar ao eleitor. Até a semana passada, Flávio tinha autoridade para apontar
o dedo para os adversários e acusá-los de cometer as mais tenebrosas transações
da República. Depois que os áudios vieram a público, os adversários é que estão
chamando Flávio de corrupto.
O melhor que Flávio poderia
ter feito teria sido não se envolver com o banqueiro. Já que se envolveu, não
precisava ter mandado uma mensagem de viva voz e, em alto e bom som, cobrar a
ajuda prometida para financiar o filme sobre seu pai. Mas, já que, mais uma
vez, fez o que não deveria ter feito, tudo o que resta a ele é procurar sair
dessa encrenca o mais depressa e ao menor custo possível. Diante das cobranças
inevitáveis e das explicações que será obrigado a dar daqui por diante, o
senador acertou em não fugir do assunto. Isso é tudo o que resta a ele — além,
é claro, de esperar por pesquisas confiáveis, que meçam o impacto dessas
denúncias sobre o ânimo do eleitor.
MODELO DE VIRTUDE
Flávio sempre poderá dizer — e vem fazendo isso
desde que o escândalo explodiu — que as gravações divulgadas são anteriores ao
lançamento de sua pré-candidatura. Isso é a mais absoluta verdade. A mensagem
divulgada é do dia 16 de novembro do ano passado. Vorcaro não o atendeu, nem
poderia. No dia seguinte, 17 de novembro, o banqueiro estava ocupado demais, em
reuniões com diretores do Banco Central, na tentativa derradeira de salvar seu
banco da liquidação extrajudicial. Horas depois, foi preso no aeroporto de
Guarulhos, em São Paulo, no momento em que tentava embarcar para Dubai em um
dos jatos de sua frota — no que foi visto como uma tentativa de se mandar do
país e deixar para trás a confusão que causou.
O senador só viria a se
apresentar como candidato, ungido pelo pai, no dia 5 de dezembro de 2025 — ou
seja, 18 dias depois da gravação. Poderia, ao anunciar a decisão, ter se tomado
a iniciativa de revelar, antes que alguém perguntasse, as ligações perigosas
que mantinha com Vorcaro. Preferiu, no entanto, agir como se não tivesse feito
o que fez. O que resta, agora, é saber se o senador terá tempo e argumentos
para limpar a própria ficha e reduzir os danos do escândalo em sua imagem.
Seja como for, a lama
espalhada pelo Master respingou por toda parte, mas a sujeira, neste momento,
parece concentrada exclusivamente na imagem de Flávio. Depois das críticas de
Zema a Flávio, por exemplo, alguém lembrou que o pai de Daniel, Henrique Vorcaro
(que, por sinal, foi preso pela Polícia Federal na quinta-feira passada) havia
doado R$ 1 milhão ao Partido Novo — ao qual o ex-governador é filiado.
Ora, se o dinheiro da família
Vorcaro é bom para o Novo (que sempre se apresentou como um modelo de virtude
no meio da podridão política brasileira) por que seria tão ruim para o filme
sobre Bolsonaro? O senador, por sinal, deixou clara sua insatisfação com Zema
ao dizer que merecia, pelo menos “o benefício da dúvida”.
O fato, porém, é que Zema agiu
como é comum em duelos dessa natureza: atirou primeiro e perguntou depois. Não
foi o único dos que andaram se beneficiando do dinheiro de Vorcaro a voltar as
baterias contra Flávio. O próprio senador lembrou, em entrevista à GloboNews,
que o Master foi um patrocinador generoso do programa do apresentador Luciano
Huck na TV Globo.
A emissora, como se sabe, é
crítica a tudo que se refira a Bolsonaro, qualquer Bolsonaro. Na entrevista,
Flávio mencionou que o Master havia aportado R$ 160 milhões na TV Globo —
embora ninguém tenha tornado público o valor do patrocínio. Como se vê, o senador
não foi o único a pôr as mãos em dinheiro de Vorcaro. Mas, pelo que se viu até
agora, corre o risco de pagar o preço mais caro pelas ligações com o banqueiro.
Título e Texto: Nuno Vasconcellos, O Dia, 17-4-2026

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