Em artigo, Quintino Gomes Freire afirma que o Rio precisa ampliar o Tolerância Zero e deixar de tratar a desordem como parte da identidade carioca
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| Foto: Rafael Catarcione/RioTur |
O carioca vive reclamando que
a cidade está desorganizada, que virou uma bagunça e que alguém precisa fazer
alguma coisa. Mas sempre que alguém resolve agir, porém, recebe uma avalanche
de críticas. A cantilena é sempre a mesmo: “podia estar roubando”, “podia
estar matando”. Sempre ignorando que direta ou indiretamente, a camelotagem
clandestina está quase sempre ligada ao crime organizado.
É o que acontece com a
acertada política de Tolerância Zero adotada pelo
prefeito Eduardo Cavaliere nas praias da Zona Sul.
A iniciativa, ao menos em sua proposta inicial, não tem nada de extraordinário.
Busca fazer valer as regras que sempre existiram e promover um choque de ordem
entre o Leme e o Leblon. Só no Rio de Janeiro que
combater atividade ilegal e clandestina que sustenta redes de falsificadores e
contrabandistas, que indiretamente acabam ligados até mesmo a facções
criminosas causa algum espanto. Na verdade, a Prefeitura está apenas cumprindo
sua obrigação.
Chegamos ao ponto de um procurador da República sustentar que não caberia à Prefeitura do Rio fiscalizar as praias da própria cidade: ele quer suspender o programa. Diz que a competência pra fiscalizar a orla seria da União. Pela lógica torta do funcionário concursado, seria necessário colocar a Polícia Federal ou até a Marinha para caminhar pela areia e verificar se cada ambulante possui licença. Um disparate. Aliás, como tem sido a atuação do MP Federal sempre que tem se metido no cotidiano da cidade: parece querer ver os assaltantes tomando conta das praias, os drogados e adictos nas ruas defecando e atacando cidadãos – há casos vários até de estupro infantil – e agora querem ver as mercadorias falsificadas gerando lucros à quadrilhas do crime organizado. O MP Federal ignora a destruição de Prédios Tombados Federais, o vilipêndio de monumentos protegidos pelo Iphan, acha irrelevantes nos sucessivos – e bem curiosos – incêndios em bens da UFRJ, mas atua seguidamente pra proteger assaltantes, cracudos e agora os camelôs clandestinos vendedores de mercadoria contrafeita ou roubada. Com essa atuação, o Brasil vai longe!
Outra reclamação um pouco mais
razoável é: o Tolerância Zero deveria alcançar toda a cidade, em vez de ficar
concentrado apenas na orla. A gente concorda totalmente, mas toda caminhada
começa pelo primeiro passo. Aliás, veio à cabeça outra crítica bastante idiota
que certos cariocas adoram: “que adianta limpar a praia de Copacabana e
deixar Ricardo de Albuquerque à própria sorte?”. Tem um tipo de gente que
acha que se não fizer tudo de uma vez, é melhor não fazer nada, e não entende
como funciona uma economia: é lógico que algo assim tem que começar onde há
mais turismo e geração de divisas. O Centro Histórico é outro lugar que também
deve ser priorizado, até pra proteger os bilionários investimentos públicos que
a região vem recebendo desde o Porto Maravilha.
Parece que parte da reação se
resume ao medo de perder o queijo coalho, o milho e o camarão vendidos na
areia, que ninguém sabe como foi preparado, onde e nem os ingredientes. É
incrível que se considere que um chileno vendedor de caipirinha preparada sabe-se-lá
como tem o direito de se instalar na porta de um comerciante que paga impostos,
dá emprego, e vender aquela icógnita pela metade do preço, e quando toca um
rádio infernal que se houve a 5 quarteirões de distância. Será que essas pessoas
entendem os riscos envolvidos?
O vendedor de queijo coalho
circula por uma praia cheia com um pequeno forno e carvão em brasa. Uma queda
pode causar queimaduras graves. O ambulante do milho transporta uma panela com
água fervente perto de crianças, idosos e banhistas distraídos. Há ainda os
espetos de madeira usados para servir alimentos. Quando abandonados na areia,
podem perfurar o pé de quem estiver caminhando pela praia, isso sem contar que
se desconhece a higiene e os produtos utilizados. Tudo isso em meio a inúmeros
quiosques que vendem as mais variadas coisas.
E o tal do camarão? Quase todo
mundo conhece alguém que passou mal depois de consumir o produto vendido sob o
sol. A mesma preocupação vale para as condições de higiene e conservação de
outros alimentos comercializados na orla. O espírito carioca exige mesmo
aceitar o risco de uma queimadura ou de uma infecção intestinal?
Esses vendedores não possuem
autorização alguma da Prefeitura do Rio. Não sei por quê, mas
parece que ficou desagradável dizer o óbvio: atividade irregular é proibido.
Durante a crise da Covid-19, quando o desemprego cresceu e milhares de famílias
perderam renda, havia algum espaço para maior tolerância e políticas de
transição. Hoje, são muitos os casos de camelôs que faturam mais do que é lojas
regulares sem pagar impostos. Lembram do caso da doceira de rua que no Centro –
que teve seu movimento bastante atingido nos últimos anos – fatura 60 mil reais
por mês? Perguntada, disse o óbvio: não quer expandir o negócio. Claro: se
pagar impostos, custos previdenciários, licenças e cumprir as normas da
vigilância sanitária, quanto seu lucro vai cair?
A situação hoje é diferente. A
economia apresenta sinais de recuperação e o desemprego caiu. Isso não elimina
a necessidade de criar alternativas para quem depende do comércio ambulante,
mas também não transforma uma atividade sem licença e sem controle em direito
adquirido. Também não estamos mais na época do Prefeito-bispo que achava graça
em transformar a cidade toda numa feira de Acari, eliminando anos brilhantes de
ordem urbana começadas pelo prefeito César Maia.
Quem nunca teve autorização
não pode afirmar que perdeu uma licença que jamais existiu. Também não pode
bloquear ruas, impedir fiscalizações ou transformar toda ação de ordenamento em
confronto. Muito menos faz sentido defender que a essência do carioca está na
desorganização.
Talvez essa romantização da
bagunça ajude a explicar por que o Rio de Janeiro passou a ser
chamado de Gotham City. A cidade que muitos desejam não é essa. O
Rio dos antigos registros, limpo, organizado e agradável, não precisa existir
apenas em vídeos de arquivo. Ordem urbana não apaga a identidade carioca. É,
sim, uma das condições para que a cidade seja boa de viver para todos. A
informalidade é um câncer que consome a urbe do Rio de Janeiro pouco a pouco, e
devemos evitar a sua metástase antes que seja tarde.
Título e Texto: Quintino Gomes Freire, Diário do Rio, 19-7-2026
Tolerância Zero ganha drones com alto-falantes para fiscalizar praias do Rio

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