Não é coincidência de agenda. É uma escolha, e ela revela o que as pesquisas estão mostrando
Rogerio Pires
No dia 31 de agosto, o ministro do
Planejamento, Bruno Moretti, foi direto com os jornalistas. Perguntado sobre o
Bolsa Família em 2027, respondeu sem rodeio: “Não tem previsão de reajuste.”
O governo tinha acabado de mandar ao
Congresso o Orçamento do ano que vem. Piso congelado em R$ 600. R$ 157,1
bilhões reservados para o programa, menos do que em 2026 e menos do que em
2025.
Dezessete dias depois, nesta
quinta-feira, o mesmo ministro voltou aos microfones para anunciar exatamente o
contrário. Reajuste de 15,04%. O piso sobe para R$ 691. O benefício médio vai
de R$ 675 para R$ 777. Lula esteve presente, não discursou e depois foi ao X
comemorar.
Faltam dezessete dias para o primeiro
turno.
Quero deixar uma coisa clara antes de
seguir. Não me incomoda que uma família pobre receba mais. Quem empurrou um
carrinho de supermercado nos últimos três anos sabe que os R$ 600 de 2023 já
não enchem o mesmo carrinho. O arroz subiu, o óleo subiu, a carne virou luxo.
Os 15% são apenas a inflação acumulada desde março de 2023. É reposição. Chega
a ser pouco.
O que me revolta é o calendário.
O dinheiro novo começa a cair na conta
no dia 19 de outubro. Se houver segundo turno, ele será no dia 25. Seis dias
depois.
Seis dias.
Agora eu faço as perguntas que o governo não respondeu.
Se o reajuste era necessário, e era,
por que ele não estava no Orçamento enviado em 31 de agosto? A inflação de três
anos não brotou em duas semanas. O INPC de agosto já era conhecido. Nada na
conta do supermercado mudou entre uma segunda-feira de agosto e uma
quinta-feira de setembro.
Mudou outra coisa. Mudaram as
pesquisas. Os levantamentos mais recentes, por mais que ainda ache que são
tendenciosos, mostram vantagem numérica de Flávio Bolsonaro já no primeiro
turno e se dilata ainda mais num eventual segundo turno.
E tem um detalhe que diz muito sobre
planejamento. O ministro afirmou que tudo cabe nas regras fiscais e que o
relatório de avaliação das despesas sai no dia 24. Ou seja, a decisão de R$ 5,8
bilhões neste ano e R$ 22 bilhões em 2027 foi anunciada uma semana antes do
documento que deveria sustentá-la. Primeiro o palanque, depois a planilha.
O mercado entendeu o recado na hora. A
Bolsa abriu em alta e perdeu quase 3 mil pontos logo depois do anúncio. E quem
acha que isso é problema de engravatado da Faria Lima esquece como a história
termina. Desconfiança fiscal vira dólar alto. Dólar alto vira comida cara. E
comida cara volta para o mesmo carrinho de supermercado que o reajuste prometia
proteger.
O Bolsa Família atende mais de 19
milhões de famílias. É necessário. Justamente por isso não pode ser tratado
como ferramenta de campanha, por governo nenhum.
Pobreza não é moeda eleitoral.
Dinheiro público não pertence ao presidente. Política social séria se faz com
planejamento, com transparência e com o reajuste escrito no Orçamento, não com
uma decisão bilionária anunciada na porta da eleição e paga seis dias antes de
um possível segundo turno.
Um governo confiante não precisa
correr contra o relógio. Esse gesto tem cheiro de desespero.
No dia 4 de outubro, a resposta cabe
na urna. Vamos varrer o PT já no primeiro turno. O povo brasileiro merece
dignidade o ano inteiro, e não migalha com data marcada.
Título, Imagem e Texto: Rogerio Pires, Timeline, 17-9-2026
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