quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O gato, o palanque e a indignação seletiva


Leah Levy Cohen Ligia

Ontem, Lula subiu novamente à tribuna da ONU e fez o que já virou tradição em seus discursos internacionais: vestiu a beca de juiz do Oriente Médio, proferiu a sentença contra Israel e voltou para casa convencido de que acabara de resolver aquilo que judeus e árabes não conseguiram resolver nos últimos cem anos. Chamou de genocídio a guerra travada pelo governo Netanyahu, reservou uma frase protocolar aos atos terroristas do Hamas e ainda concedeu a Francesca Albanese o selo presidencial de proprietária da verdade. Tudo muito equilibrado, naturalmente. De um lado, uma organização terrorista que invadiu casas, assassinou famílias, violentou mulheres e sequestrou civis. Do outro, o país que ousou sobreviver ao ataque. Para o atual governo brasileiro, porém, parece que legítima defesa tem prazo de validade, especialmente quando quem se defende é judeu.

É perfeitamente possível criticar Netanyahu, questionar decisões militares, sofrer com a morte de civis palestinos e exigir que toda guerra respeite limites. Eu mesma não terceirizo meu pensamento a governo algum. Mas existe uma distância enorme entre criticar políticas israelenses e transformar Israel na origem de todos os males do planeta. Quando a indignação de alguém só funciona diante de Israel, enquanto permanece em repouso absoluto diante do Irã, da Síria, do Iêmen, do Sudão, do Afeganistão e de tantas outras tragédias, talvez não estejamos diante de consciência humanitária. Talvez seja apenas o velho antissemitismo que trocou a suástica pelo lenço palestino, aprendeu algumas palavras novas e passou a se apresentar como militância progressista.

No Brasil, isso já deixou de ser um acidente isolado. O antissemitismo não apenas cresceu: acomodou-se, tirou os sapatos e colocou os pés sobre a mesa. Judeus são cobrados publicamente pelas decisões de um governo situado a milhares de quilômetros, escolas judaicas reforçam a segurança, símbolos religiosos precisam ser escondidos e qualquer manifestação de medo recebe como resposta uma palestra sobre Netanyahu. O preconceito agora vem com bibliografia, palavras em inglês e aparência de virtude. E quando o próprio presidente da República repete acusações máximas contra Israel, concede credibilidade automática aos seus acusadores e trata como verdade revelada uma narrativa profundamente contestada, ele talvez não esteja redigindo uma autorização oficial para odiar judeus, mas certamente está oferecendo aos antissemitas um salvo-conduto moral carimbado no Palácio do Planalto.

O mais curioso é observar quem desfila nessa procissão. Uma parte barulhenta do movimento LGBT grita “Free Palestine” sem jamais se perguntar exatamente livre de quê, para quem e sob qual governo. Em Gaza, relações entre homens podem levar a anos de prisão. No Irã, relações entre pessoas do mesmo sexo podem chegar à pena de morte. Em Israel, apesar de todas as imperfeições e contradições que qualquer democracia possui, gays vivem abertamente, ocupam cargos públicos, servem no Exército, formam famílias e celebram uma das maiores paradas do orgulho do Oriente Médio. Ainda assim, é Israel que recebe o crachá de Estado opressor entregue por pessoas que não poderiam levantar a própria bandeira durante meia hora sob os regimes que romanticamente defendem.

Com uma parte das feministas acontece fenômeno semelhante. A franja é milimetricamente revolucionária, o sovaco é orgulhosamente livre, mas a liberdade das mulheres iranianas parece não caber no cartaz. Algumas defendem, do conforto de uma democracia ocidental, movimentos que lhes retirariam a voz, a autonomia, a roupa escolhida e provavelmente até o direito de protestar. Gostaria de vê-las explicando sua teoria de libertação a uma polícia da moralidade. Talvez descobrissem, entre uma aula compulsória e outra, que patriarcado não é apenas um homem inconveniente numa reunião de condomínio.

E antes que alguém venha explicar que o hijab também pode representar uma escolha religiosa, eu concordo. O ponto está justamente na palavra escolha. Em Jerusalém, uma mulher pode vestir-se segundo as regras de tzniut; outra pode usar hijab; uma terceira pode caminhar de calça, cabelo descoberto e braços de fora. Em Tel Aviv, mulheres circulam de biquíni pela praia como em Ipanema. Democracia não é obrigar todas a se vestirem da mesma forma. É permitir que cada uma escolha sua roupa sem que um governo, um aiatolá ou uma patrulha ideológica decida por ela. O problema nunca foi o tecido. O problema sempre foi quem manda no corpo que está debaixo dele.

Israel está longe de ser perfeito, e ainda bem. Países perfeitos só existem na propaganda, geralmente pouco antes de alguém ser preso por discordar dela. Israel discute, protesta, derruba governos, leva autoridades aos tribunais, expõe escândalos, abriga judeus, muçulmanos, cristãos, drusos, religiosos, seculares, gays, héteros, mulheres de peruca e mulheres de biquíni. É um país onde cada decisão produz quatro manifestações, seis processos e aproximadamente doze grupos de WhatsApp. Pode-se criticar muita coisa, mas é preciso uma ginástica intelectual olímpica para chamar essa sociedade de fascista enquanto se poupam regimes nos quais oposição política, homossexualidade e liberdade feminina podem ser tratadas como crimes.

Talvez o que incomode tanto não seja aquilo que Israel faz, mas o fato de Israel continuar existindo. É um país minúsculo, cercado por inimigos, atacado repetidamente, condenado preventivamente e julgado por critérios que raramente são aplicados a qualquer outra nação. Sobreviveu a guerras, atentados, boicotes, resoluções, campanhas internacionais e agora enfrenta também a indústria mundial da desinformação, na qual uma versão divulgada pelo Hamas percorre o planeta antes que a verdade tenha conseguido calçar os sapatos.

Às vezes penso que Israel deve ser mesmo um gato. No Brasil, dizem que gato tem sete vidas. Israel já gastou as sete, pediu mais duas emprestadas à versão americana e aparentemente ainda conseguiu um plano de milhagem. Talvez seja exatamente isso que irrite tanta gente: depois de tudo, o gato continua de pé, continua miando, continua se defendendo e se recusa terminantemente a desaparecer para facilitar o discurso de alguém na ONU. E talvez não seja por acaso que, entre os grandes símbolos do povo de Israel, esteja justamente o Leão de Judá. Porque, quando esse gato precisa mostrar quem realmente é, ele deixa de miar e ruge. Afinal, estamos falando do rei dos felinos.

A pergunta não é se Israel pode ser criticado. Claro que pode e deve. A pergunta é por que, entre todas as monstruosidades deste mundo, há tanta gente cuja consciência só desperta quando pode culpar o Estado judeu. Isso ainda é defesa dos direitos humanos ou é apenas o preconceito mais antigo da humanidade usando uma fantasia nova?

E você, também percebe que a indignação mundial parece ter um único endereço?

Se este texto fez sentido para você, compartilhe. Porque o antissemitismo cresce justamente quando todos percebem o que está acontecendo, mas preferem não criar confusão.

Título, Imagem e Texto: Leah Levy Cohen Ligia, Faceboook, 23-9-2026, 11h12

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não publicamos comentários de anônimos/desconhecidos.

Por favor, se optar por "Anônimo", escreva o seu nome no final do comentário.

Não use CAIXA ALTA, (Não grite!), isto é, não escreva tudo em maiúsculas, escreva normalmente. Obrigado pela sua participação!
Volte sempre!
Abraços./-