Vitor Grando da Silva Pereira
Há certas passagens na
Escritura Sagrada que nos rendem muitos problemas sociais e intelectuais. É
natural que seja assim. C. S. Lewis, numa de suas sábias colocações, disse
que se a teologia cristã encaixasse muito facilmente na nossa cabeça, a
explicação mais provável é que ela não seria outra coisa do que fruto do
intelecto humano.
Não é o caso, porém. Trata-se
da revelação de um ser que está para muito além de nossa capacidade cognitiva.
Dessa forma, considerando nossa finitude e pecado, dificuldades de compreensão
certamente surgirão.
O texto de Ef 6.5-9 é especialmente complicado porque parece legitimar a instituição da escravidão e nenhum de nós, claro, poderia admitir tal coisa. Então a crise colocada diante de nós parece ser a opção entre ficar com a autoridade das Escrituras e aceitar a legitimidade da escravidão ou rejeitar a legitimidade da escravidão e rejeitar a autoridade das Escrituras.
Mas esse é o texto que temos
em mãos e é o texto que cremos ser inspirado por Deus. Então, trago aqui alguns
pensamentos sobre o problema da escravidão que esse texto nos coloca.
1.
A escravidão aqui não deve ser entendida à luz
das imagens horrendas que temos em mente quando tratamos desse assunto. Não se
está justificando a tomada à força de pessoas de outros continentes, por
motivação racial, para subjugá-lo a um regime especialmente opressivo sob o
rigor da chibata.
2.
Alguns estudiosos estimam que os escravos
correspondiam a um terço da população de uma cidade como Éfeso. Escravos
geralmente eram considerados parte da família. Por isso, Paulo instrui os
escravos no contexto familiar1. No mundo antigo, muitos se submetiam
voluntariamente à escravidão diante da alternativa da fome. Então, qual
é a solução imediata possível a um cristão nesse contexto? A incitação
à insurreição seria uma ilusão irresponsável. Por isso, Paulo propõe algo
acessível e imediato: tratar de modo digno e humano o seu escravo.
3. O cristianismo sempre foi uma força histórica contrária à escravidão. Após a conversão do Imperador Constantino, o Império institui leis flexibilizando a escravidão. Constantino criou o instituto da “manumissio in ecclesia“, que foi uma forma de alforria estabelecida no Império Romano que conferia liberdade e cidadania a escravos através de um ritual religioso na igreja, marcando a importância crescente do cristianismo e a busca por soluções mais humanitárias para a escravidão. Essa instituição ligava o ato jurídico da libertação a um contexto espiritual, associando o perdão e a caridade cristã ao gesto de alforria; assim, a liberdade passou a ter mais do que um valor civil, mas um valor sagrado.
4.
A escravidão foi uma instituição universal. Dião
Crisóstomo, contemporâneo do Novo Testamento, explicitamente afirma que muitos
se vendiam como escravos por meio de um contrato, o que provavelmente significa
que havia um limite temporal à sua escravidão. havia diversas razões para
alguém se tornar escravo, tais como “encontrar uma vida mais fácil do que a que
tinham como homens livres, conseguir ocupações privilegiadas e ascender
socialmente”. Epiteto, importante filósofo romano, afirma que quando era
escravo recebia alimento, vestimenta, abrigo e cuidado quando estava doente.
Quando ele se tornou livre, esses benefícios não lhe foram providos. Escravos
podiam se tornar pessoas altamente instruídas e educadas. Muitos se tornavam
tutores responsáveis pelo ensino da moral e etiqueta aos filhos dos seus
senhores. Alguns se tornavam professores de nível superior, outros, médicos.”
5.
A abolição foi uma invenção de um homem,
europeu e cristão evangélico: William Wilberforce2 na Inglaterra do séc. XVIII.
Posteriormente, o movimento inglês influenciou o mundo, incluindo o Brasil como
se vê na obra de Joaquim Nabuco3. Inclusive o Parlamento Britânico aprovou
o Slave Trade Suppression Act4 em 1845 que autorizava a Marinha
Britânica a apreender qualquer navio suspeito de transportar escravos no oceano
Atlântico. A Marinha Real apreendeu, entre 1845 e 1850, 368 navios brasileiros
que faziam tráfico de escravos para o Brasil. Isso é um bem que o Imperialismo
Britânico fez ao mundo.
