Sergio Morais
Portugal empata o primeiro jogo do Mundial e, em poucos
minutos, já se procura um culpado. E, como quase sempre acontece, o nome
escolhido é Cristiano Ronaldo
Mas alguém viu o jogo?
O Bruno Fernandes apareceu? O Bernardo Silva apareceu? O Vitinha apareceu? O Nuno Mendes apareceu? O Cancelo apareceu? A equipa, no seu todo, esteve ao nível que todos esperávamos?
Portugal teve mais posse de
bola, mais qualidade individual e mais talento, mas produziu muito menos do que
devia. Então a responsabilidade é apenas de um jogador de 41 anos?
Podemos discutir as opções de
Roberto Martínez. Podemos questionar por que não entrou mais cedo um Rafael
Leão ou um Francisco Conceição, jogadores capazes de desequilibrar no um para
um, acelerar o jogo e criar situações de perigo. Podemos criticar a falta de
intensidade, a falta de criatividade e a forma como a equipa deixou de
controlar o jogo em vários momentos.
Mas transformar Cristiano
Ronaldo no bode expiatório de tudo o que corre menos bem já se tornou um hábito
nacional.
Curiosamente, quando ganha,
ganha a equipa. Quando perde ou empata, a culpa é do Cristiano.
E já agora, sejamos
honestos...
Ainda antes de a bola começar
a rolar, já uma parte da imprensa portuguesa andava à procura de problemas onde
eles nem sequer existiam.
Durante dias falou-se mais do Cristiano Ronaldo do que da própria Seleção. Uns questionavam se devia ser titular, outros se devia continuar a ser convocado. Ao mesmo tempo surgiam notícias sobre o eventual futuro de Roberto Martínez depois do Mundial, como se estivéssemos a preparar um funeral antes de começar a festa.
Parece que há sempre uma
necessidade de criar polémicas, dividir o grupo, alimentar discussões e
procurar culpados antes mesmo de existir um problema real.
Porque a verdade é esta: uma
parte da imprensa não vive das vitórias da Seleção. Vive das polémicas, dos
cliques, das audiências e das manchetes.
Se Portugal ganhar, há pouco
para discutir. Se Portugal empatar ou perder, há dias e dias de debates,
acusações, teorias e culpados para encontrar.
E essa pressão constante acaba
inevitavelmente por chegar aos jogadores, ao treinador e ao ambiente que rodeia
a equipa.
A verdade é que Portugal
continua a ter uma das seleções mais talentosas do mundo, mas talento não
garante títulos. Nunca garantiu.
Há seleções igualmente
talentosas que também vão ficar pelo caminho. Há equipas com grandes estrelas
que não serão campeãs do mundo. Porque no final só uma levanta a taça.
E convém lembrar que isto foi
apenas o primeiro jogo.
O Brasil também não venceu na
estreia. A Espanha também não venceu na estreia. Outras seleções favoritas já
deixaram pontos pelo caminho. Os Mundiais não se ganham na primeira jornada.
Fazem-se em progressão, crescendo jogo após jogo.
O que me preocupa não é o
empate.
O que me preocupa é ver uma
parte dos adeptos portugueses, dos comentadores e da comunicação social a
disparar contra a própria equipa ao primeiro obstáculo.
Parece que Portugal tem
obrigação de ser campeão do mundo porque sim.
Não tem.
Tem uma excelente geração de
jogadores. Tem qualidade. Tem ambição. Tem condições para sonhar.
Mas continua a enfrentar
adversários que também sonham, também trabalham e também querem ganhar.
Talvez esteja na altura de
percebermos que os grandes Mundiais não são ganhos apenas pelos jogadores
dentro de campo.
São ganhos também pelo
ambiente criado à volta da equipa.
Enquanto outros países
protegem os seus, nós parecemos ter uma enorme facilidade em atacar os nossos
ao primeiro deslize.
E talvez seja aí que esteja
uma das nossas maiores fraquezas.
Ontem empatámos. Ponto.
Não fomos eliminados. Não
perdemos o Mundial. Não deixámos de ter qualidade. Não deixámos de ter ambição.
O que não pode acontecer é
transformar um empate na primeira jornada numa caça ao homem, seja ele
Cristiano Ronaldo, Roberto Martínez ou qualquer outro.
A responsabilidade de ontem
não é de um jogador.
É de todos.
Dos que estiveram em campo,
dos que estiveram no banco, do treinador, da estratégia, da execução e até do
ambiente criado à volta da equipa.
O Mundial continua.
Nada está perdido.
Agora é altura de corrigir,
melhorar, crescer e apoiar.
Porque se há momento em que
Portugal precisa de união, é precisamente agora.
Força Portugal!
Título, Imagem e Texto: Sergio Morais, Facebook, 18-6-2023, 10h13
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