segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O verdadeiro pontapé na cara das mulheres

Monetizar o corpo só é pecado quando a mulher o faz por conta própria — e sem pedir autorização à nova moral

Maria Helena Costa

Antes de iniciar a minha prosa sobre os raivosos ataques à protagonista da campanha da plataforma de apostas Novig, Sydney Sweeney, cumpre-me dizer que, como cristã, acrescento outra recusa, mais antiga e menos negociável: não me revejo na exibição do corpo feminino como meio para o que quer que seja — nem para apostas, nem para um suposto “empoderamento”, nem para vender calças de ganga ou previsões. O corpo não é um cartaz. Não é um argumento. Não é moeda de troca. Esta recusa não nasce de um pudor vitoriano, nem de ódio à beleza; nasce da convicção de que a pessoa humana não se reduz ao que se pode mostrar, cobrir estrategicamente ou cotar no mercado.

Posto isto, creio que já todos sabem que há um anúncio em que Sydney Sweeney aparece nua, ou quase nua, coberta por bolas, raquetes e tacos, a promover uma plataforma de previsões desportivas. Várias atletas reagiram com indignação — não face ao crescente mercado das apostas, onde tantos gastam mais do que aquilo que têm, mas sim perante o que consideram ser um “pontapé na cara de todas as mulheres”, que sexualiza o desporto feminino, reduz anos de treino à mera aparência e monetiza o corpo. Ariarne Titmus pergunta como é que ainda se vive num mundo em que isto acontece. Amy Hunt, após uma final de 200 metros, olha para a câmara e atira: “É assim que são as mulheres no desporto” — músculos, sangue, suor e lágrimas.

O desconforto das atletas é compreensível. O desporto feminino lutou durante décadas para não ser tratado como uma revista de praia com cronómetro. As mulheres querem ser vistas pelo que fazem, não pelo que tapam ou destapam. Até aqui, perfeitamente razoável.

O problema começa quando se repara no resto do programa moral de muita gente que agora grita “objetificação”.

Os mesmos círculos que descobrem de repente que “monetizar o corpo” é uma ofensa civilizacional são, com frequência, os que defendem a legalização da prostituição como “trabalho sexual”: uma profissão como outra qualquer, digna, escolhida, “empoderadora”. Vender o uso do corpo a desconhecidos, muitas vezes em condições de pobreza, coação ou tráfico, passa a ser visto como autonomia. Posar nua a tapar os seios com uma bola de basquetebol, sendo acionista da empresa e cobrando um contrato de estrela, é uma regressão patriarcal. A nuance é fascinante: o corpo da mulher pobre ou vulnerável pode ser uma mercadoria regulamentada; o da atriz rica, não. A diferença parece residir menos na dignidade do que no slogan da semana. Afinal, o sagrado dogma do “meu corpo, minhas regras” ou do “no meu corpo mando eu” parece sofrer de uma súbita amnésia seletiva. Onde para a premissa de que a mulher é a soberana absoluta das suas decisões quando essa mulher se chama Sydney Sweeney? Descobre-se, com requintes de ironia, que o direito à escolha é pleno, inquestionável e digno de aplauso — exceto se a escolha for usar a própria imagem para faturar milhões por conta própria. Aí, o “meu corpo, minha escolha” perde instantaneamente a validade e passa a requerer uma licença especial do comité de virtudes, provando que, para o novo puritanismo, a mulher só manda no seu corpo se optar pelo guião previamente aprovado pela ideologia de serviço.

E fica a pergunta incómoda: essas mesmas vozes que se indignam com a exibição do corpo no anúncio também se indignam com quem o exibe, de forma explícita e contínua, no OnlyFans? Ou a objetificação só ofende quando surge numa campanha de apostas e não quando vem numa subscrição mensal vendida como pretensa liberdade?

A ironia não pára no bordel legalizado. Os mesmos que exigem que o desporto feminino deixe de ser sexualizado aceitam, com uma serenidade quase religiosa, que homens biológicos — com vantagem de massa muscular, densidade óssea, capacidade pulmonar e histórico de puberdade masculina — se declarem mulheres e ocupem categorias, balneários e pódios reservados às mulheres. Isso já não é “sexualizar”. Isso é inclusão. Isso é “mulheres trans são mulheres”. O facto de isto distorcer recordes, causar lesões e destruir a própria razão de existir da categoria feminina passa a ser um mero detalhe técnico, ou fruto de ódio. A batota pura transforma-se em progresso. A mulher que usa o próprio corpo num anúncio, não.

Há aqui uma hierarquia curiosa de pecados. Uma celebridade adulta que decide explorar a própria imagem — com contrato, percentagem e total liberdade de recusar — ofende o desporto. Um homem que entra na natação, no boxe ou no râguebi feminino e bate recordes ou parte maxilares é considerado “a atleta mais corajosa da prova”. A primeira é acusada de reduzir as mulheres a corpos. O segundo é elogiado por expandir a definição de mulher até esta deixar de significar o que quer que seja.

O feminismo que se assume radical contra Sweeney e, ao mesmo tempo, brando com a indústria do sexo e com a autoidentificação sexual sofre de uma contradição que já não se consegue esconder com hashtags. Se o problema é a mercantilização do corpo feminino, então o “trabalho sexual” não é trabalho: é a forma mais antiga e mais dura dessa mesma mercantilização. Se o problema é a integridade do desporto feminino, então a categoria tem de ser baseada no sexo, não no sentimento. Não se pode defender as duas teses em simultâneo sem fazer parecer que o alvo nunca foi o patriarcado, mas sim certas mulheres — as que não pedem licença ao comité de virtudes.

Sweeney não inventou o olhar masculino nem o marketing que o alimenta. Também não tem a obrigação de representar todas as atletas do planeta. É uma actriz que vendeu uma campanha provocadora para uma empresa de apostas. Pode-se considerar o anúncio de mau gosto, oportunista ou preguiçoso. Pode-se preferir que o desporto feminino seja promovido com cronómetros e não com ângulos estratégicos. Pode-se, ainda, recusar por princípio que o corpo da mulher sirva de suporte publicitário — uma recusa que, no meu caso, provém da fé e não da moda ideológica do momento.

Contudo, isso não transforma automaticamente quem o critica numa defensora coerente das mulheres. Porque a coerência exigiria outra conversa: a de que o sexo existe, que as categorias femininas existem exatamente por causa disso, e que “empoderar” não pode significar, ao mesmo tempo, legalizar a venda do corpo das mais precárias e abrir as competições femininas a quem nasceu homem. Enquanto essa conversa for um tabu, o “pontapé na cara de todas as mulheres” continuará a ser dado — só que nem sempre pela atriz nua. Às vezes é dado por quem, em nome delas, já nem sequer sabe o que é uma mulher.

Título, Imagem e Texto: Maria Helena Costa, ContraCultura, 21-9-2026

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