6.
Supor que a tolerância da Escritura com essa
instituição equivale a considerá-la uma instituição desejável que
deva ser perpetuada é um evidente equívoco. Isso é tão
irrazoável quanto supor que os filhos devam sempre permanecer menores de idade5.
7.
A Bíblia não parece preocupada primordialmente
com a mudança nas estruturas sociais. Não só não parece haver nenhuma oposição
explícita à instituição da escravidão em si mesma, como também ela
não parece se opor às formas de governo geralmente despóticas da época. “O
método da Bíblia de lidar com essa instituição [a escravidão] e outras”, diz
Charles Hodge, “é exigir, de todos os envolvidos, os grandes princípios da
obrigação moral — certo de que esses princípios, se forem extensamente
aplicados, darão fim a todos os males tanto nas relações políticas quanto
sociais dos homens.”. Isso não quer dizer, de modo algum, que o cristão não
possa muito menos que não deva lutar contra essas instituições. Quer dizer
apenas que, na ordem de prioridades, essa não é a principal para a fé cristã.
8.
A Bíblia apresenta algo muito mais profundo,
eficaz e imediato do que uma proposta de revolução política. Em vez de incitar
os escravos a se insurgirem contra seus senhores, invertendo a relação de
dominação, ou vender a ilusão de um mundo no qual não existam hierarquias
sociais, Cristo altera o padrão de exercício de poder. Cristo, ao se humilhar,
foi exaltado por Deus. “Esse é um ataque muito mais profundo na dicotomia
senhor-escravo do que qualquer revolução proletária ou comuna anarquista,
porque subverte as estruturas de opressão e exploração sustentadas por essa
dicotomia, em vez de simplesmente mudar os ocupantes dessas estruturas. Cristo
estabelece um novo padrão para o exercício de autoridade e poder: o mestre,
aquele que detém a autoridade, é aquele que busca, não seus próprios
interesses, mas o do próximo. [...] O Senhor não é deposto; o senhor se torna
(e permanece) um servo”.6
9.
A Bíblia, portanto, apresenta uma proposta mais
factível, mais realista, que respeita a ordem criacional e que pode ser
aplicada por todos nós de imediato. Sem dependermos de mudança de regime
político, de nenhuma revolução, de nenhuma disrupção na ordem vigente. É
aqui e agora que começa a subversão proposta pelo Evangelho. E começa em
cada um de nós.
Título e Texto: Vitor Grando
da Silva Pereira, Substack, 3-7-2026
1 BAUGH, S. M. EvangelicalExegetical Commentary. Ephesians, p. 519
2 A sua história pode ser vista no excelente filme Jornada pela Liberdade (2006). Pode-se assistir ao trailer aqui: Jornada PelaLiberdade (Trailer).
3 Na obra O Abolicionismo, Nabuco em referência ao movimento liderado por Wilberforce, contrasta-o com a situação no Brasil dizendo:
“Em outros países, a
propaganda da emancipação foi um movimento religioso, pregado do púlpito,
sustentando com fervor pelas diferentes igrejas e comunhões religiosas. Entre
nós, o movimento abolicionista nada deve, infelizmente, à Igreja do Estado;
pelo contrário, a posse de homens e mulheres pelos conventos e por todo o clero
secular desmoralizou inteiramente o sentimento religiosos de senhores e
escravos”. A obra encontra-se em domínio público: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000127.pdf
4 “O Slave Trade Suppression Act ou Aberdeen Act, mais conhecido no Brasil como Bill Aberdeen,[1] foi um ato do Parlamento do Reino Unido, promulgado em 8 de agosto de 1845, que autorizava os britânicos a prender qualquer navio suspeito de transportar escravos no oceano Atlântico”. Cf. Bill Aberdeen –Wikipédia, a enciclopédia livre.
5 Esse ponto devo a Charles Hodge no seu comentário a Efésios. Seu comentário é bastante equilibrado. A sua leitura é especialmente interessante porque ele foi escrito em 1857, quatro anos antes da Guerra de Secessão, que teve justamente a questão da escravidão nos Estados Unidos como causa principal.
6 WATKIN, Christopher Mark. Michel Foucault (Great Thinkers) (p. 89). P&R Publishing. Edição do Kindle.

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