quinta-feira, 30 de julho de 2026

O crime de visitar Israel

José António Rodrigues Carmo

Um grupo de influenciadores portugueses aceitou o convite para visitar Israel numa viagem paga. Bastou para que as televisões nacionais entrassem em estado de hiperventilação moral


Sobrancelhas levantadas, vozes acusadoras e a súbita descoberta de que uma viagem patrocinada pode influenciar a percepção de quem viaja.

É uma revelação importante.

Durante décadas, jornalistas, artistas, artivistas e políticos viajaram a convite de governos, organizações, fundações e movimentos sem que ninguém pedisse a intervenção da PJ.

As deslocações a Ramallah são missões de solidariedade. As flotilhas para Gaza são ações humanitárias. As visitas organizadas por ONG militantes são testemunhos no terreno. Mas uma viagem a Israel é "propaganda”.

A diferença, pelos vistos, está no destino. Uns países podem ser visitados e Israel apenas pode ser julgado.

O problema com os influenciadores foi terem regressado com imagens que não cabem na narrativa autorizada. Viram ruas, praias, restaurantes, mulheres livres, homossexuais sem necessidade de grua para os retirar de um telhado e cidadãos árabes que, contra as indicações da Internacional Antissionista, não pareciam viver num campo de extermínio.

Naturalmente, não viram tudo. Nenhuma viagem mostra tudo. Nem uma visita a Lisboa revela a corrupção, os bairros clandestinos e a programação integral da SIC N. Mas parece curioso que este rigor metodológico só apareça quando alguém mostra Israel sem música fúnebre por baixo e sem acompanhar com estribilhos de "genocídio", "Nethaniahu", "apartheid", etc.

As televisões portuguesas, habituadas a apresentar comunicados do Hamas como informação meteorológica, ficaram consternadas. Israel não deve ser observado, deve ser explicado pelos especialistas que já sabiam o que pensar antes de abrirem os olhos.

Kiko is Hot, uma criatura que há uns anos seria o maluquinho da aldeia ou estaria internada no Magalhães Lemos, recusou o convite, balbuciou umas banalidades do catecismo, e foi imediatamente elevado à dignidade de consciência moral do turismo português.

Os que aceitaram foram tratados como criaturas ingênuas, compradas por um bilhete de avião, três pequenos-almoços e uma fotografia ao pôr-do-sol.

Por que razão este escrutínio termina à porta de Israel? Por que razão o "jornalismo" não fez o mesmo espetáculo quando entrevistou os flotilheiros? Por que razão não arquearam as sobrancelhas e grelharam a Dona Mortágua para que explicasse quem pagou o seu cruzeiro pelo Mediterrâneo, para apoiar um grupo terrorista?

A demonização começa sempre assim, decretando previamente quem tem autorização para descrever a realidade.

Os influenciadores cometeram, afinal, o imperdoável pecado de irem ver como ela era.  Sem pedir licença ao Hamas e isso é que irrita a récua antissemita que está instalada em grande parte dos media

Goebbels, na sua tumba, baba-se de orgulho.

Título e Texto: José António Rodrigues Carmo, Facebook, 30-7-2026, 8h54

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